"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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domingo, 5 de fevereiro de 2012

"A ÚNICA RIQUEZA É VER"

Foi aniversário dela. De presente, dei a ela uma viagem. Aliás, essa é uma combinação nossa que já dura alguns anos.
O que é efêmero, permanece. Assim creio.
Serão dela, para sempre, o mar sem fim, o sol, as ondas,os golfinhos, a chuva, a emoção da tirolesa. Vai perdurar a noite em que mostrei a ela o Cruzeiro do Sul e as Três Marias, só nós duas, o céu e o oceano. Ela vai continuar sendo Michael Jackson, andando de bonde e na corda bamba. Estaremos juntas, e com  os amigos. Sendo felizes.
Assim foi, assim é. Tudo maior do que os olhos vêem, do tamanho que a vista e o amor alcançam.
Um tempo que ela já definiu melhor do que eu:
"Mãe, por que tem dia que são muitos?"

(Mais de nós aqui: Blog da Vovó...mas não só )




terça-feira, 30 de agosto de 2011

AMAR

Viemos pelo céu, acima das nuvens. A chegada nos reservou uma surpresa, uma moça que se fez ainda mais linda. E ele estava lá... Tudo mudou, e nada mudou, na nossa longa história curta. Como no caminho que fizemos todos juntos, para um almoço de entrelinhas: nos perdemos, mas encontramos nosso rumo para casa. 

A menina chamou o mar, e ele veio.

Foi nessa noite, sem lua. Alguns dos encantos da praia escondidos entre vento e nuvens, minha menina, tal qual uma tartaruguinha, encontrou seu lugar, invocando o mar. E eu soube, definitivamente, quem sou. Tinha que ser à beira-mar, porque sou oceano sem fim.

Eu chamei o amor, e ele veio. 

‎" Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

PALIMPSESTO

Eu amo o cheiro das noites de verão. Cheiro da terra que libera o calor guardado durante o dia: de maneira preguiçosa enquanto a noite cai, ou violentamente sob a chuva. O verão é a minha estação, é a que constrói  minhas memórias afetivas. Basta o perfume da dama-da-noite para eu voltar à infância, onde cheiros, luzes e sons se misturam e sempre é o eterno pôr do sol de férias na praia ao mesmo tempo em que espio a tempestade da janela mais alta junto com minha mãe.




Minha menina vai fazer sete anos e espero que essas sejam as férias sobre as quais suas memórias serão construídas. Tivemos férias incríveis, nós duas junto a amigos queridos e generosos. Férias de ir à praia todos os dias, aprendendo com o mar que é sempre o mesmo e nunca igual. Férias de sol e águas transparentes, de caldos e capotes, de nadar sem roupa na chuva. Férias de pular no colchão, de dormir de cansaço, de Morango, de velhos sabores. Férias de aprender a fazer castelos de areia e descobrir que eles não duram, mas há sempre material para uma nova construção. Férias de passar a noite toda acordada conversando com quem já não está. Férias de café da manhã na cama, comida maravilhosa feita pelos amigos e do cachorro-quente mais caro do mundo! Férias de conhecer e reencontrar o Rio de Janeiro e criar novo significado para praia do Leblon.







E voltar para casa... Voltar e tentar fazer um ano verdadeiramente novo. Mudar a rota. Hoje, deitada na piscina com minha filha, o verão à nossa volta, olhando ora as nuvens, ora as estrelas, achei um novo norte.

"Mãe, as estrelas, mesmo quando se escondem, estão sempre ali para brilhar."



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

FOCO

O Marcelo Pereira de Carvalho, meu amigo talentoso, esteve viajando pela Nova Zelândia e tirou fotos incríveis. Entre tantas, uma me chamou a atenção pela escolha técnica que ele fez. Uma paisagem maravilhosa, lago azul, montanhas, picos nevados... E ele decidiu-se por destacar singelas flores amarelas. Escolheu o primeiro plano. 

