"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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domingo, 4 de dezembro de 2011

TEMPO DE DELICADEZAS

Estamos sendo cuidadas.

O conforto chega em telefonemas para o hospital, de madrugada. Em ajuda para a apresentação de ginástica. Em assumir problemas deixados por outro, e ocupar espaços importantes no coração de uma criança. Cuidado chega em chocolates, bonecas, e no gesto de cobrir quem adormeceu de cansaço. O cuidado se faz presente na distância e também se descortina lado a lado, no abraço. No olhar. Carinho que me encanta.

E porque  um tanto do fardo me é tirado, aumenta o espaço para que eu também cuide. Há mais espaço em mim para o melhor e mais belo. Também posso guardar melhor minha menina, pois estou mais tranquila e serena.  

O cuidado diz "eu amo você" sem palavras. Com carinho, com atenção, com discrição. Porque que ama cuida, inclusive, contra a inveja alheia.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ENQUANTO O TEMPO PASSA



(Estou em uma fase introspectiva, ao mesmo tempo, de muito trabalho. Amadurecendo algumas coisas, cultivando outras. Esperando o tempo da colheita. Para não abandonar o blog, reedito um texto de 2008, um dos que mais gosto, pelo significado que tem para mim).



... doce nome de filha

Eu já disse em outro post que minha infância tem a luz da casa dos meus avós paternos.
Minha menina de cachos tem o mesmo da minha avó materna. Elas nunca se encontraram... Mas eu conto para minha menina histórias da bisavó.
Minha avó era muito doce. Eu era uma criança muito quieta e ela sempre me entendeu. Gostava de ficar em cima da cama no quarto dela enquanto era arrumado e ver a poeira dançando nos raios de sol. Estou nesta cama na minha foto preferida.
Ela me contava sobre sua infância e juventude, histórias que me encantavam. Filha mais nova de uma família bastante tradicional na cidade, suas roupas eram feitas por uma modista copiando figurinos que vinham de Paris (eu ainda tenho uma revista com estes figurinos). A casa dos meus avós era cheia de pequenos tesouros escondidos em armários e gavetas, xícaras chinesas delicadas como asas de borboletas, vidros de perfumes que cheiravam como um jardim inteiro, broches e enfeites vindos de lugares exóticos...
Minha avó era capaz de pequenos gestos cheios de significado. Cada neta tinha uma xícara especial para tomar café com leite e para cada uma ela fazia um bolo especial (meu irmão veio bem depois). Cozinhava divinamente. Também era muito bem humorada, gostava de contar piadas, adorava festas e estava sempre lendo, romances históricos que eu adorava ir comprar com ela no Mercado. Era muito sincera, para desgosto do meu avô, e histórias a respeito desta sinceridade fazem parte das lendas familiares.
Esta minha avó serena, que todos amavam, não teve uma vida fácil, no entanto. Perdeu dois filhos, um ainda criança, de sarampo. E outro, meu tio mais bonito e inteligente, morreu muito jovem em uma tragédia. Imagino que para ela e para meu avô a vida não tinha tantas cores quanto as que eles nos davam.
Ela tocou a vida de muita gente com sua delicadeza. Espero que minha menina seja, como ela, uma verdadeira dama.
(Minha outra avó tem nome de flor, mas é na verdade uma velha e bela árvore. Em sua sombra se abriga uma grande família, unida pela sua presença).



quarta-feira, 14 de abril de 2010

LIÇÃO DE CASA

A professora me falou que há dias em que minha menina não quer fazer nada na escola, fica distraída, não acompanha a turma. Não é sempre, mas me preocupa. Hoje, em uma conversa, pedi para que ela me prometesse que não ia mais acontecer:

- Mãe, não vou prometer isso. Não sei se vou cumprir. E você me ensinou que a gente só promete aquilo que sabe que vai fazer.

Não sei não... Mas acho que as lições mais importantes, ela está aprendendo direitinho.


