"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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domingo, 20 de fevereiro de 2011

ESCONDERIJOS


Eu nunca coube inteira dentro de mim. Transbordo. Por isso, há momentos em que preciso me recolher.
Quando pequena, eu sempre tive meus esconderijos. A casa da minha avó tinha dois corredores  laterais, pouco usados. Eu gostava de ficar ali, ouvindo o movimento da casa, espectadora. Também gostava de um canto embaixo da escada, na minha casa, ou de ler na sala que ficava sempre trancada. Adoro estar rodeada pelas pessoas que gosto, mas minha alma se alimenta de silêncios.

Hoje, meus lugares secretos estão dentro de mim. Ainda me escondo, confiando ser encontrada.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

VOCÊ, HOJE

Você tem seis anos. 
É uma menininha alta, magrinha e atlética. Seus cachos não existem mais, seus cabelos são castanhos, lisos e você está quase sempre despenteada. Você é linda, e diariamente me surpreendo ao olhar para você e saber que tenho participação nisso.
Sua principal característica é o movimento. Você nunca está parada, tampouco quieta. Sua chegada é sempre anunciada pelo som dos seus pulos, da sua fala, do seu riso. Você ri enquanto dorme. Sem você por perto, tudo é quieto demais.
Você não gosta de usar roupas, nem sapatos, nem de se cobrir. Adora o ar livre, água e sente falta do mar, como eu. Aprendeu a nadar sem aulas, trocou o balé pela capoeira e ainda não aprendeu a plantar bananeira. É incrivelmente flexível e gosta de exibir essa habilidade.
Gosta da escola, mas não é a melhor aluna. Destaca-se pela criatividade, pela beleza dos desenhos, pelo capricho e cuidado nos detalhes. Você ainda sente falta da sua escola antiga e dos amigos de lá. Dorme todas as noites com dois brinquedos preferidos que chama pelo nome de pessoas queridas que moram longe, um bebê e um ursinho. Adora suas primas gêmeas, relaciona-se bem com os amigos na escola, mas me encanta sua capacidade de brincar sozinha no mundo imaginário que constrói tão facilmente. Muitas vezes você procura o isolamento e a liberdade da sua imaginação. Você inventa brinquedos incríveis e me deu um bebê feito de beringela. Fez um gato feito de máscara de carnaval, uma fronha e fita crepe, levou para a professora uma boneca de garrafa pet com cabelos de renda. Tudo isso, criou sozinha.
Você é esquecida, desastrada, confiante. Acorda tarde e gosta que eu lhe faça cócegas. Você cuida da nossa gata com responsabilidade, sem esquecer da ração e da água dela, todos os dias. Tem medo de barata e não tem medo do escuro. Você gosta de gente, e nunca me perguntou porque algumas pessoas são diferentes. Você ama sua avó e faz com ela coisas que não fazemos juntas, e eu adoro isso.
Você me pede que leia para você antes de dormir e nós duas adoramos o Neil Gaiman. Depois da leitura, você reza para o Anjo da Guarda e nunca esquece de pedir proteção para as pessoas que são importantes para você. Eu me enterneço ao ouvi-la, todas as noites. Você é uma menininha feliz.
Você é tantas coisas, que é quase tudo.

O mundo é mais interessante com você por perto. Você é o melhor de mim. 


Update: Hoje, 05 de novembro, você aprendeu a plantar bananeira!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

CONTOS DE FADAS


Meus pais foram liberais dos anos 70 e queriam dar a mim e a minha irmã a liberdade de escolhermos nossa religião quando crescêssemos, de forma que não nos batizaram. Isso desencadeou uma "conspiração" familiar, que levou meus avós paternos a nos batizarem "às escondidas" e escolherem eles mesmos nossos padrinhos.


Coube-me como padrinho meu avô. Figura masculina mais importante da minha infância, ele sempre foi tanto que o status de padrinho nada lhe acrescentou. Minha madrinha era quieta, uma dessas tias solteironas e beatas. O único brinquedo que me recordo de ganhar dela foi uma lanterninha verde, que aliás, nunca funcionou. No entanto, ela me deu aulas de catecismo, me ensinou algumas orações e, principalmente, sempre mandava rezar uma missa em minha intenção nos meus aniversários e Natal. Ela faleceu faz alguns anos e desconfio que essas missas e suas orações me fazem muita falta...

