"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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terça-feira, 15 de maio de 2012

AO QUE VIRÁ

Sim, bem sei que deveria escrever palavras minhas.
Mas não, agora o que quero é registrar meu desejo de que você, filha, acredite sempre. E, acreditando, seja capaz de construir, para si e para outros, um mundo melhor.

Você pode. Você deve. Ser feliz, e contribuir para a felicidade de todos.



Fernando Birri explica utopia:
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."


Eduardo Galeano, "O direito ao delírio".
"Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja.
As Nações Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.
Que tal começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal se delirarmos por um momentinho?
Ao fim do milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível.
O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.
As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.
A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.
Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim os que queiram cumprir.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.
A comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.
As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.
A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.
A perfeição seguirá sendo o privilégio tedioso dos deuses, mas neste mundo, neste mundo avacalhado e maldito, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro."

domingo, 4 de dezembro de 2011

TEMPO DE DELICADEZAS

Estamos sendo cuidadas.

O conforto chega em telefonemas para o hospital, de madrugada. Em ajuda para a apresentação de ginástica. Em assumir problemas deixados por outro, e ocupar espaços importantes no coração de uma criança. Cuidado chega em chocolates, bonecas, e no gesto de cobrir quem adormeceu de cansaço. O cuidado se faz presente na distância e também se descortina lado a lado, no abraço. No olhar. Carinho que me encanta.

E porque  um tanto do fardo me é tirado, aumenta o espaço para que eu também cuide. Há mais espaço em mim para o melhor e mais belo. Também posso guardar melhor minha menina, pois estou mais tranquila e serena.  

O cuidado diz "eu amo você" sem palavras. Com carinho, com atenção, com discrição. Porque que ama cuida, inclusive, contra a inveja alheia.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

AMAR

Viemos pelo céu, acima das nuvens. A chegada nos reservou uma surpresa, uma moça que se fez ainda mais linda. E ele estava lá... Tudo mudou, e nada mudou, na nossa longa história curta. Como no caminho que fizemos todos juntos, para um almoço de entrelinhas: nos perdemos, mas encontramos nosso rumo para casa. 

A menina chamou o mar, e ele veio.

Foi nessa noite, sem lua. Alguns dos encantos da praia escondidos entre vento e nuvens, minha menina, tal qual uma tartaruguinha, encontrou seu lugar, invocando o mar. E eu soube, definitivamente, quem sou. Tinha que ser à beira-mar, porque sou oceano sem fim.

Eu chamei o amor, e ele veio. 

‎" Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

SORTE!

Sou uma mulher de sorte.

Mesmo quando tudo dá errado, a vida vira de cabeça para baixo e parece que nunca mais vai voltar ao lugar. Quando estou cansada, cansada, cansada. O dinheiro falta, a compreensão me escapa e é pesado demais dar mais um passo. Só mais um.
Quer saber? Não importa. Porque eu tenho a menininha mais incrível, a filha mais linda. Exatamente como eu desejei e pedi. Que sempre me faz sorrir, que me abraça, e me inunda de felicidade.

É por você, filha, que eu sou a mulher mais sortuda do mundo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

"SE EU QUISER FALAR COM DEUS"

Já contei aqui sobre a liberalidade religiosa da minha casa. Atualmente, sou a única em casa que se declara católica, apesar de não concordar com muitos dos posicionamentos passados e presentes da Igreja. No entanto, Deus é presente em minha vida, e costumo rezar diariamente. Encontro paz em igrejas, especialmente quando vazias.
Passei alguns conceitos religiosos para minha menina, e rezamos juntas todas as noites antes de dormir. Ontem, em um desses momentos, perguntei a ela:

- Filha, você sente Deus presente em sua vida?
- Claro, mãe. Ele fala comigo o tempo todo. Sei que é Ele, porque é só sobre coisas boas e amor.

E ela me ensina, mais uma vez: é preciso saber ouvir para escutar.

"Jesus, porém, chamando-as para si, disse: Deixai vir a mim as crianças, e não as impeçais, porque de tais é o reino de Deus."


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

PARA FICAR LINDO

Ontem ela foi à capoeira com meus primos. Ao chegar em casa, veio feliz me contar:
"Mãe, olhei agora no céu e vi direitinho o trenó do Papai Noel e as renas! O Natal está mesmo chegando".