(update: ela acaba de escrever a primeira frase sem ajuda, agora, às 20h40 do dia 16/04/2010: "Ana eu te amo de paixão". Adivinhem se chorei?...)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

PALAVRAS

Não me lembro de um tempo em que não sabia ler. Palavras me acompanham desde sempre. Um livro que ainda não li é sempre um prazer a ser descoberto. É esse meu vício. Nada de chocolates para mim: livros, sempre livros. Criança ainda, perdia-me nas festas procurando onde estavam os livros, e escondia-me para ler. Ainda me lembro do primeiro livro de "gente grande" que li, aos nove anos (e me encanta até hoje): "Música ao Longe", de Érico Veríssimo. Minha filha quase chamou-se Clarissa.

Esse encanto pelas palavras levou-me, talvez, ao equívoco de atribuir a palavras bonitas iguais sentimentos. Esquecendo-me que na vida, assim como na literatura, é possível inventar o belo. Tenho agora que descobrir a beleza dos gestos e o encanto do silêncio.

"Words are never as precise as touch" (Dana Gioia)


O Alexandre Serpa acertou em cheio ao lembrar-se dessa música no seu comentário:




Enjoy The Silence
Composição: Martin L.Gore

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
Enjoy the silence...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CARNAVAL

Eu gostava muito de carnaval quando criança, especialmente porque saíamos de São Paulo para a casa dos meus avós. Gostava das fantasias e especialmente do ritual de fantasiar-se, de como minha mãe cuidava de mim e de minha irmã, nos maquiava. Mas no salão do clube eu ficava sempre um tanto tímida, eu gostava de dançar, de brincar, porém não de me exibir.

Minha menina é tão diferente de mim! Este ano ela aproveitou o carnaval como nunca! Minha família reuniu-se em uma chácara na zona rural da cidade, que ela adora. Mas ela pediu para ficar e ir brincar o carnaval. E como ela se divertiu! Fez amigos, dançou, jogou confetes. E me surpreendeu logo no primeiro dia, quando viu a banda tocando e pediu pra subir no palco. Eu, meio descrente, disse:

- Se tiver como, pode ir.

E não é que ela descobriu como subir, e foi? Dançou lá em cima sozinha, depois com várias adolescentes, mas só ela de criança. E nos outros 2 dias de carnaval, fez a mesma coisa, subiu ao palco para pular sozinha com os músicos. Na terça-feira, finalmente, várias outras crianças se animaram e subiram também, e ela ficou toda contente.

Achei tão bonita essa auto-confiança dela. Espero que seja sempre assim, que ela acredite que pode fazer, e mais ainda, que pode se mostrar como é na frente de outras pessoas, porque será aprovada. E olha que, pra ser sincera, ela não leva o menor jeito pro samba...

Esse carnaval dediquei quase exclusivamente a ela, tivemos muitos momentos juntas, muitas conversas só de nós duas. Paradoxalmente é triste não ter com quem dividir esses momentos. É uma delícia observar o quanto ela cresceu, como aprendeu tanto e me ensina mais ainda. Fantasiada, maquiada ou de máscara, ela é sempre a mesma, preserva sua essência e age com verdade e espontaneidade. Esse carnaval me mostrou, através da alegria de minha menina, que as máscaras que devemos temer são as que se ocultam e não, as que se mostram.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

DE PEQUENO PRÍNCIPE A GRANDE HOMEM

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Nunca gostei dessa frase. Ela diz exatamente o contrário do que penso sobre o amor. Amor é liberdade, para si e para a pessoa amada. Cativo é escravo, e não quero aqueles que amo, ou que me amam, presos a mim. Tampouco quero assumir a responsabilidade pela vida alheia, pior ainda, pela eternidade afora... Quanto egoísmo há em amar alguém e entregar a ele a própria vida.

Essa visão de que amar é "pertencer a alguém" é bastante popular, eu sei. Há filmes, livros, poemas, músicas. Eleita "a música da década de 80", a linda melodia de "Every breath you take" do The Police, me causa falta de ar só de imaginar alguém me vigiando a cada vez que eu respiro. A cada vez que eu me movo...O próprio Sting, mais esperto e melhor casado, alguns anos depois cantou: "If you love somebody, set them free" (se você ama alguém, deixe-o livre). Djavan cantou: "vem me fazer feliz porque eu te amo". Para piorar, ainda completa "esqueço que amar é quase uma dor. Só sei viver se for por você." Como assim? Como dizem em inglês, get a life.

