"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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segunda-feira, 12 de julho de 2010

A DONA DO LABIRINTO

Maze - James Jean

Em uma de nossas conversas que atravessam a madrugada, um querido me sugeriu escrever sobre Ariadne. "Recolha seu novelo, e saia desse labirinto."

É bela a história de Ariadne. Ela amou Teseu à primeira vista, ao vê-lo no palácio do pai, voluntário para enfrentar a morte que parecia certa no labirinto do Minotauro. Bonita, decidida e inteligente, propôs a Teseu uma troca: ela o ensinaria a sair do labirinto, ele a levaria para Atenas para casarem-se. Ele aceitou e recebeu dela uma espada para matar o Minotauro, e um fio para encontrar o caminho de volta do labirinto. Segurando uma das pontas, ela o esperava na saída, quando ele retornou, vitorioso.
Mas Teseu não a amava, e a deixou, adormecida, em uma ilha no caminho de volta para Atenas. Abandonada, só, Ariadne se desespera ao acordar. Tocada por sua tristeza, Afrodite promete a ela um amor imortal. Esse amor materializa-se em Dionísio, que estava na mesma ilha e apaixona-se por Ariadne. Deus do prazer, do vinho, das festas, eles se amam enquanto dura sua vida mortal, numa celebração do amor e da alegria de viver. Após sua morte, o deus transforma a coroa que dera a Ariadne no casamento em uma linda constelação.

Há muitas e belas interpretações sobre esse mito, e meu querido gostaria que eu me lembrasse que é possível refazer nossas escolhas e aceitar os presentes que a vida nos dá. O que é verdade. Mas eu vou além. O que me chama a atenção na história é a presunção inicial de Ariadne, ao acreditar que poderia se fazer correspondida em seu amor por Teseu. Bonita, inteligente, amável, apaixonada, por que estaria ela errada? Porque o amor, como disse o poeta, é dado de graça. Não se troca. Amor é incondicional. Por isso, não condeno Teseu. Talvez ele próprio tenha querido amá-la... E foi ele, afinal, o fio que a conduziu ao amor de Dionísio. 

Somos todos, ao final das contas, condutores e conduzidos, perdidos em algum momento em nossos labirintos, esperando pelo amor que nos guie e nos resgate para a celebração da vida.


As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

AMOR

Rezo por minha filha todas as noites. Peço por saúde, felicidade, realização pessoal... E peço, sempre, para que ela tenha a felicidade de ser feliz no amor. Que ao se apaixonar, ela possa encontrar no amor também respeito, companheirismo, sinceridade, verdade.

Minha menina, ainda distante das delicias (e dores) do amor, vai encontrar um mundo em que os relacionamentos andam frágeis. Corre-se sempre o risco de trazer para as relações amorosas a mesma expectativa que temos em relação à tecnologia: querer sempre o mais novo, o mais bonito, o mais atualizado.  Buscar não apenas a satisfação pessoal, mas também ter alguém que se possa exibir. E na expectativa da novidade que seja melhor, ainda que se encontre o amor que se julgava buscar, a procura continua.

Mas amor não é jogo, não é medir forças, não é criar estratégias de conquista. Amar é chegar em casa, é reconhecer-se no outro, ao mesmo tempo que se deixa espaço para as diferenças. É um nunca se cansar de descobrir ternuras. Pode-se amar à primeira vista, mas para construir o amor, é preciso tempo e dedicação. É preciso paciência para que as lacunas deixadas pelas dúvidas sejam preenchidas com intimidade. Numa época feita de rapidez, tem sorte aquele que encontra alguém com quem possa conversar com calma, em quem se possa confiar, com quem se possa contar.

No entanto, os caminhos do amor devem sempre ser vias duplas. Levar ao outro e trazê-lo a si. O desequilíbrio dos quereres traz sofrimento. Amar ao outro como a si mesmo, e não mais do que a si mesmo, essa é a medida, o ponto de equilíbrio. Então, se há dor, é esse o fim? Deve ser esse o sinal de alerta para o fim do amor? Porém, é possível que nossa vontade comande nossas vontades?

Se não decidimos quando começamos a amar, podemos decidir quando deixar de amar?

Amor quer ser presença e não, lembrança.



Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

domingo, 6 de setembro de 2009

MAS AS COISAS FINDAS...

Poema lindo, que serve para todos os tipos de amores.
De amantes, de amigos, de pais e de filhos.
Amores vividos, amores nunca findos. Amores que ficam.

MAS AS COISAS FINDAS, MUITO MAIS QUE LINDAS, ESSAS FICARÃO
Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

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