"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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terça-feira, 9 de abril de 2013

SEMENTE

Quando comecei a escrever o blog, ela era uma menininha só com dentes de leite.
Hoje eu a levei à médica, porque apareceu um carocinho e dores no peito. Não era nada. Ou é tudo. Ela cresceu, simples assim.
Telarca, me disse a doutora. Minha menina segue saudável e firme no caminho de crescer e ser a mulher forte e independente que eu desejo que ela seja. Segue no caminho de ser o que ELA vai querer ser.
E enquanto eu, em segredo, já sinto saudades da criança que está ainda à minha frente, ela se olha no espelho, linda, ansiosa, confiante.
- Mas filha, por que você está tão feliz?
- Mãe, agora eu tenho certeza que vou ser igual à você!
E eu choro.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

TATUAGEM

Palimpsesto.
Quando criança, eu gostava de ler dicionários, e fiquei fascinada por essa palavra. Era o que eu queria ser. Capaz de apagar antigas histórias e escrever novas, e nada restaria além da sombra do passado. 
Mas em mim, tudo fica tatuado. Permanece. 
Sou toda feita de marcas e memórias eternas.


Imagem daqui

terça-feira, 15 de maio de 2012

AO QUE VIRÁ

Sim, bem sei que deveria escrever palavras minhas.
Mas não, agora o que quero é registrar meu desejo de que você, filha, acredite sempre. E, acreditando, seja capaz de construir, para si e para outros, um mundo melhor.

Você pode. Você deve. Ser feliz, e contribuir para a felicidade de todos.



Fernando Birri explica utopia:
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."


Eduardo Galeano, "O direito ao delírio".
"Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.
As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.
Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se delirarmos por um momentinho?
Ao fim do milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível.
O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.
As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.
A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.
Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim os que queiram cumprir.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.
A comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.
As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.
A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.
A perfeição seguirá sendo o privilégio tedioso dos deuses, mas neste mundo, neste mundo avacalhado e maldito, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro."

domingo, 20 de fevereiro de 2011

ESCONDERIJOS


Eu nunca coube inteira dentro de mim. Transbordo. Por isso, há momentos em que preciso me recolher.
Quando pequena, eu sempre tive meus esconderijos. A casa da minha avó tinha dois corredores  laterais, pouco usados. Eu gostava de ficar ali, ouvindo o movimento da casa, espectadora. Também gostava de um canto embaixo da escada, na minha casa, ou de ler na sala que ficava sempre trancada. Adoro estar rodeada pelas pessoas que gosto, mas minha alma se alimenta de silêncios.

Hoje, meus lugares secretos estão dentro de mim. Ainda me escondo, confiando ser encontrada.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

"NÃO PRECISO DO FIM PARA CHEGAR"

Tem gente que passa a vida na cidade em que nasceu, casa-se com o primeiro namorado, é aprovada no concurso do Banco do Brasil aos 21 anos e assim segue a vida. Muitas vezes tenho inveja das pessoas feitas de certezas absolutas... Eu estou sempre de mudança, e de tanto deixar coisas e pessoas para trás, tornei-me em pedaços e dúvidas.

E foi assim janeiro, mês de fins, de rompimentos que sei definitivos, mesmo que tenha dito que eu continuo aqui. Mais uma vez, (de) partida.

Amanhã, muda tudo, de novo. Outra tentativa? Outro acerto? Não sei. Sei que para mim é difícil dizer adeus.  Prefiro ir partindo aos poucos, esgarçando-me, até ser como disse Manoel de Barros, poeta maior:

"Do lugar onde estou, eu já fui embora".



Eu Não Sou da Sua Rua
Composição: Branco Mello - Arnaldo Antunes
Eu não sou da sua rua,
Não sou o seu vizinho.
Eu moro muito longe, sozinho.
Estou aqui de passagem.
Eu não sou da sua rua,
Eu não falo a sua língua,
Minha vida é diferente da sua.
Estou aqui de passagem.
Esse mundo não é
Meu, esse mundo não é seu

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

PALIMPSESTO

Eu amo o cheiro das noites de verão. Cheiro da terra que libera o calor guardado durante o dia: de maneira preguiçosa enquanto a noite cai, ou violentamente sob a chuva. O verão é a minha estação, é a que constrói  minhas memórias afetivas. Basta o perfume da dama-da-noite para eu voltar à infância, onde cheiros, luzes e sons se misturam e sempre é o eterno pôr do sol de férias na praia ao mesmo tempo em que espio a tempestade da janela mais alta junto com minha mãe.