Ver coisas assim é só para quem é especial, mas ouvi-las também é um presente. Minha menina fala coisas lindas, surpreendentes. Às vezes registro essa sabedoria no tiwtter e no facebook, mas as redes sociais são efêmeras...  Para perpetuar  aquilo que mais me tocou nesse ano, segue uma coletânea do melhor de 2010:

♥ Primeira frase que minha filha escreveu sozinha: "Mãe eu te amo” ... e ela completou "de paixão".
♥ Levando minha filha pra escola, ela vira pra mim e diz: "mãe, a vida é boa, não é?"
♥ "Mãe, já sei o que eu vou fazer quando crescer! Construir uma máquina do tempo pra ir te conhecer quando criança”.
♥ Eu estava ouvindo "Todo amor que houver nessa vida" e ela me disse: "nossa, mãe, mas você não pode querer tudo pra você, todo mundo quer amor!"
♥ Ela começou a me contar as preferências culinárias dela e foi ordenando: primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, sexta e “sábada”.
♥ Dia desses me contou, com cara de nojo, que lhe ofereceram doce de "palmilha"...
♥ Eu para ela: "Você me ama?" Ela: "Amo!" Eu: "E nunca vai me deixar?" Ela: "Ah, isso eu já não sei...”
♥ Minha filha para mim: "mãe, que cheiro lindo!".
♥ "Mãe, sabe por que eu demoro a escovar os dentes? Porque eu converso com a escova.”
♥ Minha filha me perguntou de manhã como seria meu dia. Ao ouvir a resposta, disse: "Nossa, mãe, como você é corrente!"
♥ Essa foi no dia do concurso de Miss Universo. Ela me falou, inconformada: "mas, mãe, você não vai participar?”
♥ "Quando fazemos o bem, Papai do céu nos dá uma recompensa. Mas não é em coisa, como algumas pessoas acham. Ele nos joga amor."
♥ Contei algo, e ela: "mãe, já formei um vidinho do youtube na minha cabeça”.
♥ Após observar atentamente meu ritual de banho, óleo, creme, perfume: "nossa, mãe, pensava que você tinha nascido macia e cheirosa”.
‎♥ "Mãe, por que precisa falar tutu de feijão se não existe tutu de outra coisa? Não dá pra falar só tutu pra economizar falada?”
♥ Minha preferida (e que fez feliz, por instantes, alguém doce que partiu): ela me pediu para pintá-la de verde, arrumar uma latinha e levá-la à Praça para que ela possa imitar um SAPO e ganhar um dinheirinho.

♥ "Para ficar lindo, tem que prestar atenção nos detalhes. Se não, fica só bonito." 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

VOCÊ, HOJE

Você tem seis anos. 
É uma menininha alta, magrinha e atlética. Seus cachos não existem mais, seus cabelos são castanhos, lisos e você está quase sempre despenteada. Você é linda, e diariamente me surpreendo ao olhar para você e saber que tenho participação nisso.
Sua principal característica é o movimento. Você nunca está parada, tampouco quieta. Sua chegada é sempre anunciada pelo som dos seus pulos, da sua fala, do seu riso. Você ri enquanto dorme. Sem você por perto, tudo é quieto demais.
Você não gosta de usar roupas, nem sapatos, nem de se cobrir. Adora o ar livre, água e sente falta do mar, como eu. Aprendeu a nadar sem aulas, trocou o balé pela capoeira e ainda não aprendeu a plantar bananeira. É incrivelmente flexível e gosta de exibir essa habilidade.
Gosta da escola, mas não é a melhor aluna. Destaca-se pela criatividade, pela beleza dos desenhos, pelo capricho e cuidado nos detalhes. Você ainda sente falta da sua escola antiga e dos amigos de lá. Dorme todas as noites com dois brinquedos preferidos que chama pelo nome de pessoas queridas que moram longe, um bebê e um ursinho. Adora suas primas gêmeas, relaciona-se bem com os amigos na escola, mas me encanta sua capacidade de brincar sozinha no mundo imaginário que constrói tão facilmente. Muitas vezes você procura o isolamento e a liberdade da sua imaginação. Você inventa brinquedos incríveis e me deu um bebê feito de beringela. Fez um gato feito de máscara de carnaval, uma fronha e fita crepe, levou para a professora uma boneca de garrafa pet com cabelos de renda. Tudo isso, criou sozinha.
Você é esquecida, desastrada, confiante. Acorda tarde e gosta que eu lhe faça cócegas. Você cuida da nossa gata com responsabilidade, sem esquecer da ração e da água dela, todos os dias. Tem medo de barata e não tem medo do escuro. Você gosta de gente, e nunca me perguntou porque algumas pessoas são diferentes. Você ama sua avó e faz com ela coisas que não fazemos juntas, e eu adoro isso.
Você me pede que leia para você antes de dormir e nós duas adoramos o Neil Gaiman. Depois da leitura, você reza para o Anjo da Guarda e nunca esquece de pedir proteção para as pessoas que são importantes para você. Eu me enterneço ao ouvi-la, todas as noites. Você é uma menininha feliz.
Você é tantas coisas, que é quase tudo.