Minha irmã teve como padrinhos um casal de parentes, ele irmão da minha avó, creio. O tio faleceu logo, mas a tia era figura encantadora. Naquele tempo, crianças podiam andar na rua sozinhas e sem dizer aonde iam, e desde os meus 8 anos, eu ia muitas vezes à casa dela. Sobradinho pequeno, dois andares de cômodos enfeitados, quarto com sacada.... Parecia uma casinha de bonecas, e eu ficava horas, em paz, brincando com um caixinha de botões e bijuterias.  Essa tia querida era dessas poucas pessoas que encontramos durante a vida na companhia de quem nos sentimos confortáveis no silêncio.

Em uma de minhas última visitas a ela, cheguei como sempre de surpresa, sem avisar. Havia com ela um rapaz bem novo, sobre a mesa um bolo e champagne, e ela, muito feliz, me disse:

- que bom que você veio, será a única convidada do nosso casamento.

Comi o bolo, brinquei, conversamos, me despedi com naturalidade, e ainda hoje fico feliz por saber que minha reação deva tê-la deixado feliz. Claro que quando cheguei na casa dos meus avós com a "novidade" do casamento, fui informada que não deveria mais ir lá por motivos morais que não me recordo, já que não devo ter prestado atenção na hora. Meus pais não endossaram a proibição, e fui ainda à casa dela, agora deles, mais algumas ocasiões, até que ela se mudou de cidade devido à pressão e preconceito. Tive poucas notícias dela, até sua morte, mas soube que foi feliz.

Essa madrinha da minha irmã deu a ela em um aniversário um livro que me pareceu, então, o mais lindo do mundo: A Sereiazinha, de Hans Christian Andersen. Meus contos de fadas preferidos são de Andersen: além desse, A Rainha da Neve e Os Cisnes Selvagens. E ainda uma menção honrosa para A Pequena Vendedora de Fósforos e O Rouxinol.

O conto de Andersen nada tem a  ver com o desenho da Disney, muito bonitinho, mas sem a profundidade do original. Coloquei a história, com alguma adaptação, no post abaixo. Acho que é um tanto triste pelos padrões atuais, e sempre achei que foi-lhe exigido demasiado sacrifício. Mas encantei-me desde sempre com a pequena sereia que sente-se deslocada no mundo que conhece, enfrenta o perigo e a dor em busca do que almeja e ama desejando que o outro seja feliz.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ENQUANTO O TEMPO PASSA



(Estou em uma fase introspectiva, ao mesmo tempo, de muito trabalho. Amadurecendo algumas coisas, cultivando outras. Esperando o tempo da colheita. Para não abandonar o blog, reedito um texto de 2008, um dos que mais gosto, pelo significado que tem para mim).



... doce nome de filha

Eu já disse em outro post que minha infância tem a luz da casa dos meus avós paternos.
Minha menina de cachos tem o mesmo da minha avó materna. Elas nunca se encontraram... Mas eu conto para minha menina histórias da bisavó.
Minha avó era muito doce. Eu era uma criança muito quieta e ela sempre me entendeu. Gostava de ficar em cima da cama no quarto dela enquanto era arrumado e ver a poeira dançando nos raios de sol. Estou nesta cama na minha foto preferida.
Ela me contava sobre sua infância e juventude, histórias que me encantavam. Filha mais nova de uma família bastante tradicional na cidade, suas roupas eram feitas por uma modista copiando figurinos que vinham de Paris (eu ainda tenho uma revista com estes figurinos). A casa dos meus avós era cheia de pequenos tesouros escondidos em armários e gavetas, xícaras chinesas delicadas como asas de borboletas, vidros de perfumes que cheiravam como um jardim inteiro, broches e enfeites vindos de lugares exóticos...
Minha avó era capaz de pequenos gestos cheios de significado. Cada neta tinha uma xícara especial para tomar café com leite e para cada uma ela fazia um bolo especial (meu irmão veio bem depois). Cozinhava divinamente. Também era muito bem humorada, gostava de contar piadas, adorava festas e estava sempre lendo, romances históricos que eu adorava ir comprar com ela no Mercado. Era muito sincera, para desgosto do meu avô, e histórias a respeito desta sinceridade fazem parte das lendas familiares.
Esta minha avó serena, que todos amavam, não teve uma vida fácil, no entanto. Perdeu dois filhos, um ainda criança, de sarampo. E outro, meu tio mais bonito e inteligente, morreu muito jovem em uma tragédia. Imagino que para ela e para meu avô a vida não tinha tantas cores quanto as que eles nos davam.
Ela tocou a vida de muita gente com sua delicadeza. Espero que minha menina seja, como ela, uma verdadeira dama.
(Minha outra avó tem nome de flor, mas é na verdade uma velha e bela árvore. Em sua sombra se abriga uma grande família, unida pela sua presença).



