Quando comecei a escrever o blog, ela era uma menininha só com dentes de leite.
Hoje eu a levei à médica, porque apareceu um carocinho e dores no peito. Não era nada. Ou é tudo. Ela cresceu, simples assim.
Telarca, me disse a doutora. Minha menina segue saudável e firme no caminho de crescer e ser a mulher forte e independente que eu desejo que ela seja. Segue no caminho de ser o que ELA vai querer ser.
E enquanto eu, em segredo, já sinto saudades da criança que está ainda à minha frente, ela se olha no espelho, linda, ansiosa, confiante.
- Mas filha, por que você está tão feliz?
- Mãe, agora eu tenho certeza que vou ser igual à você!
E eu choro.
"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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terça-feira, 9 de abril de 2013
SEMENTE
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terça-feira, 15 de maio de 2012
AO QUE VIRÁ
Sim, bem sei que deveria escrever palavras minhas.
Mas não, agora o que quero é registrar meu desejo de que você, filha, acredite sempre. E, acreditando, seja capaz de construir, para si e para outros, um mundo melhor.
Você pode. Você deve. Ser feliz, e contribuir para a felicidade de todos.
Mas não, agora o que quero é registrar meu desejo de que você, filha, acredite sempre. E, acreditando, seja capaz de construir, para si e para outros, um mundo melhor.
Você pode. Você deve. Ser feliz, e contribuir para a felicidade de todos.
Fernando Birri explica utopia:
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."
Eduardo Galeano, "O direito ao delírio".
"Mesmo que
não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o
que queremos que seja.
As Nações
Unidas tem proclamado extensas listas de Direitos Humanos, mas a imensa maioria
da humanidade não tem mais que os direitos de: ver, ouvir, calar.
Que tal
começarmos a exercer o jamais proclamado direito de sonhar?
Que tal
se delirarmos por um momentinho?
Ao fim do
milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo
possível.
O ar vai
estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões
humanas.
As
pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo
computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela
televisão.
A
televisão deixará de ser o membro mais importante da família.
As
pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.
Se
incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem
por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem
saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum
país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim
os que queiram cumprir.
Os
economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão
qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os
cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os
historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.
O mundo
já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a
indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.
A comida
não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a
comunicação são direitos humanos.
Ninguém
morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.
As
crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá
crianças de rua.
As
crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá
crianças ricas.
A
educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a
maldição de quem não possa comprá-la.
A justiça
e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a
juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.
Na
Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque
elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.
A
perfeição seguirá sendo o privilégio tedioso dos deuses, mas neste mundo, neste
mundo avacalhado e maldito, cada noite será vivida como se fosse a última e
cada dia como se fosse o primeiro."
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domingo, 4 de dezembro de 2011
TEMPO DE DELICADEZAS
Estamos sendo cuidadas.
O conforto chega em telefonemas para o hospital, de madrugada. Em ajuda para a apresentação de ginástica. Em assumir problemas deixados por outro, e ocupar espaços importantes no coração de uma criança. Cuidado chega em chocolates, bonecas, e no gesto de cobrir quem adormeceu de cansaço. O cuidado se faz presente na distância e também se descortina lado a lado, no abraço. No olhar. Carinho que me encanta.
E porque um tanto do fardo me é tirado, aumenta o espaço para que eu também cuide. Há mais espaço em mim para o melhor e mais belo. Também posso guardar melhor minha menina, pois estou mais tranquila e serena.
O cuidado diz "eu amo você" sem palavras. Com carinho, com atenção, com discrição. Porque que ama cuida, inclusive, contra a inveja alheia.
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segunda-feira, 19 de setembro de 2011
DICOTOMIA
Além da tristeza, tragédias me dão o sentimento de urgência.
E se não couber tanto amor? E se não houver tempo para tanta vida?
Nesse momento, calma e paciência se fazem necessárias. É a pausa. Mas então vem esse susto, que traz consigo a vontade insatisfeita de abraços e pertencimentos. Estreito minha menina nos braços, e meu coração se alarga de esperas.
O mar que existe dentro de mim se derrama.
(Enquanto isso, o céu se alegra ao receber Gabriela entre seus anjos mais belos.)
http://www.youtube.com/watch?v=XU6UdVI9B7I
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sexta-feira, 17 de junho de 2011
SORTE!
Sou uma mulher de sorte.
É por você, filha, que eu sou a mulher mais sortuda do mundo.