O mundo é mais interessante com você por perto. Você é o melhor de mim. 


Update: Hoje, 05 de novembro, você aprendeu a plantar bananeira!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

CONTOS DE FADAS


Meus pais foram liberais dos anos 70 e queriam dar a mim e a minha irmã a liberdade de escolhermos nossa religião quando crescêssemos, de forma que não nos batizaram. Isso desencadeou uma "conspiração" familiar, que levou meus avós paternos a nos batizarem "às escondidas" e escolherem eles mesmos nossos padrinhos.


Coube-me como padrinho meu avô. Figura masculina mais importante da minha infância, ele sempre foi tanto que o status de padrinho nada lhe acrescentou. Minha madrinha era quieta, uma dessas tias solteironas e beatas. O único brinquedo que me recordo de ganhar dela foi uma lanterninha verde, que aliás, nunca funcionou. No entanto, ela me deu aulas de catecismo, me ensinou algumas orações e, principalmente, sempre mandava rezar uma missa em minha intenção nos meus aniversários e Natal. Ela faleceu faz alguns anos e desconfio que essas missas e suas orações me fazem muita falta...

Minha irmã teve como padrinhos um casal de parentes, ele irmão da minha avó, creio. O tio faleceu logo, mas a tia era figura encantadora. Naquele tempo, crianças podiam andar na rua sozinhas e sem dizer aonde iam, e desde os meus 8 anos, eu ia muitas vezes à casa dela. Sobradinho pequeno, dois andares de cômodos enfeitados, quarto com sacada.... Parecia uma casinha de bonecas, e eu ficava horas, em paz, brincando com um caixinha de botões e bijuterias.  Essa tia querida era dessas poucas pessoas que encontramos durante a vida na companhia de quem nos sentimos confortáveis no silêncio.

Em uma de minhas última visitas a ela, cheguei como sempre de surpresa, sem avisar. Havia com ela um rapaz bem novo, sobre a mesa um bolo e champagne, e ela, muito feliz, me disse:

- que bom que você veio, será a única convidada do nosso casamento.

Comi o bolo, brinquei, conversamos, me despedi com naturalidade, e ainda hoje fico feliz por saber que minha reação deva tê-la deixado feliz. Claro que quando cheguei na casa dos meus avós com a "novidade" do casamento, fui informada que não deveria mais ir lá por motivos morais que não me recordo, já que não devo ter prestado atenção na hora. Meus pais não endossaram a proibição, e fui ainda à casa dela, agora deles, mais algumas ocasiões, até que ela se mudou de cidade devido à pressão e preconceito. Tive poucas notícias dela, até sua morte, mas soube que foi feliz.

Essa madrinha da minha irmã deu a ela em um aniversário um livro que me pareceu, então, o mais lindo do mundo: A Sereiazinha, de Hans Christian Andersen. Meus contos de fadas preferidos são de Andersen: além desse, A Rainha da Neve e Os Cisnes Selvagens. E ainda uma menção honrosa para A Pequena Vendedora de Fósforos e O Rouxinol.

O conto de Andersen nada tem a  ver com o desenho da Disney, muito bonitinho, mas sem a profundidade do original. Coloquei a história, com alguma adaptação, no post abaixo. Acho que é um tanto triste pelos padrões atuais, e sempre achei que foi-lhe exigido demasiado sacrifício. Mas encantei-me desde sempre com a pequena sereia que sente-se deslocada no mundo que conhece, enfrenta o perigo e a dor em busca do que almeja e ama desejando que o outro seja feliz.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ENQUANTO O TEMPO PASSA



(Estou em uma fase introspectiva, ao mesmo tempo, de muito trabalho. Amadurecendo algumas coisas, cultivando outras. Esperando o tempo da colheita. Para não abandonar o blog, reedito um texto de 2008, um dos que mais gosto, pelo significado que tem para mim).