Amor - seja por quem for, Deus, pai, mãe, filhos, amigos, amantes, parceiros - é alegria, é doação desinteressada, é compartilhar e principalmente, agregar. Acrescentar descobertas e experiências à vida do outro e à minha. Amor é movimento, seguir em frente, desfrutar o caminho. Cuidar sem vigiar. E não, cativeiro.

Eu amo minha filha, sei que ela me ama. Mas não sou eu a responsável pela felicidade dela, embora seja uma das responsáveis por seu bem-estar, enquanto ela ainda é criança. E a melhor maneira de demonstrar meu amor por ela é ensiná-la a ser livre e a amar a si mesma. Só aquele que encontra a felicidade por si é capaz de dividi-la.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

INTENÇÃO E GESTO

Eu nunca fiz promessas de Ano Novo. Procuro, claro, traçar meus objetivos e determino o melhor caminho para alcançá-los.Todavia, eu acredito na ação e não, na intenção.

Minha vida não é exemplo para ninguém... Sou insegura, hesito bastante antes de uma decisão, paradoxalmente tenho um tanto de auto-indulgente...Contudo, quando quero mudar alguma coisa, mudo já. Nunca na segunda-feira. Nunca no ano que vem.

Quase sempre eu me calo mais do que falo, pois procuro viver sob a máxima de jamais lançar uma promessa em vão. Principalmente nas relações pessoais, persigo essa fidelidade entre palavras e sentimentos. Comprometo-me com aquilo que digo, transfiguro promessas em gestos. Ensino minha menina a ter também esse cuidado. Muitas vezes, ao ser repreendida, ela logo diz:
-Mamãe, eu juro que nunca mais faço isso.
E eu respondo: Só jure aquilo que você sabe que vai cumprir. E lembre-se que palavras não importam, o que importa é o que você faz.
Talvez no fim das contas, eu faça menos do que poderia. Até por excesso de cautela. Mas assumo as conseqüências e procuro agir de forma a que confiar em mim seja possível. Afinal, eu sei o quanto dói descobrir que a distância entre a intenção e o gesto não foi percorrida.

Embora aos tropeços, procuro seguir o princípio moral de Kant que diz:
"Age de tal maneira que trates a humanidade, na tua pessoa ou na de outrem, sempre e simultaneamente como fim e nunca apenas como meio."
Outro conceito que persigo é o da compaixão. Acho que este é um sentimento tão belo quanto o amor. Não confundir com piedade, que pressupõe um olhar de superioridade em relação ao sofrimento alheio. Ter compaixão é compartilhar o sofrimento do outro, sem julgar as razões alheias, sem preconceitos. Esse é meu grande desafio, a meta de crescimento espiritual que ainda não consegui atingir, mas busco. Não somente ver a todos como iguais, mas ser capaz de verdadeiramente colocar-se no lugar do outro. Como disse Buda: " Vosso sofrimento é o meu sofrimento, vossa felicidade é a minha felicidade".
É essa, então, minha mensagem de final de ano. O mantra da compaixão:

OM MANE PADME HUM

O Ano Novo não muda nada. Quem muda somos nós.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

DANDO LAÇOS, DESATANDO NÓS


Nesse final de semana minha avó fez 90 anos. 
Ao longo do nosso tempo juntas, as memórias mais carinhosas são da sua linda voz cantando, das suas histórias antes de dormir e dos famosos bolinhos, que de tão bons são conhecidos como os "bolinhos da Tia Anastácia". E que ninguém, ninguém mesmo, é capaz de fazer igual.
Minha avó foi lindíssima na juventude e continua bonita. Surpreende a todos pela energia, pela fé e principalmente pela capacidade de comer de tudo... Mas sua memória a trai muitas vezes. Os irmãos que ela não encontrava há anos vieram para a comemoração e havia a expectativa se ela os reconheceria ou não... E ela ficou, sim, muito feliz com a presença deles, que ficaram o tempo todo ao lado dela. Parte da família se reencontrou, parte se conheceu naquele momento... E as duas mais novas bisnetas, de 4 meses, se viram pela primeira vez.
Minha avó já não é capaz de morar sozinha, precisa de ajuda para algumas tarefas cotidianas. Todavia, mantém intactas suas preferências, faz suas escolhas e até briga por elas algumas vezes!
Observando a festa, as pessoas e especialmente minha avó, refleti sobre uma questão que tem me rondado: independência x autonomia.