Lake Hawea, Nova Zelândia, por Marcelo Pereira de Carvalho

No meio de tantas imagens lindas, essa voltou à minha mente várias vezes. Bela metáfora da vida. Escolhas. Foco. Podemos decidir fixar nosso olhar no horizonte distante, visualizar o futuro que não chegou. Ou podemos prestar atenção na beleza por vezes oculta do momento presente.
Tenho entendido que quem se entrega a devaneios não vive, que se deixar levar é uma forma de escolha, passiva, que nos rouba a autonomia. A espera do por vir não pode se estender indefinidamente. Os desejos convergentes se ajustam, é no ponto de fuga que aprofundamos a verdade.
Paradoxal que pareça, é o olhar para o agora, o cuidado na escolha de hoje, que vão nos aproximar do horizonte. As flores perecem, mas as montanhas continuarão ali, a espera de serem conquistadas. 

Sim, há essa dor, esse aperto no peito. O espanto dos olhos que não mais reconhecem o mundo. Há o vazio, o cansaço. A espera. À espera. Mas há, também, a recusa. Destino de outsider, não se conformar. Senhora dos meus labirintos, recuo e avanço, capaz, ainda, de me surpreender... E sigo a passos tortos, sem nada mais buscar, confiando ser encontrada.

terça-feira, 6 de julho de 2010

UNPLUGGED


Arrumando as malas para viajar para as montanhas de Minas com minha filha e minha mãe, separei livro, notebook, internet portátil. Mas na hora de fechar as malas, deixei tudo isso de lado. Eu precisava de um tempo assim, de olhar para dentro de mim e para fora, para a vida real. Dias inteiros de olhos nos olhos e não nas letras, sem refúgios escapistas. E lá fomos nós, logo após a derrota do Brasil para a Holanda.
Foram 3 dias maravilhosos em Gonçalves/MG. Dias de ser mãe e de ser filha. Em uma cidadezinha  de morros e cercada de montanhas, bem como gosto. Mais importante, estivemos rodeadas de novos amigos. Fomos a um casamento único, daqueles de dar lágrimas nos olhos. Ainda mais especial porque a celebrante foi a minha mãe, escolhida pelos noivos, encantadora em suas palavras. E tudo estava lindo, pensado e feito com carinho. Eu há tempos queria conhecer o Kitanda Brasil, um restaurante que tem a alma da sua dona e os sabores da terra cultivada com amor. Eu, como sempre, logo comecei a fotografar tudo, desde os preparativos e... Minha máquina fotográfica pifou. Mistério das Minas Gerais...Muita energia, talvez... Ainda tentei usar o celular, mas não é que a bateria acabou após algumas fotos? Foi mesmo uma viagem para ficar eternizada lá onde ficam as coisas boas, na lembrança, e não escondida na memória do computador.
Minha menina foi um encanto. Ela cada vez me surpreende mais com sua sabedoria. Pensei tolamente que seria uma ótima oportunidade para conversar com ela sobre diferenças, já que havia muita coisa inusitada, pessoas diferentes. Porém, é ela quem sempre me ensina que somos todos iguais. Ela sequer estranhou o cardápio. Ao contrário, enquanto algumas crianças escapavam da festa para comer PF na praça, ela me pediu pra voltar para almoçar o menu degustação no dia seguinte. E lá fomos nós, cometer a quase heresia de comer com pressa o que é feito para ser apreciado devagar... Contudo, inesquecível. O Kitanda já está entre meus lugares preferidos de todo o mundo.

Voltei pra casa para enfrentar uma segunda-feira difícil, fortalecida pela minha pequena gourmet, que não se cansa de me mostrar que a vida é para ser saboreada. Com calma.



Reparou que tudo esse coador individual? Coisas do Kitanda...

segunda-feira, 1 de março de 2010

LIBERDADE

Quando ela nasceu, achei que nunca mais eu ia ficar sozinha. Que ela era minha. Não é, claro. Cada um é só de si. Ainda bem que descobri a tempo. 
Agora, ensino a ela a liberdade. E fico alegre quando a vejo tão feliz me dando tchau e indo sozinha para suas aventuras.
Este final de semana, ela foi. E quando voltou, perguntei:

- Sentiu saudades?
- Não deu tempo, mamãe, estava tão bom!