... doce nome de filha

Eu já disse em outro post que minha infância tem a luz da casa dos meus avós paternos.
Minha menina de cachos tem o mesmo da minha avó materna. Elas nunca se encontraram... Mas eu conto para minha menina histórias da bisavó.
Minha avó era muito doce. Eu era uma criança muito quieta e ela sempre me entendeu. Gostava de ficar em cima da cama no quarto dela enquanto era arrumado e ver a poeira dançando nos raios de sol. Estou nesta cama na minha foto preferida.
Ela me contava sobre sua infância e juventude, histórias que me encantavam. Filha mais nova de uma família bastante tradicional na cidade, suas roupas eram feitas por uma modista copiando figurinos que vinham de Paris (eu ainda tenho uma revista com estes figurinos). A casa dos meus avós era cheia de pequenos tesouros escondidos em armários e gavetas, xícaras chinesas delicadas como asas de borboletas, vidros de perfumes que cheiravam como um jardim inteiro, broches e enfeites vindos de lugares exóticos...
Minha avó era capaz de pequenos gestos cheios de significado. Cada neta tinha uma xícara especial para tomar café com leite e para cada uma ela fazia um bolo especial (meu irmão veio bem depois). Cozinhava divinamente. Também era muito bem humorada, gostava de contar piadas, adorava festas e estava sempre lendo, romances históricos que eu adorava ir comprar com ela no Mercado. Era muito sincera, para desgosto do meu avô, e histórias a respeito desta sinceridade fazem parte das lendas familiares.
Esta minha avó serena, que todos amavam, não teve uma vida fácil, no entanto. Perdeu dois filhos, um ainda criança, de sarampo. E outro, meu tio mais bonito e inteligente, morreu muito jovem em uma tragédia. Imagino que para ela e para meu avô a vida não tinha tantas cores quanto as que eles nos davam.
Ela tocou a vida de muita gente com sua delicadeza. Espero que minha menina seja, como ela, uma verdadeira dama.
(Minha outra avó tem nome de flor, mas é na verdade uma velha e bela árvore. Em sua sombra se abriga uma grande família, unida pela sua presença).



sábado, 7 de agosto de 2010

AONDE QUER QUE EU VÁ, LEVO VOCÊ NO OLHAR

"Há tanta suavidade em nada se dizer, e tudo se entender."
(Fernando Pessoa)

Uma imagem vale mais que mil palavras? Hum, não sei. Como dizia um professor de redação, demonstre essa frase em uma imagem!

Mas sei que há gestos que dizem muito, e vão além. Da distância, do tempo, das palavras. Expressam, em sua delicadeza, o sentimento que se declara, ainda que não se tenha experimentando toda as possibilidades, toda a plenitude do que é desejado, mas não, possível. Ainda.

Já posso novamente registrar os momentos importantes da minha vida. Dessa vez, faltam, a mim, as palavras que pudessem expressar o tanto de alegria e felicidade que experimentei com o presente que recebi. Porém, sei o que senti, o que sinto, o que levo sempre junto a mim. Agora, outros olhos estarão sempre comigo.

Eis a janelinha da minha  menina. E posso mostrar aqui porque ganhei uma máquina fotográfica nova. Obrigada, tanto, sempre!


A vida é agora, mas é também o que se foi, e o que virá.


quinta-feira, 22 de julho de 2010

AS CANÇÕES QUE EU FAÇO

(Recebi um comentario tão bonito em resposta ao meu post "ALENTO" que decidi compartilhar com todos vocês. Obrigada, Roberto, por tão lindas palavras. Você já é um dos meus escritores preferidos!) 


Há quem tenha memórias tão remotas quanto a sua vida intra-uterina, como óvulos ou espermatozóides e, até mesmo, de vidas passadas.

Não sei se admiro ou se tenho medo desse tipo de gente!

Diria que minhas lembranças remotas são bem recentes, daí o meu espanto diante de quem jura ter assistido ao próprio parto ou coisa anterior.

Tenho uma recordação especial de minha infância que me é muito, muito querida e diz muito de mim.