Minha menina vai fazer sete anos e espero que essas sejam as férias sobre as quais suas memórias serão construídas. Tivemos férias incríveis, nós duas junto a amigos queridos e generosos. Férias de ir à praia todos os dias, aprendendo com o mar que é sempre o mesmo e nunca igual. Férias de sol e águas transparentes, de caldos e capotes, de nadar sem roupa na chuva. Férias de pular no colchão, de dormir de cansaço, de Morango, de velhos sabores. Férias de aprender a fazer castelos de areia e descobrir que eles não duram, mas há sempre material para uma nova construção. Férias de passar a noite toda acordada conversando com quem já não está. Férias de café da manhã na cama, comida maravilhosa feita pelos amigos e do cachorro-quente mais caro do mundo! Férias de conhecer e reencontrar o Rio de Janeiro e criar novo significado para praia do Leblon.







E voltar para casa... Voltar e tentar fazer um ano verdadeiramente novo. Mudar a rota. Hoje, deitada na piscina com minha filha, o verão à nossa volta, olhando ora as nuvens, ora as estrelas, achei um novo norte.

"Mãe, as estrelas, mesmo quando se escondem, estão sempre ali para brilhar."



domingo, 14 de novembro de 2010

POEIRA DE ESTRELAS

Quando criança, eu acreditava que os grãos de poeira iluminados pelo sol eram fadas...

Meu primeiro contato com Peter Pan foi através da leitura. Li e reli a adaptação de Monteiro Lobato para a obra de J. M. Barrie, sempre me perguntando por que não havia garotas entre os meninos perdidos...
Criança que era, identificava-me com Wendy, mas era fascinada pela Fada Sininho e sua personalidade cheia de extremos. Sininho fugia ao estereótipo da fada boazinha e, na verdade, era a mais humana das personagens. 
Para as crianças de agora, a Sininho chama-se Tinker Bell, como nos EUA. Ela fala, tem suas próprias aventuras, e se parece mais com uma adolescente atrapalhada do que com a fada sedutora, inteligente e ciumenta original. Minha menina adora a Tinker Bell, tem fantasia, bonecas, livros, filmes... Peter Pan tornou-se secundário, e minha filha esqueceu-se que a primeira vez que assistiu ao desenho da Disney, queria mesmo era ser a Tigrinha (Tiger Lily), a corajosa indiazinha que recusa-se a trair Peter.

Fadas são frágeis, e uma morre a cada vez que alguém diz que não acredita nelas. Mas quando Sininho bebe veneno no lugar de Peter Pan, há um jeito de salvá-la: bater  palmas e dizer que acredita em fadas!

Nesses dias em que tudo está difícil , a dor é tanta e a esperança, pouca, é essa minha vontade. Não sucumbir, bater palmas e acreditar! É possível, ainda. Entre dores e quedas, achar o riso através das lágrimas. Inventar o caminho possível, quando devaneios e mentiras se confundem.

Eu acredito! Eu acredito!

(Batam palmas por mim.)

Tinkerbell: You know that place between sleep and awake, the place where you can still remember dreaming? That's where I'll always love you, Peter Pan. That's where I'll be waiting.

sábado, 7 de agosto de 2010

AONDE QUER QUE EU VÁ, LEVO VOCÊ NO OLHAR

"Há tanta suavidade em nada se dizer, e tudo se entender."
(Fernando Pessoa)

Uma imagem vale mais que mil palavras? Hum, não sei. Como dizia um professor de redação, demonstre essa frase em uma imagem!

Mas sei que há gestos que dizem muito, e vão além. Da distância, do tempo, das palavras. Expressam, em sua delicadeza, o sentimento que se declara, ainda que não se tenha experimentando toda as possibilidades, toda a plenitude do que é desejado, mas não, possível. Ainda.