É bom vê-la forte, segura de ser amada, sabedora que estarei sempre aqui, esperando por ela. Mas é melhor ainda quando ela me pede:

- Mamãe, me dá banho e troca minha roupa? Eu sei fazer sozinha, mas estou carente...
(Carente, para ela, é quem gosta de carinho.)

Amar é isso: cuidar e libertar. Esperando pela volta. Porque quando se ama e é amado, há sempre um recomeço.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PARATY

E então, nós fomos.
Eu, ela e meu pai.
Levei minha menina para conhecer a cidade que mais me encanta. Paraty. Gosto tanto, que tenho ciúmes do sucesso ("hype" - detesto essa palavra) que a cidade anda fazendo....Escolhi um final de semana espremido entre um Festival e um feriado, mas ainda assim, a cidade estava cheia e em obras, Mas linda como sempre.
Minha lembrança mais antiga de infância é de Paraty. Lembro-me que dormia e que a água invadiu a barraca onde estávamos. Alguém me acordou, me pegou no colo. Havia a luz da lua e de risos. Contaram-me que quando isso aconteceu, eu tinha apenas um ano de idade.
Paraty me encanta porque é bela nos detalhes. É tanta beleza por todos os lados, que arrebata. Conversei muito com minha menina, aproveitando-me das belas metáforas que a cidade oferece. Falei a ela do Caminho do Ouro, expliquei o que é uma baía (a mais bela baía do mundo!), contei sobre Amyr Klink, falei sobre âncoras e velas... Até o calçamento pé-de-moleque da cidade foi um ensinamento, porque a melhor forma de caminhar sobre ele, é pelo meio - fugir dos extremos. Além do quê, ele nos obriga a caminhar com calma, e quem anda devagar, vê a beleza do caminho.
Gostei muito de reencontrar uma querida amiga, que reconstruiu a vida com muito sucesso em Paraty. Mulher guerreira, decidida. As amizades verdadeiras não se alteram com o tempo, e conversamos acompanhadas por um bom vinho enquanto minha menina se deliciava com o melhor sorvete do mundo. E antes de dormir, ela me olhou com os olhos brilhantes e falou: "este é o dia mais feliz da minha vida!".
Já havíamos estado em Paraty, eu e minha filha, mas ela não se lembrava. Essa reapresentação das duas - a cidade e a menina - e ainda junto com meu pai, foi também, para mim, um marco. O início de uma nova etapa. Permanecerão agora no passado, como lembranças, coisas findas que eu estava trazendo comigo. Aquilo que foi bonito, ficará, como Paraty, como um lugar a ser ser visitado. Talvez eu more lá um dia. Mas hoje, devo retornar e arrumar a minha casa.
Eu amo o mar. Essa ligação com o mar, minha menininha também tem. Saímos para passear de barco e quando olhei, ela estava com os braços e boca abertos para o vento. Disse-me:
- "mãe, estou comendo esse gosto de mar!"

É assim que quero ir de encontro à vida. De braços abertos, com todos os sentidos despertos, pronta para devorar a felicidade.


Para saber mais:

http://www.paraty.com.br/

http://viajeaqui.abril.com.br/indices/edicoes/conteudo_239811.shtml

http://www.viajenaviagem.com/2007/06/paraty-por-christopher-hitchens

domingo, 9 de agosto de 2009

AUSÊNCIA

Entre meus livros - e filmes - preferidos, está "Fim de Caso" (The end of the affair), de Graham Greene. É uma obra muito bonita e também triste e eu gosto da maneira como Greene aborda a questão religiosa. Há no livro uma frase que me veio à mente nos últimos dias:
" People can love each other without seeing each other, can't they? (...)" ou "As pessoas podem amar sem se ver, não é?(...)"