Recordo-me, como se fosse há 15 minutos, que minha mãe me ninava cantando. Chego a ve-la, de bruços, me fazendo carinhos que só mães são capazes e, cantando.

Não sei se era afinada ou não, sei, somente, que o seu timbre me acalmava, aconchegava, me conduzia de volta ao preciso ventre, onde eu estivera protegido de tudo e de todos.

É a recordação mais remota que tenho de minha vida e, confesso, não sei se é uma recordação ou reprodução do que devo ter ouvido ainda criança.

O que importa é que esta cena é real e forte em minha memória. Vejo-me bebê e minha mãe a cantar, entre aconchegos maternos.

A essa altura, imagino a moça grande, de cachos, de mãos postas a indagar: - E daí! o que esse cara quer dizer com essa ladainha?

Antes que a moça crescida, de cachos, recuse o meu comentário, devo esclarecer a razão dessa longa e tediosa introduçào.

Assim como ela, música sempre fez parte de minha vida, e o primeiro episódio de sensibilidade à música se deu com a minha mãe cantando para me ninar.

A verdade é que ela cantava e eu me deliciava até que ela ameaçasse cantar "tristeza não tem fim... felicidade, sim". Bastava isso para que eu me descontrolasse em choro profundo e sentido.

Segundo me lembro ou me contaram, a experiência foi repetida e com os mesmos resultados. Reagia mal a essa música, como reajo até hoje. Não gosto de ouvi-la.

Deus, na distribuição dos talentos, infelizmente, não me deu o de compor, fazer ou tocar música. Reservou para mim o talento de ouvir e de aplaudir quem faz música.

Assim, sempre tive trilha sonora em minha vida. Parece bom, mas não é.

Quem se lembra do álbum de J. Lennon, lançado às vesperas de seu assassinato? Pois é... é um lindo álbum que não consigo mais ouvir, seja pelo que aconteceu a ele, seja pelo fato de ter coincidido com a morte de minha mãe, aquela que me ninava e mimava cantando.

Por outro lado, verdadeiras agressões à arte da música me são caras porque me remetem a situações da puberdade, inesquecíveis.

Podem rir, mas, até hoje, ouvir Loving You (com passarinhos e tudo) me arrepia. Serendipity!

Por outro lado, tristeza ou Pedaço de Mim, na voz de Zizi Possi, me fazem chorar em qualquer momento, situação ou circunstância.

Pedaço de Mim é algo que não ouso arriscar explicar, ou tentar compreender, apenas sinto, e sinto cada verso, cada frase, telvez, pela saudade da metade de mim que jamais conheci.

Por fim, há músicas que tomamos como nossas, que não tem relação com fato algum, apenas tocam o nosso sentir.





terça-feira, 6 de julho de 2010

UNPLUGGED


Arrumando as malas para viajar para as montanhas de Minas com minha filha e minha mãe, separei livro, notebook, internet portátil. Mas na hora de fechar as malas, deixei tudo isso de lado. Eu precisava de um tempo assim, de olhar para dentro de mim e para fora, para a vida real. Dias inteiros de olhos nos olhos e não nas letras, sem refúgios escapistas. E lá fomos nós, logo após a derrota do Brasil para a Holanda.
Foram 3 dias maravilhosos em Gonçalves/MG. Dias de ser mãe e de ser filha. Em uma cidadezinha  de morros e cercada de montanhas, bem como gosto. Mais importante, estivemos rodeadas de novos amigos. Fomos a um casamento único, daqueles de dar lágrimas nos olhos. Ainda mais especial porque a celebrante foi a minha mãe, escolhida pelos noivos, encantadora em suas palavras. E tudo estava lindo, pensado e feito com carinho. Eu há tempos queria conhecer o Kitanda Brasil, um restaurante que tem a alma da sua dona e os sabores da terra cultivada com amor. Eu, como sempre, logo comecei a fotografar tudo, desde os preparativos e... Minha máquina fotográfica pifou. Mistério das Minas Gerais...Muita energia, talvez... Ainda tentei usar o celular, mas não é que a bateria acabou após algumas fotos? Foi mesmo uma viagem para ficar eternizada lá onde ficam as coisas boas, na lembrança, e não escondida na memória do computador.
Minha menina foi um encanto. Ela cada vez me surpreende mais com sua sabedoria. Pensei tolamente que seria uma ótima oportunidade para conversar com ela sobre diferenças, já que havia muita coisa inusitada, pessoas diferentes. Porém, é ela quem sempre me ensina que somos todos iguais. Ela sequer estranhou o cardápio. Ao contrário, enquanto algumas crianças escapavam da festa para comer PF na praça, ela me pediu pra voltar para almoçar o menu degustação no dia seguinte. E lá fomos nós, cometer a quase heresia de comer com pressa o que é feito para ser apreciado devagar... Contudo, inesquecível. O Kitanda já está entre meus lugares preferidos de todo o mundo.