Para mim, a independência tem um caráter objetivo, refere-se à questões de ordem prática, que nos permitam sobreviver sem ajuda. Ter um bom salário, um lugar para morar, poder se locomover sozinha... Tudo isso e ainda mais pode nos fazer independentes. Buscar a independência é uma das condições para alcançar a liberdade.
Mas sobreviver só, não basta... O importante é VIVER. Por isso, para mim a autonomia é mais importante que a independência. Autônomo é quem cria suas próprias regras - e que tem a liberdade de recriá-las, se for o caso. Autonomia está ligada à questões subjetivas como liberdade de escolha, definição de objetivos e metas, enfim, de assumir o leme da própria vida. Em diversos momentos, pode ser que sejamos dependentes de ajuda externa, assim como as crianças, os idosos, os deficientes. Ou mesmo quando um revés nos atinge. Mas quem é autônomo tem a capacidade de escolher seus caminhos, de se reinventar. Pode escolher até mesmo não agir.
Lutar pela independência pode implicar em confronto, ao passo que a autonomia é sempre uma atitude positiva. Autonomia é liberdade. Mesmo em uma prisão, ainda se pode fazer escolhas, evoluir. Importante dizer que quem é autônomo pode não ter independência em alguns aspectos, mas não é nunca dependente, ao não se deixar prender por expectativas alheias, por convenções, por medos.
A busca excessiva pela independência pode acabar em solidão, na medida em que se acredita prescindir de outros. Enquanto ser autônomo é ser livre para escolher as companhias, sem ter medo das relações que se estabelece. É ter confiança em si e no próximo.
Quem quer ser independente a ponto de apartar-se também das relações pessoais, na verdade está abrindo mão da sua autonomia. Está deixando de decidir, de experimentar, de ousar. Está dando nós, e não criando laços. Torna-se, apenas, um sobrevivente.
Enfim, quem é independente tem controle dos aspectos práticos da própria vida, enquanto quem é autônomo tem poder sobre si mesmo. 
É isso que quero para minha filha: que ela busque - e encontre - sua independência, mas principalmente, que tenha autonomia. 
Que faça laços e não ate nós.

"Happines (is) only real when shared"

Esse texto foi uma das causas dessa minha reflexão:
Aline tem todo o tempo do mundo

Recomendo muito esse filme, baseado em uma história real:
Na Natureza Selvagem (Into the Wild)

Texto do blog "O que der e vier" que também fala sobre conceitos semelhantes e distintos (esse blog é otimo):
Sobre modéstia e humildade



segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DE EVA A GEISY

A culpa é sempre das mulheres. Como cantou Rita Hayworth em 1946 no filme Gilda, "put the blame on mame".
Mas estamos em 2009, e a moça do vestido curto foi expulsa da universidade. Em nome da "ética", "dignidade" e ""moralidade". Geisy, com seu vestido rosa, ao mesmo tempo Eva e a maçã dos tempos modernos, expulsa para proteger os outros alunos da sua sexualidade provocadora.

Segundo anúncio publicado em jornais, a direção da universidade alega que "a atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar." O mesmo argumento que estupradores, assassinos em nome da honra, apedrejadores e outros criminosos e tiranos usam há séculos para justificar atrocidades contra mulheres: "Ela provocou".
Ao alegar que o problema foi a atitude da moça, mais que sua roupa, os responsáveis pela universidade parecem se esquecer que os outros alunos, adultos, sãos, poderiam aceitar ou recusar o "oferecimento" da moça, não precisando de proteção contra a sexualidade alheia. Protegida deveria ter sido a moça contra os insultos e agressões que sofreu. De homens e mulheres, também incomodadas - ameaçadas?