Já posso novamente registrar os momentos importantes da minha vida. Dessa vez, faltam, a mim, as palavras que pudessem expressar o tanto de alegria e felicidade que experimentei com o presente que recebi. Porém, sei o que senti, o que sinto, o que levo sempre junto a mim. Agora, outros olhos estarão sempre comigo.

Eis a janelinha da minha  menina. E posso mostrar aqui porque ganhei uma máquina fotográfica nova. Obrigada, tanto, sempre!


A vida é agora, mas é também o que se foi, e o que virá.


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

FINS




Tudo acaba, tudo passa.

Minha menina a cada dia se transforma. Agora vai perder o primeiro dente. Um novo marco, outra fase que fica para trás. Não é mais o bebê carequinha, nem a criancinha de cachos. É uma menininha de cabelos lisos e castanhos, que sabe ler, sabe escrever, dorme fora de casa, joga capoeira e, desconfio, descende dos peixes e não, do macaco. Ela mesma não se lembra de quase nada do que se foi. Vê fotos e vídeos de tão pouco tempo atrás e se espanta: "Essa sou eu? Eu estava lá? Eu já fiz isso?". Desembrulha seus dias sempre como um presente maravilhoso. Acorda acreditando em novidades.

Eu também já não sou mais o que fui. Não me reconheço. Mas aqui onde termino, é onde inicio. Tateando, caindo, aprendendo, percebo que o novo não vem sem mudança, sem espaço para chegar. Aquilo que se foi permanece em nós, às vezes como um marco na estrada que não queremos voltar a percorrer, outras como o farol que nos dá a esperança de prosseguir. É preciso esquecer um pouco do que fui para seguir sendo eu mesma, palimpsesto de emoções que se ocultam, mas não se esgotam. 

Tudo se acaba, tudo passa. Mas no fim está o começo.


The Circle of Life 
(Tim Rice/Elton Jonh)


From the day we arrive on the planet
And blinking, step into the sun
There's more to be seen than can ever be seen
More to do than can ever be done


Some say eat or be eaten
Some say live and let live
But all are agreed as they join the stampede
You should never take more than you give


In the Circle of Life
It's the wheel of fortune
It's the leap of faith
It's the band of hope
Till we find our place
On the path unwinding
In the Circle, the Circle of Life


Some of us fall by the wayside
And some of us soar to the stars
And some of us sail through our troubles
And some have to live with the scars


There's far too much to take in here
More to find than can ever be found
But the sun rolling high
Through the sapphire sky
Keeps the great and small on the endless round

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A DONA DO LABIRINTO

Maze - James Jean

Em uma de nossas conversas que atravessam a madrugada, um querido me sugeriu escrever sobre Ariadne. "Recolha seu novelo, e saia desse labirinto."

É bela a história de Ariadne. Ela amou Teseu à primeira vista, ao vê-lo no palácio do pai, voluntário para enfrentar a morte que parecia certa no labirinto do Minotauro. Bonita, decidida e inteligente, propôs a Teseu uma troca: ela o ensinaria a sair do labirinto, ele a levaria para Atenas para casarem-se. Ele aceitou e recebeu dela uma espada para matar o Minotauro, e um fio para encontrar o caminho de volta do labirinto. Segurando uma das pontas, ela o esperava na saída, quando ele retornou, vitorioso.
Mas Teseu não a amava, e a deixou, adormecida, em uma ilha no caminho de volta para Atenas. Abandonada, só, Ariadne se desespera ao acordar. Tocada por sua tristeza, Afrodite promete a ela um amor imortal. Esse amor materializa-se em Dionísio, que estava na mesma ilha e apaixona-se por Ariadne. Deus do prazer, do vinho, das festas, eles se amam enquanto dura sua vida mortal, numa celebração do amor e da alegria de viver. Após sua morte, o deus transforma a coroa que dera a Ariadne no casamento em uma linda constelação.

Há muitas e belas interpretações sobre esse mito, e meu querido gostaria que eu me lembrasse que é possível refazer nossas escolhas e aceitar os presentes que a vida nos dá. O que é verdade. Mas eu vou além. O que me chama a atenção na história é a presunção inicial de Ariadne, ao acreditar que poderia se fazer correspondida em seu amor por Teseu. Bonita, inteligente, amável, apaixonada, por que estaria ela errada? Porque o amor, como disse o poeta, é dado de graça. Não se troca. Amor é incondicional. Por isso, não condeno Teseu. Talvez ele próprio tenha querido amá-la... E foi ele, afinal, o fio que a conduziu ao amor de Dionísio. 