Voltei pra casa para enfrentar uma segunda-feira difícil, fortalecida pela minha pequena gourmet, que não se cansa de me mostrar que a vida é para ser saboreada. Com calma.



Reparou que tudo esse coador individual? Coisas do Kitanda...

domingo, 6 de junho de 2010

MUDANÇAS


(Hoje é um lindo dia de outono azul, e enquanto escrevo, a vejo brincando com um raio de sol. É tanta luz e calor, que desconfio iluminar o mundo inteiro...)

Minha menina agora é a única criança da casa. Pensei que seria uma transição difícil, mas tem sido ótima. É um alento observar que ela não teme mudanças, pois já teve tantas, em tão curto espaço. Sabe aproveitar as vantagens de cada situação.

Minha filha tem um temperamento equilibrado, que lhe permite aproveitar companhia e também, solidão. Fico feliz ao ver que, sozinha, ela não opta pela passividade da TV. Ao contrário, inventa mil brincadeiras e vozes com seus brinquedos ou com objetos da casa. Eu, de mansinho, meio escondida, admiro a construção do seu  mundo.

E tão pequena ainda, sabe ser generosa com seu amor, porque sabe se amar.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

DANDO LAÇOS, DESATANDO NÓS


Nesse final de semana minha avó fez 90 anos. 
Ao longo do nosso tempo juntas, as memórias mais carinhosas são da sua linda voz cantando, das suas histórias antes de dormir e dos famosos bolinhos, que de tão bons são conhecidos como os "bolinhos da Tia Anastácia". E que ninguém, ninguém mesmo, é capaz de fazer igual.
Minha avó foi lindíssima na juventude e continua bonita. Surpreende a todos pela energia, pela fé e principalmente pela capacidade de comer de tudo... Mas sua memória a trai muitas vezes. Os irmãos que ela não encontrava há anos vieram para a comemoração e havia a expectativa se ela os reconheceria ou não... E ela ficou, sim, muito feliz com a presença deles, que ficaram o tempo todo ao lado dela. Parte da família se reencontrou, parte se conheceu naquele momento... E as duas mais novas bisnetas, de 4 meses, se viram pela primeira vez.
Minha avó já não é capaz de morar sozinha, precisa de ajuda para algumas tarefas cotidianas. Todavia, mantém intactas suas preferências, faz suas escolhas e até briga por elas algumas vezes!
Observando a festa, as pessoas e especialmente minha avó, refleti sobre uma questão que tem me rondado: independência x autonomia.

Para mim, a independência tem um caráter objetivo, refere-se à questões de ordem prática, que nos permitam sobreviver sem ajuda. Ter um bom salário, um lugar para morar, poder se locomover sozinha... Tudo isso e ainda mais pode nos fazer independentes. Buscar a independência é uma das condições para alcançar a liberdade.
Mas sobreviver só, não basta... O importante é VIVER. Por isso, para mim a autonomia é mais importante que a independência. Autônomo é quem cria suas próprias regras - e que tem a liberdade de recriá-las, se for o caso. Autonomia está ligada à questões subjetivas como liberdade de escolha, definição de objetivos e metas, enfim, de assumir o leme da própria vida. Em diversos momentos, pode ser que sejamos dependentes de ajuda externa, assim como as crianças, os idosos, os deficientes. Ou mesmo quando um revés nos atinge. Mas quem é autônomo tem a capacidade de escolher seus caminhos, de se reinventar. Pode escolher até mesmo não agir.
Lutar pela independência pode implicar em confronto, ao passo que a autonomia é sempre uma atitude positiva. Autonomia é liberdade. Mesmo em uma prisão, ainda se pode fazer escolhas, evoluir. Importante dizer que quem é autônomo pode não ter independência em alguns aspectos, mas não é nunca dependente, ao não se deixar prender por expectativas alheias, por convenções, por medos.
A busca excessiva pela independência pode acabar em solidão, na medida em que se acredita prescindir de outros. Enquanto ser autônomo é ser livre para escolher as companhias, sem ter medo das relações que se estabelece. É ter confiança em si e no próximo.
Quem quer ser independente a ponto de apartar-se também das relações pessoais, na verdade está abrindo mão da sua autonomia. Está deixando de decidir, de experimentar, de ousar. Está dando nós, e não criando laços. Torna-se, apenas, um sobrevivente.
Enfim, quem é independente tem controle dos aspectos práticos da própria vida, enquanto quem é autônomo tem poder sobre si mesmo. 
É isso que quero para minha filha: que ela busque - e encontre - sua independência, mas principalmente, que tenha autonomia. 
Que faça laços e não ate nós.