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

DANDO LAÇOS, DESATANDO NÓS


Nesse final de semana minha avó fez 90 anos. 
Ao longo do nosso tempo juntas, as memórias mais carinhosas são da sua linda voz cantando, das suas histórias antes de dormir e dos famosos bolinhos, que de tão bons são conhecidos como os "bolinhos da Tia Anastácia". E que ninguém, ninguém mesmo, é capaz de fazer igual.
Minha avó foi lindíssima na juventude e continua bonita. Surpreende a todos pela energia, pela fé e principalmente pela capacidade de comer de tudo... Mas sua memória a trai muitas vezes. Os irmãos que ela não encontrava há anos vieram para a comemoração e havia a expectativa se ela os reconheceria ou não... E ela ficou, sim, muito feliz com a presença deles, que ficaram o tempo todo ao lado dela. Parte da família se reencontrou, parte se conheceu naquele momento... E as duas mais novas bisnetas, de 4 meses, se viram pela primeira vez.
Minha avó já não é capaz de morar sozinha, precisa de ajuda para algumas tarefas cotidianas. Todavia, mantém intactas suas preferências, faz suas escolhas e até briga por elas algumas vezes!
Observando a festa, as pessoas e especialmente minha avó, refleti sobre uma questão que tem me rondado: independência x autonomia.

Para mim, a independência tem um caráter objetivo, refere-se à questões de ordem prática, que nos permitam sobreviver sem ajuda. Ter um bom salário, um lugar para morar, poder se locomover sozinha... Tudo isso e ainda mais pode nos fazer independentes. Buscar a independência é uma das condições para alcançar a liberdade.
Mas sobreviver só, não basta... O importante é VIVER. Por isso, para mim a autonomia é mais importante que a independência. Autônomo é quem cria suas próprias regras - e que tem a liberdade de recriá-las, se for o caso. Autonomia está ligada à questões subjetivas como liberdade de escolha, definição de objetivos e metas, enfim, de assumir o leme da própria vida. Em diversos momentos, pode ser que sejamos dependentes de ajuda externa, assim como as crianças, os idosos, os deficientes. Ou mesmo quando um revés nos atinge. Mas quem é autônomo tem a capacidade de escolher seus caminhos, de se reinventar. Pode escolher até mesmo não agir.
Lutar pela independência pode implicar em confronto, ao passo que a autonomia é sempre uma atitude positiva. Autonomia é liberdade. Mesmo em uma prisão, ainda se pode fazer escolhas, evoluir. Importante dizer que quem é autônomo pode não ter independência em alguns aspectos, mas não é nunca dependente, ao não se deixar prender por expectativas alheias, por convenções, por medos.
A busca excessiva pela independência pode acabar em solidão, na medida em que se acredita prescindir de outros. Enquanto ser autônomo é ser livre para escolher as companhias, sem ter medo das relações que se estabelece. É ter confiança em si e no próximo.
Quem quer ser independente a ponto de apartar-se também das relações pessoais, na verdade está abrindo mão da sua autonomia. Está deixando de decidir, de experimentar, de ousar. Está dando nós, e não criando laços. Torna-se, apenas, um sobrevivente.
Enfim, quem é independente tem controle dos aspectos práticos da própria vida, enquanto quem é autônomo tem poder sobre si mesmo. 
É isso que quero para minha filha: que ela busque - e encontre - sua independência, mas principalmente, que tenha autonomia. 
Que faça laços e não ate nós.