Somos todos, ao final das contas, condutores e conduzidos, perdidos em algum momento em nossos labirintos, esperando pelo amor que nos guie e nos resgate para a celebração da vida.


As sem-razões do amor


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

ISSO NUNCA ME ACONTECEU ANTES

Isso nunca me aconteceu antes!
São essas experiências únicas, que fazem meu coração bater mais forte, as que costumam me acompanhar por mais tempo. Aquilo que parece diferente de tudo o mais, o que chega com a força do inevitável e a surpresa contraditória do predestinado. Costumo apegar-me a esses sentimentos como coisas extraordinárias, raras. Descarto-me do banal e agarro-me às minhas pequenas epifanias.

Mas... será mesmo assim? Observo minha filha encantar-se com cada instante. Toda experiência, mesmo repetida, é nova para ela. O trajeto para a escola, as brincadeiras, seus filmes preferidos. Outra vez e outra vez, o cotidiano a encanta. Não precisa buscar novidades, é o seu olhar que traz o mundo sempre renovado, a cada dia.

Então, me dou conta. Cada instante é único. Posso me descartar desse apego ao passado que me parece tão encantador, porém, está já distante. Posso encantar-me com o que já conheço, com o que está à minha frente. Há que se saber olhar. Isso nunca me aconteceu antes...

Minha menina me ensina outra lição. E quase sem perceber, dobro a esquina.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

ANIVERSÁRIO DE DOIS ANOS DO BLOG

Hoje esse blog está fazendo dois anos. A primeira constatação que faço é que passaram rápido. A segunda, que coube muita coisa nesse tempo.

Esse blog é cria do Blog Nós Duas, da jornalista Priscila Sérvulo, que não existe mais. Pena! Como, porém,  o blog ainda está no ar, recomendo a leitura para quem não o conhece. 
Eu passava por um período bastante solitário e complicado, que culminou na minha separação. Como escreveu Jorge Luis Borges, parecia-me que “[...] todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos de séculos e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede, sucede a mim…”  Ler o blog da Priscila me fez lembrar que existem problemas muito maiores que os meus. E também me estimulou a escrever como uma forma de ter uma voz própria, porque andava muito calada e solitária naquele período (bom, acho que tendo a ser sempre calada e solitária quanto às minhas dores. Sou do tipo que gosto de compartilhar somente alegrias).
Comecei falando para mim mesma e para minha filha do futuro e nunca imaginei que teria leitores, menos ainda que faria amigos por aqui. Esse blog é semi-anônimo e são poucas as pessoas que sabem quem eu sou, o nome da minha menina e as histórias por trás das entrelinhas. Ainda assim, me sinto acolhida. Isso é muito bom!
Algumas vezes me espantam os comentários sobre meus textos, especialmente quando me elogiam pela aparente serenidade... Sou descompensada, passional, impulsiva, chorona... Compenso um pouco disso com auto-conhecimento e resiliência, que me levam através dos caminhos tortuosos da minha vida.

Sabem? Eu queria mesmo era uma vida simples, calma e tranqüila. Não foi possível, ainda... Contudo, me consolo tendo histórias para contar! Histórias e memórias que estou registrando aqui, para a minha menina de cachos, torcendo para que sua própria existência seja mais, melhor e maior.






segunda-feira, 24 de maio de 2010

AMOR

Rezo por minha filha todas as noites. Peço por saúde, felicidade, realização pessoal... E peço, sempre, para que ela tenha a felicidade de ser feliz no amor. Que ao se apaixonar, ela possa encontrar no amor também respeito, companheirismo, sinceridade, verdade.

Minha menina, ainda distante das delicias (e dores) do amor, vai encontrar um mundo em que os relacionamentos andam frágeis. Corre-se sempre o risco de trazer para as relações amorosas a mesma expectativa que temos em relação à tecnologia: querer sempre o mais novo, o mais bonito, o mais atualizado.  Buscar não apenas a satisfação pessoal, mas também ter alguém que se possa exibir. E na expectativa da novidade que seja melhor, ainda que se encontre o amor que se julgava buscar, a procura continua.