"Happines (is) only real when shared"

Esse texto foi uma das causas dessa minha reflexão:
Aline tem todo o tempo do mundo

Recomendo muito esse filme, baseado em uma história real:
Na Natureza Selvagem (Into the Wild)

Texto do blog "O que der e vier" que também fala sobre conceitos semelhantes e distintos (esse blog é otimo):
Sobre modéstia e humildade



quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

TRÊS


Outro dia, conversando com um amigo, estava fazendo listas de coisas que gosto - sempre em três: 3 palavras favoritas, 3 cheiros, 3 lugares... Ele me perguntou: por que tudo de três? Ainda não havia reparado, mas acho que três é meu número da sorte. Especialmente, o dia 3.

Minha filha nasceu num dia 3.
Foi num dia 3 que conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida.
Curiosa, revirei antigas agendas e achei outros acontecimentos felizes nesse dia.
E hoje, dia 3, recebi uma notícia muito boa, que decidi que vai ser o começo de um novo ciclo, muito mais feliz em minha vida.

Então é isso: depois da boa notícia de hoje, o três está oficialmente nomeado o meu número da sorte!

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

(Ah, hoje, dia 03 de dezembro, é também o aniversário de uma menina linda, que conheço pouco, mas que mora no meu coração. E aniversário também de uma nova amiga, que sabe rir da vida. O que comprova que o dia 3 é mesmo especial).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

BRISA


Quando eu era pequena, o Dia da Criança não era uma data muito especial. Na verdade, para mim esse sempre foi o dia de Nossa Senhora Aparecida. Lembro-me mais da alegria que era viajar para o interior, ver meus avós e primos, do que de esperar por presentes. Era um dia de estar juntos, agradecer à Mãe.

Ao meio-dia, sempre o som dos fogos de artifício. Houve uma ocasião, já adulta, em que eu estava em um Parque Temático muito bonito. No Parque havia "o maior presépio animado do mundo", uma obra-prima feita por artesões, com bonecos articulados em tamanho natural, representando três cenas: a Anunciação, o cotidiano de uma cidade ou vila na época, e o Nascimento. Tudo ao som da Ave Maria. Nessa data, houve uma apresentação especial do Presépio ao meio-dia e foi um momento muito especial, uma epifania.

O Dia da Criança também passou a ser para mim o dia de comemorar o aniversário daquela que me ensinou o amor de mãe: minha sobrinha linda, que agora já é uma moça. Quando ela era criança, eu achava que não seria capaz de amar um filho tanto quanto a amava. Depois descobri que o amor se alimenta de si mesmo e é sempre maior quanto mais se ama. Ela foi a primeira criança da nova geração da família, e por trazer a todos nós tanta beleza e alegria, foi ela o nosso presente. Agora, é uma adolescente linda e (quase sempre) serena, e fico feliz de ver minha menina junto a ela. Minha sobrinha é muito distraída, fluida, e se intitula "Brisa". E assim ela é, vivendo com suavidade, tocando delicadamente a vida de quem tem a sorte de conhecê-la. E eu agora tenho também o desejo de aprender a passar pela vida assim, numa distração das coisas, para ver se a sorte me alcança num repente.

domingo, 11 de outubro de 2009

LITTLE BEAUTY


Ela chegou até mim e pediu:

- Mãe, escreve pra mim aquelas coisas importantes? E o nosso lema?

Então, copiou tudo caprichosamente (esqueceu algumas letras no processo) e me entregou:

- Eu fico com o seu papel e você fica com o meu. E assim eu vou ser sempre uma filha belezinha, e você uma mãe belezinha.

