segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A DANÇA

“Eu só acreditaria em um Deus que soubesse dançar”.
(Friedrich Nietzsche)

Vou buscá-la na escola e pergunto:
- Com quem você brincou hoje?
E ela, sorrindo, feliz:
- Com ninguém, mãe, sozinha.
- Sozinha?! Mas por que sozinha?
Ainda sorrindo, responde, distraída pela joaninha que tenta pegar no chão:
- Ué, mãe! Ninguém quis brincar minha brincadeira, brinquei sozinha!

Como a resposta "sozinha" se repetiu mais algumas vezes, aproveitei a reunião de fim de ano para conferir com a professora. Que me contou, encantada, que de fato, às vezes minha menina de cachos passa o recreio só e feliz:
- Ela gosta de cantar. E dançar. Se ninguém quer dançar com ela, ela dança sozinha.

Realmente, minha filha raramente tem os dois pés no chão ao mesmo tempo! E sua presença nunca é silenciosa. Mesmo quando dorme, ela fala e ri. Porém, sabe ficar só, sem estar solitária. Adora brincar com outras crianças, mas é capaz de inventar seus próprios jogos. Ela cria sua própria canção.

Olhar para ela me faz lembrar que nem sempre teremos parceiros para dançar conosco. E que haverá sempre alternância de ritmos, de timbres. Às vezes, o volume estará tão baixo, que há que se concentrar para ouvir... Mas não é por isso que devemos desistir da dança. O importante é continuar a ouvir a música da vida.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

DANA GIOIA

Descobri um poeta. Para quem gosta tanto de poesia como eu, essa descoberta é ao mesmo tempo um júbilo e uma vergonha. Porque na verdade trata-se de um poeta americano premiado e conhecido internacionalmente, que eu encontrei lendo o blog do Marcelo Coelho. No blog há alguns poemas traduzidos para o português (dias 01/12 e 30/11).

Gioia tem uma história interessante, era um executivo, chegou a vice-presidência da General Foods, mas desistiu do mundo corporativo para escrever. Ele também é um crítico reconhecido, tradutor, especialista em literatura e ocupou o mais alto cargo no National Endowent for the Arts até o início desse ano. Além de poesia, Dana Gioia escreveu um libreto de ópera, "Nosferatu".

Eu gostei muito da musicalidade de seus poemas. Encontrei ecos de J. L. Borges, de W. B. Yeats. Não me arrisco a traduzir um poema, então peço desculpas por colocar aqui um poema no oroginal, em inglês. Para quem não lê o idioma, recomendo o link do blog do Marcelo Coelho que coloquei acima.

Summer Storm
We stood on the rented patio
While the party went on inside.
You knew the groom from college.
I was a friend of the bride.

We hugged the brownstone wall behind us
To keep our dress clothes dry
And watched the sudden summer storm
Floodlit against the sky.

The rain was like a waterfall
Of brilliant beaded light,
Cool and silent as the stars
The storm hid from the night.

To my surprise, you took my arm–
A gesture you didn't explain–
And we spoke in whispers, as if we two
Might imitate the rain.

Then suddenly the storm receded
As swiftly as it came.
The doors behind us opened up.
The hostess called your name.

I watched you merge into the group,
Aloof and yet polite.
We didn't speak another word
Except to say goodnight.

Why does that evening's memory
Return with this night's storm–
A party twenty years ago,
Its disappointments warm?

There are so many might have beens,
What ifs that won't stay buried,
Other cities, other jobs,
Strangers we might have married.

And memory insists on pining
For places it never went,
As if life would be happier
Just by being different.

Para saber mais: Dana Gioia

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

TRÊS


Outro dia, conversando com um amigo, estava fazendo listas de coisas que gosto - sempre em três: 3 palavras favoritas, 3 cheiros, 3 lugares... Ele me perguntou: por que tudo de três? Ainda não havia reparado, mas acho que três é meu número da sorte. Especialmente, o dia 3.

Minha filha nasceu num dia 3.
Foi num dia 3 que conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Curiosa, revirei antigas agendas e achei outros acontecimentos felizes nesse dia.
E hoje, dia 3, recebi uma notícia muito boa, que decidi que vai ser o começo de um novo ciclo, muito mais feliz em minha vida.

