"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

DANDO LAÇOS, DESATANDO NÓS


Nesse final de semana minha avó fez 90 anos. 
Ao longo do nosso tempo juntas, as memórias mais carinhosas são da sua linda voz cantando, das suas histórias antes de dormir e dos famosos bolinhos, que de tão bons são conhecidos como os "bolinhos da Tia Anastácia". E que ninguém, ninguém mesmo, é capaz de fazer igual.
Minha avó foi lindíssima na juventude e continua bonita. Surpreende a todos pela energia, pela fé e principalmente pela capacidade de comer de tudo... Mas sua memória a trai muitas vezes. Os irmãos que ela não encontrava há anos vieram para a comemoração e havia a expectativa se ela os reconheceria ou não... E ela ficou, sim, muito feliz com a presença deles, que ficaram o tempo todo ao lado dela. Parte da família se reencontrou, parte se conheceu naquele momento... E as duas mais novas bisnetas, de 4 meses, se viram pela primeira vez.
Minha avó já não é capaz de morar sozinha, precisa de ajuda para algumas tarefas cotidianas. Todavia, mantém intactas suas preferências, faz suas escolhas e até briga por elas algumas vezes!
Observando a festa, as pessoas e especialmente minha avó, refleti sobre uma questão que tem me rondado: independência x autonomia.

Para mim, a independência tem um caráter objetivo, refere-se à questões de ordem prática, que nos permitam sobreviver sem ajuda. Ter um bom salário, um lugar para morar, poder se locomover sozinha... Tudo isso e ainda mais pode nos fazer independentes. Buscar a independência é uma das condições para alcançar a liberdade.
Mas sobreviver só, não basta... O importante é VIVER. Por isso, para mim a autonomia é mais importante que a independência. Autônomo é quem cria suas próprias regras - e que tem a liberdade de recriá-las, se for o caso. Autonomia está ligada à questões subjetivas como liberdade de escolha, definição de objetivos e metas, enfim, de assumir o leme da própria vida. Em diversos momentos, pode ser que sejamos dependentes de ajuda externa, assim como as crianças, os idosos, os deficientes. Ou mesmo quando um revés nos atinge. Mas quem é autônomo tem a capacidade de escolher seus caminhos, de se reinventar. Pode escolher até mesmo não agir.
Lutar pela independência pode implicar em confronto, ao passo que a autonomia é sempre uma atitude positiva. Autonomia é liberdade. Mesmo em uma prisão, ainda se pode fazer escolhas, evoluir. Importante dizer que quem é autônomo pode não ter independência em alguns aspectos, mas não é nunca dependente, ao não se deixar prender por expectativas alheias, por convenções, por medos.
A busca excessiva pela independência pode acabar em solidão, na medida em que se acredita prescindir de outros. Enquanto ser autônomo é ser livre para escolher as companhias, sem ter medo das relações que se estabelece. É ter confiança em si e no próximo.
Quem quer ser independente a ponto de apartar-se também das relações pessoais, na verdade está abrindo mão da sua autonomia. Está deixando de decidir, de experimentar, de ousar. Está dando nós, e não criando laços. Torna-se, apenas, um sobrevivente.
Enfim, quem é independente tem controle dos aspectos práticos da própria vida, enquanto quem é autônomo tem poder sobre si mesmo. 
É isso que quero para minha filha: que ela busque - e encontre - sua independência, mas principalmente, que tenha autonomia. 
Que faça laços e não ate nós.

"Happines (is) only real when shared"

Esse texto foi uma das causas dessa minha reflexão:
Aline tem todo o tempo do mundo

Recomendo muito esse filme, baseado em uma história real:
Na Natureza Selvagem (Into the Wild)

Texto do blog "O que der e vier" que também fala sobre conceitos semelhantes e distintos (esse blog é otimo):
Sobre modéstia e humildade



13 comentários:

Heloísa disse...