Quando escolhemos uma roupa para vestir, passamos uma mensagem. Devemos, portanto, ter o cuidado de transmitir aquilo que desejamos, seja ao usar minissaia ou burca. No caso da Geyse, a atitude e as roupas estavam em sintonia. Uma moça que se acha bonita, segura do seu poder de atração, que se veste dessa forma. Eu acho que ela está certa. Quem se sente ameaçado por ela deve procurar em si as causas desse desconforto. Talvez não tenha a mesma segurança que ela em relação ao seu próprio corpo. Ou, como se viu, não saiba controlar seus impulsos.

Espero que esse não seja o fim desse caso e que os agressores e a universidade sejam punidos por tanto sexismo e preconceito. Mais ainda, espero que ao crescer minha menina não seja prisoneira do seu corpo e refém da vontade alheia.

(Quando eu tinha uns 16, 17 anos, tive um vestido bem parecido com o da Geysi. Vermelho. Fazia o maior sucesso!)

UPDATE: O Reitor da UNIBAN informou que revogou a decisão do conselho que expulsou Geisy e dará "melhor encaminhamento à decisão."

Excelente texto:


Are you decent? trecho do filme Gilda

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PELO DIREITO DE SER DIFERENTE

Hoje eu estou indignada. Muito.

Eu ensino minha menina que devemos fazer aos outros aquilo que queremos que nos façam. Eu mesma tento a cada dia respeitar as escolhas e o espaço alheios. Sonho com um mundo mais tolerante.
E ontem uma notícia me tirou o fôlego. Uma aluna da UNIBAN foi ofendida e segundo consta, ameaçada de estupro, porque foi à faculdade vestida de minissaia e se portou de forma "provocativa". Os vídeos foram retirados da internet, mas logo outros são postados. Mostram a moça saindo escoltada pela polícia enquanto outros alunos observam, riem, tiram fotos no corredor lotado. Ninguem parece manifestar qualquer solidariedade. Aliás, nos diversos veiculos de mídia que divulgaram a notícia, chovem comentários preconceituosos, muitos dizendo que "ela provocou e mereceu".

Existem países em que as mulheres devem andar cobertas. Em outros, meninas são mutililadas para não sentirem prazer sexual. Até mesmo nos países escandinavos, que atingiram os mais altos índices de participação feminina no mercado de trabalho e na política, aumentam os casos de violência doméstica. E no mundo ocidental, a mulher se vê cada vez mais presa na armadilha da eterna juventude e beleza a todo custo. É uma coisificação da imagem feminina que me preocupa pela sua escalada crescente. E assisto com tristeza a cumplicidade feminina em aceitar esse papel tão pequeno e árido. Meninas que se vestem como mulheres, mulheres que se vestem como meninas. No entanto, embora eu ache que os caminhos do despertar do desejo são tanto mais interessantes quando mais privados e individualizados, acho que todos tem o direito de se vestirem como quiser. Ainda mais em um ambiente adulto.

Espero que minha filha cresça de forma a se manifestar contra a unanimidade burra em casos como esse. E que saiba que o legal do mundo não é que somos todos iguais. O legal é que somos todos diferentes.

Para saber mais (não deixe de clicar nos links):

http://colunas.epoca.globo.com/bombounaweb/2009/10/29/uniban-se-pronuncia-sobre-video-de-aluna-hostilizada/ (matéria da Época sobre o caso)

http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2009/06/experimentos-em-psicologia-a-unanimidade-burra-de-solomon-asch.html (A Unanimidade Burra de Solomon, da imperdível série Experimentos em Psicologia do Blog Não Posso Evitar)

http://www.bullying.com.br/ (site sobre bullying)

http://www.riocomgentileza.com.br/ (Esse é para lembrar que Gentileza gera Gentileza)

domingo, 11 de outubro de 2009

LITTLE BEAUTY


Ela chegou até mim e pediu:

- Mãe, escreve pra mim aquelas coisas importantes? E o nosso lema?

Então, copiou tudo caprichosamente (esqueceu algumas letras no processo) e me entregou:

- Eu fico com o seu papel e você fica com o meu. E assim eu vou ser sempre uma filha belezinha, e você uma mãe belezinha.