Então é isso: depois da boa notícia de hoje, o três está oficialmente nomeado o meu número da sorte!

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

(Ah, hoje, dia 03 de dezembro, é também o aniversário de uma menina linda, que conheço pouco, mas que mora no meu coração. E aniversário também de uma nova amiga, que sabe rir da vida. O que comprova que o dia 3 é mesmo especial).

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

TREINO


Ela veio e disse:
- Mãe, eu já nadei bastante com bóia para treinar. Se eu tirar eu consigo nadar sozinha.

Eu, meio com medo, vigiando de perto, deixei. E não é que ela foi? Nadou sozinha, engoliu água, mas não desistiu. Desde aquela tarde, ela não colocou mais as bóias (e eu não consegui mais fechar os olhos para tomar sol...)

Eu também sou uma bóia na vida dela. Sei que chegará o dia em que ela irá mergulhar sozinha e nadar em seus próprios mares.

E então, eu serei o seu porto.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O BEIJO (Gustav Klimt)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

AMOR, MÚSICA E POESIA

Começou antes de começar, em uma conversa. Eu disse que estava ouvindo uma música, falei um trecho. Depois mandei o vídeo, ele copiou. E deixou outro para mim.
E assim, ele começou a me contar por músicas o que sentia. Dizer nas entrelinhas. Cada dia um vídeo novo. Às vezes mais de um. Eu respondia da mesma forma. Nossas canções conversavam entre si. Ao invés de termos "a nossa música", tivemos toda uma trilha sonora, linda.

Às vezes, ouvir essas músicas é como cantou Herbert Vianna; "cada canção de amor abre a ferida". Mas na maioria das vezes sinto-me cúmplice das palavras e melodias, dona de um segredo bonito. Foram meus aqueles sons, aqueles sentimentos e aquela história, que agora se mistura a outras para formar o grande mar que é minha vida.

Também ganhei alguns poemas dele. Divido um deles com vocês:



Aquí te amo.
En los oscuros pinos se desenreda el viento.
Fosforece la luna sobre las aguas errantes.
Andan días iguales persiguiéndose.

Se desciñe la niebla en danzantes figuras.
Una gaviota de plata se descuelga del ocaso.
A veces una vela. Altas, altas estrellas.

O la cruz negra de un barco.
Solo.
A veces amanezco, y hasta mi alma está húmeda.
Suena, resuena el mar lejano.
Este es un puerto.
Aquí te amo.

Aquí te amo y en vano te oculta el horizonte.
Te estoy amando aún entre estas frías cosas.
A veces van mis besos en esos barcos graves,
que corren por el mar hacia donde no llegan.

Ya me veo olvidado como estas viejas anclas.
Son más tristes los muelles cuando atraca la tarde.
Se fatiga mi vida inútilmente hambrienta.
Amo lo que no tengo. Estás tú tan distante.

Mi hastío forcejea con los lentos crepúsculos.
Pero la noche llega y comienza a cantarme.
La luna hace girar su rodaje de sueño.

Me miran con tus ojos las estrellas más grandes.
Y como yo te amo, los pinos en el viento, quieren cantar tu nombre con sus hojas de alambre.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

UM POEMA PARA MIM

Até chorei...
Nos comentários do meu texto anterior, ganhei um poema todo meu, feito pela linda (por dentro e por fora) Débora do 3 x 30 - Solteira, Casada, Divorciada.
Uma poesia bonita e verdadeira, convidando a viver de maneira plena e a dar espaço ao inesperado e às pequenas coisas (que são as mais importantes).
Mereceu um post!
Obrigada, Débora, por tanta gentileza! Continue assim. O-Negai Shimasu!

Menina

Poesia é o que tá lá fora
Longe do mundo das letras
O que não se diz em palavras
Um beijo roubado
Um olhar apaixonado
A gargalhada da sua menina de cachos
(Ou ela a conversar com o vento)
Um bom prato de comida
Um tombo no mar
O rir da vida

Se ainda assim
Queres um versinho
Te mando essa coisa estranha
Mas repleta de carinho

(Débora)
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