Deixando de lado o livro e o filme (recomendo ambos), ando às voltas com esta questão. Sim, é possível amar sem ver, mas de pertinho é bem melhor! As pequenas alegrias do convívio diário trazem aos relacionamentos uma cumplicidade que a distância não permite. Gostaria que meus amores estivessem todos perto o batante para que um telefonema fosse o suficiente para alcançar e chegar. Quem se ama, queremos ao alcance dos olhos, da mão, de todos os cinco sentidos, enfim! E a saudade? Ah, como dói a saudade!

Desta vez foram duas semanas. Longe da minha menina. Nos falamos todos os dias pelo telefone. Eu a vi pela webcam e não pude arrumar seu cabelinho desalinhado. Algumas vezes, ela chorou (e eu também).
Sua vozinha me contava coisas que eu não vivi ao lado dela e foi uma delícia escutar a sua versão dos fatos mais importantes do cotidiano. Não sei qual foi o noticiário local nesses dias, mas soube quais foram as brincadeiras mais divertidas, os amigos que apareceram em casa e como a gatinha e a cachorra passaram seus dias. Também soube que ela foi dormir com meu pai e gostou do sabor da pasta de dentes.
A ela também não contei dos lugares em que estive, do filme a que assisti, dos dias de sol iluminando lugares lindos. Não contei da lua cheia brilhando sobre o mar. Mas contei, a cada dia, um detalhe da surpresa que ela iria ganhar quando eu chegasse. Brincamos de adivinhar, fizemos cócegas uma na outra à distância e contamos "1, 2, 3 e já!" para desligarmos juntas o telefone.
Fui feliz nesses dias, apesar da falta que ela me fez. E já sinto saudades do que agora está longe.
O vazio tem ocupado muito espaço em minha vida ultimamente.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Farol

Viajamos na noite estrelada.
Aqui e ali, vê-se a terra ferida. Placas na estrada exibem nomes que evocam a recente tragédia das chuvas.
A viagem é longa, mais que o normal. E aos poucos, minha menina e eu vamos nos aproximando de nossa nova vida.
Estão sendo dias que para ela parecem férias. Mas de vez em quando vejo uma sombra em seu olhar. Ela ainda está confusa e no telefone pede para o pai vir visitá-la no "dia da família", como chamávamos os finais de semana.
Eu e ela tentamos nos adaptar a uma nova rotina, tão diferente. Eu quero manter nossos hábitos e mostrar a ela que os nossos princípios devem ser válidos em qualquer lugar e situação. Não esta sendo fácil, porém.
Na noite estrelada, porém escura, é o rosto sereno da minha menina de cachos que ilumina o meu caminho.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

De crianças e andorinhas

Eu sou uma árvore.
Cresci espalhando meus galhos em muitas direções, cada vez mais alto. Mas entre viagens e mudanças de endereço, lancei minhas raízes cada vez mais fundo na cidade do meu coração.

Eu e minha menina ficamos dez dias por lá. Ela absolutamente feliz por não ser mais ilha, por estar rodeada de tantas crianças, bichos, avós, tios, tias... Alegria sem tamanho!

Foi aniversário de 15 anos da minha sobrinha linda. Ela foi minha primeira filha, a criança que me ensinou o amor acima de todas as coisas. Eu me perguntei algumas vezes se seria capaz de amar outra criança tanto quanto ela. E aprendi que o amor se multiplica.

Lá estava sol e calor. Minha filha nadou muito, até aprendeu com o Tio João a "nadar" sem bóia. Uma graça a coragem dela, tão destemida, tentando de novo mesmo quando afundava. Em uma noite quente e perfumada, sentada no meu colo, ela viu vagalumes pela primeira vez.
Tivemos ainda a sorte de participar da celebração dos 30 anos de casamento de meus tios, que aconteceu no lugar mais mágico que conheço. Minha menina neste dia dormiu lá, "sem mãe e sem pai", e se divertiu muito! Ficamos as duas orgulhosas, porque ela não chorou, ao contrário!