"Happines (is) only real when shared"

Esse texto foi uma das causas dessa minha reflexão:
Aline tem todo o tempo do mundo

Recomendo muito esse filme, baseado em uma história real:
Na Natureza Selvagem (Into the Wild)

Texto do blog "O que der e vier" que também fala sobre conceitos semelhantes e distintos (esse blog é otimo):
Sobre modéstia e humildade



terça-feira, 3 de novembro de 2009

COMIDA PREFERIDA: MINHOCA FRITA

Dia desses, saindo com a minha menina de cachos da escola, encontramos meu pai. Bem próximo a onde ela estuda, há um Restaurante Vegetariano com tendências boêmias. As cervejas de diversas procedências atraem um público não tão interessado em vida saudável e meu pai chegava para uma happy hour. Claro que ela correu para junto do avô e nós duas nos integramos à turma.
Sendo um restaurante que não faz pratos com produtos de origem animal, os petiscos fogem do tradicional. O dono sugeriu, pra começar, um tal "torresmo vegetariano", feito com gergelim e não-sei-mais-o-quê. Quando o aperitivo chegou à mesa, parecia, na verdade, minhocas fritas. E foi isso que dissemos, de brincadeira, à minha menina. E não é que ela não só acreditou, como comeu e adorou? Gostou tanto que foi à cozinha pedir ao "tio" mais uma porção.

Além de engraçado, achei legal esse lado gourmet destemido dela. Eu sempre a ensinei a experimentar, mas não pensei que ela fosse capaz de ir tão longe! E chegando em casa, minha filha foi logo anunciando:

- Agora minha comida preferida não é mais camarão. É minhoca frita!

Que ela continue assim, sem medo de tentar novas experiências. Pois hoje foi ela quem me lembrou que podemos ser surpreendidos com algo muito bom justamente de onde menos se espera.

E da próxima vez que a vida me oferecer algo estranho, vou arriscar experimentar....

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Festa!

Minha menina cresceu.
Fez cinco anos este mês, e sábado foi a festinha dela.

No dia do aniversário fiz uma "festa do pijama", ela e a gêmeas de roupa de dormir. Comemos pipoca, carolinas e bolo. Elas adoraram!

E neste fim de semana, festa com a família e amigos queridos.
Aqui faz muito calor e o dia estava particularmente quente. O evento foi em uma chácara da família, e enquanto eu e minha tia querida arrumávamos a decoração da fada Sininho e suas amigas, minha filha e as primas aproveitaram o dia para nadar.
Na hora da festa, estava tudo lindo - e simples. Nada de bexigas - pedido da aniversariante. Tudo sem exagero, mas na medida para receber a família e amigos mais chegados.
Minha menina linda estava feliz e ela e as crianças brincaram bastante, usaram muito a imaginação, correram, inventaram... Eu fiz questão de não alugar nenhum daqueles brinquedos em que as crianças passam longos minutos esperando na fila para depois brincarem de maneira solitária. Queria crianças de todas as idades brincando juntas, interagindo. E deu certo! Minha pequena que está crescendo teve um dia muito feliz e uma festa como tinha imaginado, comeu suas delícias favoritas (o bolo no meu colo), brincou e compartilhou sua felicidade.

Esta festa vai ficar para sempre na minha memória, porque para realizá-la muita gente me ajudou. Eu estou trabalhando muito, o dinheiro está apertado. Então contei com uma rede de pessoas queridas - minha irmã, minha mãe minhas tias e tios, primos, amigos que ficaram o dia e a noite enrolando docinhos... Enfim, cada um deu a mim e a minha filha um presente que não tem preço.
Eu pude fazer pouco, comparado com o tanto que me ajudaram. Mas bordei o vestido que minha menina usou, e meu amor estava junto dela o tempo todo. O vestido cheio de brilho ajudou a iluminá-la ainda mais no seu dia especial!

E no dia da festa, o Pai de todos nós também nos presenteou com um dia lindo e sem chuva, afastando as nuvens e temporais que têm desabado diariamente por aqui.
Que assim seja também a vida de todos nós, e que embora as tempestades caiam, que o sol brilhe sempre nos momentos importantes, iluminando para sempre nosso trajeto e nossa memória.

sábado, 22 de novembro de 2008

Pausa Culinária

Estamos passando por um momento delicado. Eu e o pai da minha menina estamos nos separando.

Então, hoje vou postar a receita de bolo preferida dela. Para alimentar o corpo e a alma. Confort food...

BOLO DE MILHO


1 vidro de leite de coco

3 ovos

3 colheres de manteiga ou margarina

1 copo (grande) de fubá

a mesma medida de acúcar (eu prefiro açúcar mascavo)

1 lata de milho verde escorrida

1 colher de sopa de fermento em pó


Bata muito bem no liquidificador o leite de coco, os ovos, a manteiga, o fubá e o açúcar. Diminua a velocidade e acrescente o milho e o fermento, batendo só um pouquinho. Despeje em forma untada e polvilhada com um pouquinho de canela misturada à farinha de trigo. Leve ao forno médio pré-aquecido.