Nina,
Vou pensar melhor na sua abordagem sobre independência e autonomia.
Por enquanto, comento sobre sua avó, e seus 90 anos. Em muito, ela me lembrou minha mãe, que também foi muito linda, prendada, participante e inteligente. Seus 90 anos também foram muito bem comemorados.
Agora, ela vive uma fase mais difícil. Vai completar 96 anos, mas muito tranquila. Seu tempo de independência, e de autonomia, ficou para trás. Mas quanto bem ela fez, enquanto pode escolher seus caminhos.
Beijos.

3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Nina!
Adorei essa história de menos nós e mais laços!! =D
E que fofa a dona vovó! Adoro histórias de avós.

beijocas

deb

Nina disse...

Oi, Helô,

Não deixe de voltar aqui para me contar suas conclusões...
Eu já li no seu blog seus textos lindos sobre sua mãe, sem dúvida ela é muito especial. Deixou sua luz em mulheres lindas e fortes: você, sua filha, sua neta...

beijo!

Nina disse...

Oi, Deb,

Pois é...Avós são tudo de bom, né?

E, ah, os nós que criamos em nossas vidas...Muitas vezes nos impedem de aproveitar os laços.

(E esse vídeo é uma das músicas mais importantes dessa história aqui: http://meninadecachos.blogspot.com/2009/11/amor-musica-e-poesia.html)

beijo!

Marcelo disse...

Oi Ana,

Gostei muito desse texto. Nunca tinha pensado na diferença entre independência e autonomia, mas realmente existe. É incrível como conceitos aparentemente vizinhos, quase sinônimos, podem na verdade ser tão opostos. É um pouco como a modéstia e a humildade que escrevi um dia.

Parabéns a você e a sua Avó!!

Bjs,

Marcelo

Nina disse...

Oi, Marcelo,

Obrigada pelos parabéns!

Eu gosto muito desse seu texto, aliás, incluí um link para ele no meu.

bjo!

Silvana Alves disse...

depois de muito apanhar.. aprendi que sou autonoma...
entre outras reflexões ao ler esse texto, senti saudaeds de minha avó, que partiu há 2 anos.. logo depois de outra parte de minha vida ter ido embora... foi então que aprendi que as escolhas e decisões que tomamos serão refletidas pra sempre em nossas vidas... aprendi que a independencia não me servia pra mais nada, já que não tinha quem eu amava ao meu lado... ser autonoma, dá outra conotação pra vida e para as escolhas
feliz 2010

Nina disse...

Oi, Sil!

Você entendeu o que eu quis dizer...
Obrigada por tudo, e um 2010 de independência, autonomia, felicidade... E que você tenha ao seu lado alguém especial para compartilhar tudo isso!

beijo, linda!

Diálogo de Pedras disse...

Eu perdi a minha avó materna há muito tempo. Mas até hoje lembro dela pelo seu carinho, almoços de domingos e principalmente pela sua coragem de criar e educar seus 8 filhos depois de ficar viúva quando tinha apenas 30 anos.

Parabéns pelo texto. É uma lição vida pra todos nós.

Feliz ano ano novo!!!

Danny disse...

Oi Nina, queria poder ver as fotos da festa, deve ter sido linda.
Quero te desejar um ano de 2010 muito abençoado, que Jesus esteja sempre iluminando o seu caminho e da sua linda menina de cachos de cabelos lisos.
Bjs!

Juliana disse...

Nina, fiquei boaquiaberta ao ler esse seu post. Dias desses na análise, tava tentanto explicar como me sinto em relação
à minha mãe, À minha família e usei como metáfora os conceitos de metrópole e colônia pra falar de independência. E agora leio o que escreveu e é oque eu queria dizer.
Nossa!! Tô besta!
Vou reler e reler!

Nina disse...

Roberto,

Obrigada! Que linda a história da sua avó, escreva sobre isso!

beijo!

Danny,

Obrigada!
Felicidades sempre, sempre, sempre, para você, sua filha, seu marido, sua mãe... Toda a sua família linda, enfim!
Muitas bençãos!

bjo

Nina disse...

Juliana,

Poxa, que comentário legal! Adorei!
Obrigada, volte sempre!

bjo

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