"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

VOCÊ, HOJE

Você tem seis anos. 
É uma menininha alta, magrinha e atlética. Seus cachos não existem mais, seus cabelos são castanhos, lisos e você está quase sempre despenteada. Você é linda, e diariamente me surpreendo ao olhar para você e saber que tenho participação nisso.
Sua principal característica é o movimento. Você nunca está parada, tampouco quieta. Sua chegada é sempre anunciada pelo som dos seus pulos, da sua fala, do seu riso. Você ri enquanto dorme. Sem você por perto, tudo é quieto demais.
Você não gosta de usar roupas, nem sapatos, nem de se cobrir. Adora o ar livre, água e sente falta do mar, como eu. Aprendeu a nadar sem aulas, trocou o balé pela capoeira e ainda não aprendeu a plantar bananeira. É incrivelmente flexível e gosta de exibir essa habilidade.
Gosta da escola, mas não é a melhor aluna. Destaca-se pela criatividade, pela beleza dos desenhos, pelo capricho e cuidado nos detalhes. Você ainda sente falta da sua escola antiga e dos amigos de lá. Dorme todas as noites com dois brinquedos preferidos que chama pelo nome de pessoas queridas que moram longe, um bebê e um ursinho. Adora suas primas gêmeas, relaciona-se bem com os amigos na escola, mas me encanta sua capacidade de brincar sozinha no mundo imaginário que constrói tão facilmente. Muitas vezes você procura o isolamento e a liberdade da sua imaginação. Você inventa brinquedos incríveis e me deu um bebê feito de beringela. Fez um gato feito de máscara de carnaval, uma fronha e fita crepe, levou para a professora uma boneca de garrafa pet com cabelos de renda. Tudo isso, criou sozinha.
Você é esquecida, desastrada, confiante. Acorda tarde e gosta que eu lhe faça cócegas. Você cuida da nossa gata com responsabilidade, sem esquecer da ração e da água dela, todos os dias. Tem medo de barata e não tem medo do escuro. Você gosta de gente, e nunca me perguntou porque algumas pessoas são diferentes. Você ama sua avó e faz com ela coisas que não fazemos juntas, e eu adoro isso.
Você me pede que leia para você antes de dormir e nós duas adoramos o Neil Gaiman. Depois da leitura, você reza para o Anjo da Guarda e nunca esquece de pedir proteção para as pessoas que são importantes para você. Eu me enterneço ao ouvi-la, todas as noites. Você é uma menininha feliz.
Você é tantas coisas, que é quase tudo.

O mundo é mais interessante com você por perto. Você é o melhor de mim. 


Update: Hoje, 05 de novembro, você aprendeu a plantar bananeira!

domingo, 15 de agosto de 2010

NA RODA DA VIDA



Ano passado, foi a apresentação de balé. Roupas delicadas, ambiente refinado. Minha menina gostou de colocar roupinha de "boneca", de se maquiar. Gostou dos preparativos. Na apresentação, era importante que todas estivessem iguais, fazendo os mesmos movimentos. Platéia lotada de famílias orgulhosas. Um espetáculo para os que assistiam.

Esse ano, batizado na capoeira. Em poucos minutos, estava pronta. Calça e camiseta brancas, largas, confortáveis. O batizado foi na Academia. Música ao vivo, cantada por todos, tradicional. Muitos alunos, muitos professores, alguns mestres. Mas pouca platéia. Na roda, alegria de quem se apresentava. Um aluno e um mestre, iguais naquele momento do jogo. Dialogando em seus movimentos, um tentando surpreender o outro. Quando alguém faz algo inesperado, é aplaudido. Em volta, outros alunos e mestres não perdiam um movimento. A música marcando o ritmo, todos cantando. Um espetáculo para os que participaram.



Fico feliz que minha filha prefira aquilo que faz seus olhos brilharem mais do que os de quem assiste. Pois também na vida temos a escolha de sermos originais ou iguais. Fazer o espetáculo para a platéia, ou para nós e nossos parceiros. Olho no olho. Porém, sem nunca se esquecer, como se diz na capoeira: "quem está de fora, está vendo".


"Que Deus ilumine teus passos e te proteja na grande roda da vida!"
(Escrito no certificado de batismo dela)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ALENTO

Minha vida sempre teve trilha sonora. Nunca ouço música impunemente.

Uma de minhas lembranças mais remotas é de parar de brincar para ouvir música. Criança estranha, gostava de Frank Sinatra, de Bossa Nova. A "Cavalgada das Valquírias" abastecia-me de entusiasmo. "João e Maria" traduzia meu faz de conta.

Fugindo ao clichê, no entanto, nem todos os meus amores tiveram a "nossa" música. Alguns foram cheiro, perfume. Outros, uma determinada hora do dia, ou tato, ou sons outros que não notas musicais. Há um quase-amor, esmaecido, que virou uma canção na luz de fim de tarde de um verão. E o maior de todos tem toda uma trilha sonora, que cresce ainda hoje.

Quando meu tio, irmão mais novo do meu pai, morreu de forma trágica, eu tinha cinco anos e fui, como as outras crianças, "protegida" da verdade, o que não evitou a dor. Confusa, mantida à distância, lembro-me do meu pai chorando e ouvindo música com fone de ouvido. Essa dor foi surda.


Também dói-me a música quando vai além dos sentidos para transformar-se em sentir. Porém, me arrebata, me toma inteira, me alegra, quando me faz acreditar. Serendipity.

Hoje vi minha menina puxar o canto na capoeira. Desafinada como a mãe. Para ela, ainda bebê, fiz uma cançao de ninar. Já coloquei a letra aqui no início do blog, mas hoje tenho a coragem de mostrar que canto para ela, que é todos os sons e todas as notas.



(Fiz esse vídeo alguns dias depois do seu primeiro aniversário. Hoje ela tem seis anos, e é ainda mais bela...)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

CAPOEIRA

Ela fazia balé. Um dia, cheguei para buscá-la e lá estava minha menina, toda descabelada, meia rasgada, sapatilhas sujas:

- Filha! O que é isso! Nem parece uma bailarina! Desse jeito, vou lhe tirar do balé e colocar na capoeira!

Ela, muito, muito feliz:

- Hoje, mãe?

E foi assim que o mundo perdeu uma bailarina e ganhou uma capoeirista.

O local onde ela faz as aulas é uma Academia muito antiga e tradicional na cidade. Um local bonito, mas meio mal conservado. O Mestre ensina não só a Capoeira, mas fala de história, de tradições, ensina música e instrumentos musicais da Capoeira. Esporte e cultura, de tal forma que uma hora e meia de aula freqüentemente se transformam em duas. É a coisa mais linda do mundo ver a alegria genuína dela ao treinar os golpes e jogar na roda. Concentrada, harmoniosa e bonita.

Na Academia é feito também um trabalho de inclusão social, de forma que no horário que ela freqüenta, a maioria dos alunos é bolsista. Gosto de ver que em todas as ocasiões em que minha filha se depara com o teoricamente diferente, ela aceita com naturalidade.

Ela sempre me lembra que não se trata de aceitar o diferente, mas ver a todos como iguais.

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