Mas amor não é jogo, não é medir forças, não é criar estratégias de conquista. Amar é chegar em casa, é reconhecer-se no outro, ao mesmo tempo que se deixa espaço para as diferenças. É um nunca se cansar de descobrir ternuras. Pode-se amar à primeira vista, mas para construir o amor, é preciso tempo e dedicação. É preciso paciência para que as lacunas deixadas pelas dúvidas sejam preenchidas com intimidade. Numa época feita de rapidez, tem sorte aquele que encontra alguém com quem possa conversar com calma, em quem se possa confiar, com quem se possa contar.

No entanto, os caminhos do amor devem sempre ser vias duplas. Levar ao outro e trazê-lo a si. O desequilíbrio dos quereres traz sofrimento. Amar ao outro como a si mesmo, e não mais do que a si mesmo, essa é a medida, o ponto de equilíbrio. Então, se há dor, é esse o fim? Deve ser esse o sinal de alerta para o fim do amor? Porém, é possível que nossa vontade comande nossas vontades?

Se não decidimos quando começamos a amar, podemos decidir quando deixar de amar?

Amor quer ser presença e não, lembrança.



Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

RELICÁRIO

Esse é um texto escrito com tinta invisível. Apenas o destinatário tem o calor necessário para decifrar a mensagem. É para ser lido através das palavras, lembrando-se dos sons que substituíram aquilo que seria dito. Abro mão das letras para vestir-me de sentimentos.

Talvez esses espaços em branco venham a ser preenchidos pela felicidade que está por vir.

Talvez o vazio seja uma antecipação do deserto que me espera.

Há só uma coisa que deve ser registrada, gravada, incrustada: 

Seja feliz.



segunda-feira, 19 de abril de 2010

O OUTRO LADO

Trago comigo paisagens internas. 

A cidade em que passei boa parte da minha infância é dividida pela linha do trem e pelo rio que a corta. É também cercada de serras. Para chegar ao mar, é preciso atravessá-las.
Assim também minha vida pode ser dividida em linhas imaginárias que cruzei. Algumas vezes voltei, outras não. Lembro-me do dia em que a ponte mais bonita e antiga da cidade partiu-se ao meio e caiu. Eu também tive esse momento em que não foi mais possível voltar atrás porque não havia mais o caminho. Aquela que fui já não estava lá.

Agora, há montanhas dentro de mim. Não sei o que se oculta do outro lado, e ainda não decidi se quero cruzá-las e avistar o horizonte sem fim, ou me conformar com o lado de cá, seguro e sem surpresas. Há um certo cansaço em se reinventar constantemente, mas a conformidade sempre me pareceu uma espécie de derrota.

Porém, não sou montanha, sou oceano. E a vida me navega.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

PALAVRAS

Não me lembro de um tempo em que não sabia ler. Palavras me acompanham desde sempre. Um livro que ainda não li é sempre um prazer a ser descoberto. É esse meu vício. Nada de chocolates para mim: livros, sempre livros. Criança ainda, perdia-me nas festas procurando onde estavam os livros, e escondia-me para ler. Ainda me lembro do primeiro livro de "gente grande" que li, aos nove anos (e me encanta até hoje): "Música ao Longe", de Érico Veríssimo. Minha filha quase chamou-se Clarissa.

Esse encanto pelas palavras levou-me, talvez, ao equívoco de atribuir a palavras bonitas iguais sentimentos. Esquecendo-me que na vida, assim como na literatura, é possível inventar o belo. Tenho agora que descobrir a beleza dos gestos e o encanto do silêncio.

"Words are never as precise as touch" (Dana Gioia)


O Alexandre Serpa acertou em cheio ao lembrar-se dessa música no seu comentário:




Enjoy The Silence
Composição: Martin L.Gore

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
Enjoy the silence...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

TRÊS


Outro dia, conversando com um amigo, estava fazendo listas de coisas que gosto - sempre em três: 3 palavras favoritas, 3 cheiros, 3 lugares... Ele me perguntou: por que tudo de três? Ainda não havia reparado, mas acho que três é meu número da sorte. Especialmente, o dia 3.