Filha, você é mais que belezinha. Você é a beleza em sua forma mais pura. Quisera eu ser capaz de apenas lapidá-la, porque você já nasceu pronta.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PARATY

E então, nós fomos.
Eu, ela e meu pai.
Levei minha menina para conhecer a cidade que mais me encanta. Paraty. Gosto tanto, que tenho ciúmes do sucesso ("hype" - detesto essa palavra) que a cidade anda fazendo....Escolhi um final de semana espremido entre um Festival e um feriado, mas ainda assim, a cidade estava cheia e em obras, Mas linda como sempre.
Minha lembrança mais antiga de infância é de Paraty. Lembro-me que dormia e que a água invadiu a barraca onde estávamos. Alguém me acordou, me pegou no colo. Havia a luz da lua e de risos. Contaram-me que quando isso aconteceu, eu tinha apenas um ano de idade.
Paraty me encanta porque é bela nos detalhes. É tanta beleza por todos os lados, que arrebata. Conversei muito com minha menina, aproveitando-me das belas metáforas que a cidade oferece. Falei a ela do Caminho do Ouro, expliquei o que é uma baía (a mais bela baía do mundo!), contei sobre Amyr Klink, falei sobre âncoras e velas... Até o calçamento pé-de-moleque da cidade foi um ensinamento, porque a melhor forma de caminhar sobre ele, é pelo meio - fugir dos extremos. Além do quê, ele nos obriga a caminhar com calma, e quem anda devagar, vê a beleza do caminho.
Gostei muito de reencontrar uma querida amiga, que reconstruiu a vida com muito sucesso em Paraty. Mulher guerreira, decidida. As amizades verdadeiras não se alteram com o tempo, e conversamos acompanhadas por um bom vinho enquanto minha menina se deliciava com o melhor sorvete do mundo. E antes de dormir, ela me olhou com os olhos brilhantes e falou: "este é o dia mais feliz da minha vida!".
Já havíamos estado em Paraty, eu e minha filha, mas ela não se lembrava. Essa reapresentação das duas - a cidade e a menina - e ainda junto com meu pai, foi também, para mim, um marco. O início de uma nova etapa. Permanecerão agora no passado, como lembranças, coisas findas que eu estava trazendo comigo. Aquilo que foi bonito, ficará, como Paraty, como um lugar a ser ser visitado. Talvez eu more lá um dia. Mas hoje, devo retornar e arrumar a minha casa.
Eu amo o mar. Essa ligação com o mar, minha menininha também tem. Saímos para passear de barco e quando olhei, ela estava com os braços e boca abertos para o vento. Disse-me:
- "mãe, estou comendo esse gosto de mar!"

É assim que quero ir de encontro à vida. De braços abertos, com todos os sentidos despertos, pronta para devorar a felicidade.


Para saber mais:

http://www.paraty.com.br/

http://viajeaqui.abril.com.br/indices/edicoes/conteudo_239811.shtml

http://www.viajenaviagem.com/2007/06/paraty-por-christopher-hitchens

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

BEING BORING

Setembro não foi um mês fácil. A inspiração para novos textos está muito melancólica. Todavia, eu acredito no lema que ensinei à minha menina de cachos: viver é muito bom!
Encerro, portanto o mês de setembro com uma música. Não é, talvez, uma obra que será eterna e sei que o pop não tem a beleza da música clássica, do jazz, da bossa nova e de tantas canções que ouço e ainda irei ouvir e compartilhar com minha pequena. Mas essa é uma das músicas que eu mais gosto, e minhas predileções por música, livros, filmes, transcendem a qualidade e acabam sendo muito pessoais. Nesse caso, ela é especial porque, primeiro, foi inspirada em uma frase dita por Zelda Fitzgerald, esposa do escritor que eu mais gosto, F. S. Fitzgerald. Outra coisa que acho importante a respeito dessa canção é que a dupla é gay. E se tem algo que quero ensinar à minha filha, é a tolerância e o respeito às diferenças individuais.
A letra da música fala da passagem do tempo, de perdas, mas também de conquistas. E fala especialmente de amizade, que é um tipo superior de amor.
Aos meus amigos, portanto!




(recomendo que procurem e assistam ao video original, que foi dirigido pelo fotográfo Bruce Weber e é belíssimo.)

Para saber mais: http://www.10yearsofbeingboring.com/

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