"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

NAVEGAR É PRECISO

Eu tenho um livro de poesia da Cecília Meireles em que logo na primeira página está escrito: "Gostaria que pertencesse à minha filha, um dia". Embaixo, a data - do ano em que eu nasci. Acho muito bonito essa esperança da minha mãe, de que eu herdasse o livro e o gosto pela poesia. O que aconteceu.

Eu também quero deixar para a minha menina livros e o prazer da leitura. Começo pela minha edição da obra completa de Fernando Pessoa. Seus versos me acompanham há muito tempo. E há um do qual me lembrei hoje:

"viver não é preciso"

Se falta à vida a precisão da navegação, sobra, contudo, espaço para mudanças, improvisos, surpresas. Não tenho a carta náutica que dê a direção a seguir. Mas tenho a esperança a me dar um norte. E também outros versos do poeta para navegar:

"Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu".

(Existe uma discussão a respeito do sentido da frase do poema de Fernando Pessoa. Preciso de precisão ou de necessidade? A frase original em latim foi dita pelo General romano Pompeu para incitar seus marinheiros à guerra e fala que viver não é necessário. Pessoa diz que viver não é necessário, o que é necessário é criar. Mas eu acho que a obra foi além desse significado primeiro (e acho também que viver e dar um significado à vida é sim, uma necessidade). Seja como for, a ambiguidade torna o poema ainda mais bonito. Aceito críticas e comentários!)

4 comentários:

++ Rodolfo Araújo ++ disse...

Nina, sabia que eu nunca tinha prestado atenção nesse detalhe...?

Quem sabe a intenção de Pessoa fosse exatamente esse duplo sentido, essa ambigüidade? Ou talvez tudo junto, na imprecisão de nossas necessidades.

De qualquer forma, na navegação às vezes é mais importante ler os mapas, outras entender a bússola. Outras, ainda, somente agradecer ao vento.

Atenciosamente, Rodolfo.

vida cotidiana disse...

Não posso discordar da sua interpretação, verdade.
Acho que tudo dependendo de como olhamos, está sujeito a várias interpretações.
Adorei, bjs

Nina disse...

Oi, Rodolfo,

Pessoa tem um texto em que fala:
"Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça."

Mas como disse, eu acho que a obra se tornou maior que o criador, e que o verso permite a interpretação de que viver não é exato.
Seja como for, necessário é seguir sempre em frente!

Nina disse...

Oi, Ana!

Obrigada!
É isso aí, a marca da genialidade é tornar a obra aberta ao olhar de cada um, não é? Fernando Pessoa é universal e ao mesmo tempo, parece falar só a cada um de nós.

beijo!

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