Fica com gostinho de bolo de vó. Sabe, gosto de infância.

Para enganar ainda mais os sentidos, acompanhe com um falso café de fogão à lenha (para os adultos): em uma frigideira em fogo baixo, coloque um pouquinho de açúcar. Quando começar a derreter, acrescente a quantidade de pó de café que você for usar. Deixe mexa levemente e deixe torrar um pouquinho (bem rápido!). Coe essa mistura no coador de pano, ou até mesmo no coador com filtro de papel.


(Ilustro este post com o brinquedo que minha filha tem que eu mais gosto. Uma boneca que ela fez na escola, com material reciclado, chamada Xepa).

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

De crianças e andorinhas

Eu sou uma árvore.
Cresci espalhando meus galhos em muitas direções, cada vez mais alto. Mas entre viagens e mudanças de endereço, lancei minhas raízes cada vez mais fundo na cidade do meu coração.

Eu e minha menina ficamos dez dias por lá. Ela absolutamente feliz por não ser mais ilha, por estar rodeada de tantas crianças, bichos, avós, tios, tias... Alegria sem tamanho!

Foi aniversário de 15 anos da minha sobrinha linda. Ela foi minha primeira filha, a criança que me ensinou o amor acima de todas as coisas. Eu me perguntei algumas vezes se seria capaz de amar outra criança tanto quanto ela. E aprendi que o amor se multiplica.

Lá estava sol e calor. Minha filha nadou muito, até aprendeu com o Tio João a "nadar" sem bóia. Uma graça a coragem dela, tão destemida, tentando de novo mesmo quando afundava. Em uma noite quente e perfumada, sentada no meu colo, ela viu vagalumes pela primeira vez.
Tivemos ainda a sorte de participar da celebração dos 30 anos de casamento de meus tios, que aconteceu no lugar mais mágico que conheço. Minha menina neste dia dormiu lá, "sem mãe e sem pai", e se divertiu muito! Ficamos as duas orgulhosas, porque ela não chorou, ao contrário!

E no sábado pude fazer com ela e com as gêmeas o passeio que fazíamos quando morávamos por lá. Ela pediu porque não se lembra mais... Dois anos só!
Fomos à praça, comemos pipoca e paçoca de pilão (íncomparável), ao Mercado Municipal, à Estação Ferroviária... E eu e minha mãe vimos o velho pelos olhos dos novos. E tudo ficou ainda mais lindo!

Na chegada e no dia anterior à volta, ficamos na casa do Vovô. Outra realidade, cidade grande, apartamento pequeno. E ela mais uma vez apreciou a experiência e fez muita bagunça com o meu pai!

Agora, estamos de novo na Ilha. E para mim ficou a imagem das andorinhas que entravam e saíam do teto da casa, tão parecidas com as crianças que estavam ali, em sua algazarra, liberdade e beleza.


Para saber mais:

http://www.agostinhodapacoca.com/

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Horizontes

Existe um verso de Fernando Pessoa que é muito citado em sentido figurado.
Este verso faz parte de um poema com o qual me identifico, porém em seu sentido literal...

Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nasci em São Paulo, mas meu coração vai morar para sempre na cidade do interior onde passei boa parte da minha vida. Que não é tão pequena assim, mas tem uma zona rural onde os mais velhos usam chapéu de palha, onde se cozinha à lenha. A paçoca é feita no pilão e logo ali, atrás da Serra, fica Minas Gerais.
Eu preciso ver montanhas ao longe para ser feliz. Por mim passa o Caminho do Ouro, e o mar é antes de tudo um cheiro, que sobe pela mata úmida da Serra do Mar e deságua em Paraty.

Como serão os horizontes da minha menina? Criada no litoral, à beira de um mar que não tem cheiro. Longe de avós, tios, tias, primos...Brincando no playground e não no quintal. Com pai que trás na bagagem a lembrança dos pampas sem fim.

Acho que minha filha vai ser o que eu nunca consegui: cidadã do mundo!
Quanto a mim...
Eu tenho a alma caipira. Gosto das cidades pequenas e dos grandes quintais.


Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"

DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

sábado, 11 de outubro de 2008

Receita de amor

A receita de pão de minuto que eu postei abaixo, minha avó querida fazia sempre para mim.

Agora, sou eu quem faço para alguém com o mesmo nome e que eu também amo muito...