Filha, você é mais que belezinha. Você é a beleza em sua forma mais pura. Quisera eu ser capaz de apenas lapidá-la, porque você já nasceu pronta.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

NAVEGAR É PRECISO

Eu tenho um livro de poesia da Cecília Meireles em que logo na primeira página está escrito: "Gostaria que pertencesse à minha filha, um dia". Embaixo, a data - do ano em que eu nasci. Acho muito bonito essa esperança da minha mãe, de que eu herdasse o livro e o gosto pela poesia. O que aconteceu.

Eu também quero deixar para a minha menina livros e o prazer da leitura. Começo pela minha edição da obra completa de Fernando Pessoa. Seus versos me acompanham há muito tempo. E há um do qual me lembrei hoje:

"viver não é preciso"

Se falta à vida a precisão da navegação, sobra, contudo, espaço para mudanças, improvisos, surpresas. Não tenho a carta náutica que dê a direção a seguir. Mas tenho a esperança a me dar um norte. E também outros versos do poeta para navegar:

"Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu".

(Existe uma discussão a respeito do sentido da frase do poema de Fernando Pessoa. Preciso de precisão ou de necessidade? A frase original em latim foi dita pelo General romano Pompeu para incitar seus marinheiros à guerra e fala que viver não é necessário. Pessoa diz que viver não é necessário, o que é necessário é criar. Mas eu acho que a obra foi além desse significado primeiro (e acho também que viver e dar um significado à vida é sim, uma necessidade). Seja como for, a ambiguidade torna o poema ainda mais bonito. Aceito críticas e comentários!)

domingo, 16 de agosto de 2009

ÂNCORA E VELA

Segue um belo, muito belo, poema. Pedi e obtive autorização do autor para publicá-lo aqui no blog. E vou sempre me lembrar da noite linda em que li esse poema pela primeira vez.

Eu prefiro as velas. Um porto. E um farol.

E você?

ÂNCORA E VELA
Roberto Marinho Guimarães

Há quem seja
Na vida da gente
Âncora
Ou vela.

Optamos pela âncora à vela
Na maioria das vezes.

Âncora sugere segurança.
Vela, desafio.

Âncora detém
Na linha d’água
Morta a esperança

Vela mantém
No paradoxo da incerteza
O amadurecimento da alma,
A satisfação de viver e
Não permitir que, ao largo, a vida passe.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

MÁSCARAS

Olhando a foto de minha filha e seus colegas de classe, o que me encanta são as diferenças. Cabelos de todas as cores e tipos. Diferentes tons de pele e de formas de corpo. Cada criança diferente da outra, reconhecível em sua individualidade. Por que crescemos e queremos nos tornar iguais? Os esterótipos de beleza são vazios porque lhes falta o encanto do único.

Em casa, são três crianças quase da mesma idade. Todas lindas. Uma, loira de olhos azuis. Rosada e lânguida. Outra (gêmea dessa!), tem os cabelos e olhos pretos, a estrutura sólida. Minha menina tem os cabelos e olhos castanhos e é atlética e cheia de energia. Todas são e se reconhecem lindas. No entanto, já começam a perceber a uniformidade entediante do mundo dos adultos, a pressão pelo ser igual através do consumo. Minha atenção é toda no sentido de evitar que minha filha linda e única cresça buscando padrões impostos por quem não sabe nada daquilo que a faz especial.

Mas não quero proteger minha criança somente da máscara exterior dos padrões de beleza. Quero que ela cresça segura de suas opiniões, de seus valores, e aprenda a se mostrar ao mundo de cara limpa. Saiba se expressar com verdade e ter orgulho de quem é e de seu caminho. E mais ainda, aprenda a reconhecer e descartar as máscaras alheias.

(Esse post foi inspirado pelo texto abaixo, escrito por um homem muito talentoso, verdadeiro e especial naquilo que tem de único:

Nunca gostei e sempre tive medo de palhaço e de Papai Noel. Mais tarde, descobri que sentia o mesmo em relação a Carnaval. No período cruel da afirmação, da ditadura da adolescência, sofri o desconforto dos estereótipos. Hoje, aliviado, vejo que tinha razão: na verdade, não gosto mesmo é de máscaras, menos ainda, de quem se esconde por trás delas! )

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Feliz futuro!