E no sábado pude fazer com ela e com as gêmeas o passeio que fazíamos quando morávamos por lá. Ela pediu porque não se lembra mais... Dois anos só!
Fomos à praça, comemos pipoca e paçoca de pilão (íncomparável), ao Mercado Municipal, à Estação Ferroviária... E eu e minha mãe vimos o velho pelos olhos dos novos. E tudo ficou ainda mais lindo!

Na chegada e no dia anterior à volta, ficamos na casa do Vovô. Outra realidade, cidade grande, apartamento pequeno. E ela mais uma vez apreciou a experiência e fez muita bagunça com o meu pai!

Agora, estamos de novo na Ilha. E para mim ficou a imagem das andorinhas que entravam e saíam do teto da casa, tão parecidas com as crianças que estavam ali, em sua algazarra, liberdade e beleza.


Para saber mais:

http://www.agostinhodapacoca.com/

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Home is where your heart is

Minha menina e eu estivemos viajando juntas, para a cidade do meu coração.

Esta semana atualizarei o blog!

Solar
Milton Nascimento

Venho do sol
a vida inteira no sol
sou filho da terra do sol
hoje escuro
o meu futuro é luz e calor
De um novo mundo eu sou
e o mundo novo será mais claro
mas é no velho que eu procuro
o jeito mais sábio de usar
a força que o sol me dá
Canto o que eu quero viver
é o sol
somos crianças ao sol
a aprender a viver e sonhar
e o sonho é belo
pois tudo ainda faremos
nada está no lugar
tudo está por pensar
tudo está por criar
Saí de casa para ver outro mundo, conheci
fiz mil amigos na cidade de lá
amigo é o melhor lugar
mas me lembrei do nosso inverno azul
Eu quero é viver o sol
é triste ter pouco sol
é triste não ter o azul todo dia
a nos alegrar
nossa energia solar
irá nos iluminaro caminho.


domingo, 21 de setembro de 2008

Viagem de trem - 2

(continuação do post anterior)
Dentro do trem, tudo é novidade! As máquinas fotográficas não param.

Atrás de mim, um homem filma tudo. Aliás, filmou sem parar a viagem inteira. Infelizmente, acho que ninguém irá aguentar ver o filme todo, longuíssimo...Chato!

Minha menina pula de banco em banco, ora conosco, ora com a teacher, ora com os amigos... Um conjunto regional entra e toca algumas músicas. Mas logo o balanço suave e o barulhinho ritmado começam a fazer efeito. Ela, que dorme no carro em qualquer passeio que dure mais que alguns minutos, começa a se encostar, os olhinhos lutam para ficarem abertos. Ela fala:

- Quanto mato, né, mamae?

E dorme.

Realmente, pela janela passam lindas paisagens verdes, meio encobertas pela neblina. Nem parece final de setembro! Está um dia típico de inverno e ao passarmos lentamente pela cidadezinha no mais alto da serra, parece que o trem nos levou para o passado, em outro país... Tudo está envolvido pela névoa branca, não há carros nas ruas e as poucas pessoas que passam estão com pesadas roupas de inverno. Enquanto o trem passa apitando, todas acenam e sorriem. Das casas, saem crianças com bochechas rosadas de frio, que pulam dando tchau!

O trem deixa a cidade e continua sua viagem por entre a natureza. Passamos por pontes e túneis.

Minha menina dorme...

Perto do meio-dia, chegamos à nossa parada para o almoço. Meio desorientada, minha filha acorda, olha em volta, sorri...

O almoço é em um salão comunitário, à sombra da torre de uma igrejinha. Bonito cenário. Mas a comida, bem ruinzinha, é o único ponto negativo do passeio.
Minha menina quer ir ao banheiro, a fila é enooooorme! Ela faz xixi no murinho e fica bem feliz por mais esta quebra de rotina. Quanta aventura!
O trem apita três vezes. Hora de voltar!
Desta vez minha menina vai bem acordada, aproveita as curvas e túneis, o amigo, a teacher. Os adultos se encantam alternadamente com a linda paisagem que corre pela janela e com as crianças dentro do trem.
Muitas pessoas estão à beira da estrada vendo o trem passar.
Adeus, adeus...
E logo chegamos, de volta ao ponto de partida... Todos felizes, com um brilho de infância no olhar.
A volta para casa é bonita e tranquila, em meio à neblina da estrada. Levamos a teacher para casa, minha menina quase chora...
Foi tudo tão bom! E o que vai ficar na lembrança da minha menina com certeza será terno. Talvez ela se lembre mais de a professora ter dormido em casa, de fazer xixi no muro, da rosca imensa... Mas misturada à estas lembranças, estará o balanço do trem.
E envolvendo tudo e todos, como a bruma, o amor.
(Para saber mais:

Viagem de trem - 1

Falei para minha menina que íamos passear em algo que ela nunca tinha "andado" antes. Pensando que ela iria acertar na hora e ficar muito feliz:
- Já sei, mãe! Vamos passear de helicóptero!
- Não, querida, de trem!
- Ah....

Pois é, o suspense acabou tirando um pouco da graça da surpresa. Eu não imaginei que avião e helicóptero fossem categorias diferentes...

Mas fomos ao nosso passeio de trem, e foi tão bom! Eu tenho as melhores lembranças desses passeios, na infância íamos sempre de Pindamonhangaba até Campos do Jordão. E ainda tive a sorte de fazer alguns passeios entre cidades em linhas regulares, que funcionavam paralelas aos ônibus e infelizmente se acabaram...
Foi tudo novidade para minha menina! Começou com a professora querida dormindo em casa, o que resultou em grande prestígio entre os amigos na escola. A teacher foi conosco, e como íamos sair cedo e ela mora longe, foi a solução mais prática. E também emocionante para minha filha! Deixamos a chave para ela na portaria (tivemos um compromisso) e um lindo desenho feito pela minha filha na porta do apartamento, antecipando a alegria do dia seguinte.
Quando chegamos em casa, a professora já dormia. Minha menininha olhava a porta do quarto com grandes olhos esperançosos... Mas soube esperar, e antes do sol nascer do dia seguinte, foi acordar nossa companheira de viagem. Que parecia tão feliz quanto ela!
A viagem foi longa até a cidade de destino. O sol nasceu lindo no horizonte sobre o mar, mas logo começou a chover fraco. Na subida da serra, as flores e as árvores mostravam-se ainda mais verdes e lindas e em certos momentos a neblina que descia me lembrava como eu gostava de procurar anjos quando dirigíamos nas nuvens.
Chegamos cedo. A velha estação ferroviária só nossa. Parecia triste, com tantos trens abandonados. Mas a Maria Fumaça do nosso passeio reluzia!
Minha menina, que dormiu a viagem inteira, estava com fome. Eu, ela, o pai e a professora fomos a pé até o centro da cidadezinha, lojas ainda abrindo, tomar café da manhã na padaria. Autorizada a pedir o que quisesse, escolheu uma rosca imensa, coberta de creme amarelinho. Não conseguiu chegar até o fim, mas o que não coube na barriguinha encheu por muito tempo seus olhos de felicidade!
De volta à estação, quanta gente! De todas as idades, de todos os lugares, em busca da delícia efêmera de um passeio de trem. Entre tantos, nos encontramos com o amiguinho de escola, uma prima e seus pais, como combinado. Ela e o amigo não se cansaram de mostrar tudo a teacher, orgulhosos da inversão de papéis.
O apito avisa: é hora de partir.
Os vagões mostram a idade, mas também beleza. Somos todos crianças nesta hora, unidos pela expectativa da partida.
Lentamente, o trem deixa a estação.
(continua no próximo post)

Ponta de Areia

Ponta de Areia



(Milton Nascimento & Fernando Brant)


Ponta de areia ponto final
Da Bahia-Minas estrada natural
Que ligava Minas ao porto do mar
Caminho de ferro mandaram arrancar
Velho maquinista com seu boné
Lembra do povo alegre que vinha cortejar
Maria fumaça não canta mais
Para moças flores janelas e quintais
Na praça vazia um grito um oi
Casas esquecidas viúvas nos portais

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