Fiz nesta quinta mesmo, para minha menina levar para o "acampamento" da escolinha. Eu gosto de preparar as receitas que ela tem que levar em dias especiais. Gosto dela ao meu lado na cozinha. Fica tudo misturado: os ingredientes, o aroma no ar, nosso amor.
E dura muito mais que um minuto...

terça-feira, 2 de setembro de 2008

... doce nome de filha

Eu já disse em outro post que minha infância tem a luz da casa dos meus avós paternos.
Minha menina de cachos tem o mesmo da minha avó materna. Elas nunca se encontraram... Mas eu conto para minha menina histórias da bisavó.
Minha avó era muito doce. Eu era um criança muito quieta e ela sempre me entendeu. Gostava de ficar em cima da cama no quarto dela enquanto era arrumado e ver a poeira dançando nos raios de sol. Estou nesta cama na minha foto preferida.
Ela me contava sobre sua infância e juventude, histórias que me encantavam. Filha mais nova de uma família bastante tradicional na cidade, suas roupas eram feitas por uma modista copiando figurinos que vinham de Paris (eu ainda tenho uma revista com estes figurinos). A casa dos meus avós era cheia de pequenos tesouros escondidos em armários e gavetas, xícaras chinesas delicadas como asas de borboletas, vidros de perfumes que cheiravam como um jardim inteiro, broches e enfeites vindos de lugares exóticos...
Minha avó era capaz de pequenos gestos cheios de significado. Cada neta tinha uma xícara especial para tomar café com leite e para cada uma ela fazia um bolo especial (meu irmão veio bem depois). Cozinhava divinamente. Também era muito bem humorada, gostava de contar piadas, adorava festas e estava sempre lendo, romances históricos que eu adorava ir comprar com ela no Mercado. Era muito sincera, para desgosto do meu avô, e histórias a respeito desta sinceridade fazem parte das lendas familiares.
Esta minha avó serena, que todos amavam, não teve uma vida fácil, no entanto. Perdeu dois filhos, um ainda criança, de sarampo. E outro, meu tio mais bonito e inteligente, morreu muito jovem em uma tragédia. Imagino que para ela e para meu avô a vida não tinha tantas cores quanto as que eles nos davam.
Ela tocou a vida de muita gente com sua delicadeza. Espero que minha menina seja, como ela, uma verdadeira dama.
(Minha outra avó tem nome de flor, mas é na verdade uma velha e bela árvore. Em sua sombra se abriga uma grande família, unida pela sua presença).

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Ilhas

Minha filha tem irmãos (por parte de pai), mas não convive com eles, devido a distância. Eles se amam, fazem a maior festa quando estão juntos, mas quase não se vêem.
Nossa família - eu, ela e o pai - é uma ilha, assim como o lugar em que moramos.
Os avós, os tios, primos, moram todos longe.
Eu sinto tanto que ela não tenha o que eu tive na infância!
Minha irmã sempre foi minha companheira de brincadeiras. Meu irmão veio bem depois e foi nosso bebê. E depois, quando morou comigo, meu amigo. Tempo tão bom! Ai que saudades!
Minha menina merecia ter os tios bem pertinho!
E nada como as tardes nas casas dos avós, abrir a geladeira cheia de "confort foods", desbravar os quintais, ficar perto do melhor carinho do mundo!
Vô e Vó são coisas como não há igual no mundo de tão bom! E os da minha menina de cachos estão tão longe...
As primas gêmeas são quase da mesma idade, a adolescente poderia ser um modelo de beleza e um aprendizado de comportamento, elas todas perdem tanto com esta distância.
Eu queria tanto, tanto todo mundo bem pertinho...

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Pais

Eu fico triste por estar longe do meu pai. Triste porque não tenho mais avôs. Meu avô materno era calado, distante. Acho que ele não sabia muito bem como lidar com crianças. Eu sou a neta mais velha e quando entrei na adolescência ele me abriu o mundo dele. O quarto secreto, cheio de passarinhos e gibis do velho oeste. Pena que ele se foi tão cedo!
Do meu avô paterno sinto falta quase todos os dias. A casa dele e da minha avó tem a luz da minha infância. No ano passado viajamos no dia do aniversário dele. À nossa frente, um carro com placa de uma cidade com o seu nome. Pude senti-lo por perto, me protegendo.
Tenho saudades de todos os que não estão perto e de todos os que se foram...
Crescer é difícil e nunca acaba.

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