Não gosto de postar textos prontos, tenho prazer em escrever.
Mas o texto abaixo é tão bonito, e traduz aquilo que eu tento transmitir a minha menina todos os dias. Achei na internet como sendo de Gandhi.
Então fica sendo o primeiro texto do blog em 2009.

Feliz futuro, para minha filha e para todos!

“Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria aceso o sentimento de amar a vida. A consciência de aprender tudo o que foi ensinado pelo tempo afora. Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem. Daria a capacidade de escolher novos rumos, novos caminhos. Deixaria, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável. Além do pão, o trabalho. Além do trabalho, a ação. Além da ação o cultivo à amizade. E, quando tudo mais faltasse, deixaria um segredo: O de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída”.

Viver é muito bom!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Presentes, princípios e valores

Estou tendo problemas com o presente que demos à minha menina do Dia da Criança. O brinquedo não funciona como deve. Pior que não é defeito apenas do que compramos, é um erro de projeto, mesmo.

Desde domingo passado este presente tem sido motivo de desencanto para ela. É uma situação bastante delicada, pois envolve também os princípios e atitudes que ensinamos. Não mentir, cumprir o que promete, fazer sempre o melhor possível, não magoar os outros... Tudo isto está sendo questionado pela minha filha em relação ao ocorrido. Quando ela finalmente entendeu que o brinquedo não funciona como no comercial da TV e NUNCA irá funcionar, a tristeza e decepção foram sem tamanho...
Eu não compro brinquedos de camelô. Não compro DVDs piratas. Dou preferências à empresas que tenham políticas sociais e ambientais. O brinquedo em questão tem selo do INMETRO e a empresa é reconhecida pela Fundação Abrinq. Mas quem trabalha com crianças, trabalha com mais que qualidade. Trabalha com sonhos. Os cuidados devem ser muitos maiores!
Como este é um blog anônimo, não acho ético revelar aqui o nome da empresa e do brinquedo. Estou há quase 10 dias em negociações com a empresa para chegar a uma solução. Recebi algumas propostas ridículas. Mas acho que o caso se encaminha para a solução que acho correta: devolução do dinheiro (e do brinquedo). Graças, principalmente, à intervenção da ABRINQ, a quem denunciei o ocorrido. Também fiz denúncia ao CONAR, já que o que é anunciado não corresponde à verdade.
Minha menina chegou a dizer que "não é certo enganar as crianças". Não é mesmo.
Você tem razão mais uma vez, filha.
***
Agora vou contar um caso inverso. Um caso de respeito ao consumidor e preocupação com o público infantil. Neste caso, faço questão de contar o nome da empresa: O BOTICÁRIO
Anos atrás, eu passava no rostinho da minha menina, que ainda tinha cachos, o bloqueador solar infantil da marca. Por descuido meu, acabei deixando um pouco do produto entrar no olhinho dela.
Lavei bastante com água e soro fisiológico, mas como o olho continuava bastante irritado, liguei para o número do SAC para perguntar se havia alguma outra providência recomendada. Liguei sem maiores pretensões.
Recebi O MELHOR ATENDIMENTO DO MUNDO. A pessoa que me atendeu tinha total autonomia. Ela mesmo resolveu o problema rapidamente e acompanhou o caso até o fim.
A empresa fez questão que eu levasse minha filha ao oculista. Pagaram todas as despesas com remédios (colírio). A funcionária que me atendeu ligou durante uma semana para saber como minha criança estava. E ainda se ofereceram para analisar o produto ou trocá-lo.
Depois de 15 dias, recebi uma carta com todas as informações do atendimento. Uma carta pessoal, e não padronizada.
Veja bem, tudo aconteceu por um descuido MEU. E nem foi nada grave. Mas O Boticário demonstrou que o respeito ao consumidor realmente é um valor importante para a marca.
E ganhou ao menos duas consumidoras fiéis pelo resto da vida.
RECOMENDO MUITO:
Para denunciar:

terça-feira, 2 de setembro de 2008

... doce nome de filha

Eu já disse em outro post que minha infância tem a luz da casa dos meus avós paternos.
Minha menina de cachos tem o mesmo da minha avó materna. Elas nunca se encontraram... Mas eu conto para minha menina histórias da bisavó.
Minha avó era muito doce. Eu era um criança muito quieta e ela sempre me entendeu. Gostava de ficar em cima da cama no quarto dela enquanto era arrumado e ver a poeira dançando nos raios de sol. Estou nesta cama na minha foto preferida.
Ela me contava sobre sua infância e juventude, histórias que me encantavam. Filha mais nova de uma família bastante tradicional na cidade, suas roupas eram feitas por uma modista copiando figurinos que vinham de Paris (eu ainda tenho uma revista com estes figurinos). A casa dos meus avós era cheia de pequenos tesouros escondidos em armários e gavetas, xícaras chinesas delicadas como asas de borboletas, vidros de perfumes que cheiravam como um jardim inteiro, broches e enfeites vindos de lugares exóticos...
Minha avó era capaz de pequenos gestos cheios de significado. Cada neta tinha uma xícara especial para tomar café com leite e para cada uma ela fazia um bolo especial (meu irmão veio bem depois). Cozinhava divinamente. Também era muito bem humorada, gostava de contar piadas, adorava festas e estava sempre lendo, romances históricos que eu adorava ir comprar com ela no Mercado. Era muito sincera, para desgosto do meu avô, e histórias a respeito desta sinceridade fazem parte das lendas familiares.
Esta minha avó serena, que todos amavam, não teve uma vida fácil, no entanto. Perdeu dois filhos, um ainda criança, de sarampo. E outro, meu tio mais bonito e inteligente, morreu muito jovem em uma tragédia. Imagino que para ela e para meu avô a vida não tinha tantas cores quanto as que eles nos davam.
Ela tocou a vida de muita gente com sua delicadeza. Espero que minha menina seja, como ela, uma verdadeira dama.
(Minha outra avó tem nome de flor, mas é na verdade uma velha e bela árvore. Em sua sombra se abriga uma grande família, unida pela sua presença).

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Para sempre

Ontem estávamos voltando da escola e ela inventou uma música. Em inglês! Cantou por boa parte do caminho. Eu dizendo que estava lindo! Quando parou, disse:
- Mãe, você sempre vai lembrar desta música?
Vou sim, filha. Da música. Das nossas idas e vindas a pé da escola, quase meia hora andando, bastante para suas perninhas tão pequenas. Mas tão bom nossas conversas, as paradas fixas no caminho, sua mãozinha na minha.
Para sempre vou lembrar de quando minha menina tinha 4 anos e íamos juntas para a escola. Vou lembrar de como é bom voltar para casa no verão prolongando o caminho, dia ainda, e parar para tomar café e comer pão de queijo. O biscoitinho do café vai ser sempre seu!
Vou lembrar de quando os dias ficam mais curtos e a noite vai caindo enquanto voltamos para casa e olhamos o céu para ver a cor da nuvens, se tem estrelas e qual a forma da Lua. Nossa preferida é o "sorriso do gato da Alice".
Vou lembrar que o Chef Remy e a Timkerbell nos esperam sempre no alto da palmeira, depois do sinal. E depois vão voando com a gente até a escola, ou até em casa.
Vou lembrar que eu sempre pergunto "já disse que te amo hoje?" e você sorri e diz que sim e me dá um beijo "grudinho de bico".
Vou lembrar de como é difícil subir aquela ladeira. De como é bom pisar nos "crocts" que caem das árvores no outono. Vou lembrar daquele senhor que vende cachorrinhos de brinquedo na porta do hospital.
Vou lembrar que reformaram seu "lugarzinho de brincar", porque virou um Banco.
Vou lembrar que você sempre pedia para eu comprar algodão doce, e quando eu comprei você gostou "só da máscara".
Vou lembrar que você gosta tanto de ir para a escola que quando viramos a esquina você sempre corre para chegar logo.
Vou lembrar sempre da sua carinha linda e sorridente descendo as escadas quando eu vou te buscar.
Vou lembrar sempre de você me contando "what for snack time" na volta. E de como você gosta dos dias de muito vento, ou de chuva (e eu não).
Vou lembrar de seus amiguinhos, das suas professoras, de todos na escola.
Espero que você se lembre também. Porque você é muito, muito feliz.
E eu desejo que você continue assim.
Para sempre.

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