Minha filha nasceu num dia 3.
Foi num dia 3 que conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Curiosa, revirei antigas agendas e achei outros acontecimentos felizes nesse dia.
E hoje, dia 3, recebi uma notícia muito boa, que decidi que vai ser o começo de um novo ciclo, muito mais feliz em minha vida.

Então é isso: depois da boa notícia de hoje, o três está oficialmente nomeado o meu número da sorte!

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

(Ah, hoje, dia 03 de dezembro, é também o aniversário de uma menina linda, que conheço pouco, mas que mora no meu coração. E aniversário também de uma nova amiga, que sabe rir da vida. O que comprova que o dia 3 é mesmo especial).

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

TREINO


Ela veio e disse:
- Mãe, eu já nadei bastante com bóia para treinar. Se eu tirar eu consigo nadar sozinha.

Eu, meio com medo, vigiando de perto, deixei. E não é que ela foi? Nadou sozinha, engoliu água, mas não desistiu. Desde aquela tarde, ela não colocou mais as bóias (e eu não consegui mais fechar os olhos para tomar sol...)

Eu também sou uma bóia na vida dela. Sei que chegará o dia em que ela irá mergulhar sozinha e nadar em seus próprios mares.

E então, eu serei o seu porto.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A RODA DA FORTUNA

Hoje estou triste porque ninguém nunca me escreveu um poema.

Começo onde termino. Uma vez li esta frase em um livro, e não a esqueci. Estou de volta ao mesmo ponto. Tenho a sensação que minha vida deu um giro de 360º. Volto a ser assombrada por dores antigas, revividas pelo que devia ser novo mas desnudou-se em um lugar já visitado.
Continuo buscando o caminho da mudança, enquanto me esforço para voltar a viver segundo os axiomas que me guiavam. Mas talvez meu conhecimento estivesse apoiado em mentiras sobre a vida e sobre mim mesma. Que sou mais frágil do que pensava ser.

(Contudo, tenho sempre comigo, dentro da carteira, uma carta de amor.)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DE EVA A GEISY

A culpa é sempre das mulheres. Como cantou Rita Hayworth em 1946 no filme Gilda, "put the blame on mame".
Mas estamos em 2009, e a moça do vestido curto foi expulsa da universidade. Em nome da "ética", "dignidade" e ""moralidade". Geisy, com seu vestido rosa, ao mesmo tempo Eva e a maçã dos tempos modernos, expulsa para proteger os outros alunos da sua sexualidade provocadora.

Segundo anúncio publicado em jornais, a direção da universidade alega que "a atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar." O mesmo argumento que estupradores, assassinos em nome da honra, apedrejadores e outros criminosos e tiranos usam há séculos para justificar atrocidades contra mulheres: "Ela provocou".
Ao alegar que o problema foi a atitude da moça, mais que sua roupa, os responsáveis pela universidade parecem se esquecer que os outros alunos, adultos, sãos, poderiam aceitar ou recusar o "oferecimento" da moça, não precisando de proteção contra a sexualidade alheia. Protegida deveria ter sido a moça contra os insultos e agressões que sofreu. De homens e mulheres, também incomodadas - ameaçadas?

Quando escolhemos uma roupa para vestir, passamos uma mensagem. Devemos, portanto, ter o cuidado de transmitir aquilo que desejamos, seja ao usar minissaia ou burca. No caso da Geyse, a atitude e as roupas estavam em sintonia. Uma moça que se acha bonita, segura do seu poder de atração, que se veste dessa forma. Eu acho que ela está certa. Quem se sente ameaçado por ela deve procurar em si as causas desse desconforto. Talvez não tenha a mesma segurança que ela em relação ao seu próprio corpo. Ou, como se viu, não saiba controlar seus impulsos.

Espero que esse não seja o fim desse caso e que os agressores e a universidade sejam punidos por tanto sexismo e preconceito. Mais ainda, espero que ao crescer minha menina não seja prisoneira do seu corpo e refém da vontade alheia.

(Quando eu tinha uns 16, 17 anos, tive um vestido bem parecido com o da Geysi. Vermelho. Fazia o maior sucesso!)

UPDATE: O Reitor da UNIBAN informou que revogou a decisão do conselho que expulsou Geisy e dará "melhor encaminhamento à decisão."

Excelente texto:


Are you decent? trecho do filme Gilda

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