Mesmo quando tudo dá errado, a vida vira de cabeça para baixo e parece que nunca mais vai voltar ao lugar. Quando estou cansada, cansada, cansada. O dinheiro falta, a compreensão me escapa e é pesado demais dar mais um passo. Só mais um.
Quer saber? Não importa. Porque eu tenho a menininha mais incrível, a filha mais linda. Exatamente como eu desejei e pedi. Que sempre me faz sorrir, que me abraça, e me inunda de felicidade.
É por você, filha, que eu sou a mulher mais sortuda do mundo.
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sexta-feira, 13 de maio de 2011
O QUE NÃO SE VÊ
Estimulo minha menina a ser destemida, confiante e independente. O que significa cuidar para que ela não seja exposta precocemente à determinadas situações. Controlo e censuro (mesmo) programas de TV, jogos de computador, roupas e até conversas. Acredito que um adulto pleno é conseqüência de uma infância vivida intensamente. Muitas brincadeiras, muita fantasia, muita imaginação e criatividade, evitando rótulos, preconceitos, sexualização precoce e medos.
Ontem ela cansou-se cedo, bem antes do horário em que costuma dormir normalmente. Foi deitar-se sozinha, no outro extremo da casa. Como temos enfrentado um surto de dengue na cidade, após apagar a luz eu a avisei que iria fechar a porta do quarto. Ela disse:
- Pode fechar, mãe. O escuro é igual ao claro. A diferença é que a gente não vê.
Por insistência de minha mãe, que dizia "coitada da criança trancada lá no escuro", cinco minutos depois voltei ao quarto: ela dormia em paz.
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terça-feira, 26 de abril de 2011
DESTINOS
A princípio, busquei coisas grandiosas. Depois, amadureci e vi que era nas coisas simples que encontrava a felicidade que buscava. Por fim, não tive nem umas, nem outras. Reconheço, claro, que meu caminho foi conseqüência das minhas escolhas e erros, e muito eu faria diferente, se pudesse voltar atrás.
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quinta-feira, 31 de março de 2011
A DANÇA
"Este é o dia mais feliz da minha vida!"
Já ouvi isso muitos vezes. Acompanhada por gargalhadas, pulos e palmas, essas declarações me mostram que minha menina é feliz.
Estávamos estudando quando começou a chover. Dessa vez, era uma tempestade. Raios, trovões e recorde de chuva. O barulho das pedrinhas me alertou, e eu a chamei para ver a novidade. Na varanda, nem precisamos chegar até o portão, o gelo empurrado pelo vento caía aos montes perto de nós. Ela recolheu um, outro, encantada com a primeira vez em que pegou granizo com as mãos. Entrei por uns minutos, e logo ouvi sons diferentes: era ela, que atraída pelas águas, pulava nas poças. Olhou-me entre desafiadora e tímida. Não pude resistir, e a incentivei a continuar.
E ela, dançando, estendeu sua infância até me encontrar.
Este é o dia mais feliz da minha vida.
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sexta-feira, 18 de março de 2011
INTIMIDADE
O silêncio confortável é o maior grau de intimidade que se pode ter com alguém. Quando se chega a esse ponto, de se entender sem palavras, de permitir ao outro ser dono dos seus pensamentos, se alcançou o amor tranquilo.
Um blog também pode ser feito de silêncios, acho. Já estamos juntos há algum tempo, e já sabem que eu me calo, mas volto. Está tudo bem à minha volta. Saúde, emprego, vida que segue. Mas dentro de mim é o oceano, sempre. Que às vezes se derrama, outras se recolhe.
Não estou longe, estou aqui. Estou aqui, mas estou longe.
Lado a lado, em silêncio, prosseguimos nossa conversa.
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011
PALIMPSESTO
Eu amo o cheiro das noites de verão. Cheiro da terra que libera o calor guardado durante o dia: de maneira preguiçosa enquanto a noite cai, ou violentamente sob a chuva. O verão é a minha estação, é a que constrói minhas memórias afetivas. Basta o perfume da dama-da-noite para eu voltar à infância, onde cheiros, luzes e sons se misturam e sempre é o eterno pôr do sol de férias na praia ao mesmo tempo em que espio a tempestade da janela mais alta junto com minha mãe.
Minha menina vai fazer sete anos e espero que essas sejam as férias sobre as quais suas memórias serão construídas. Tivemos férias incríveis, nós duas junto a amigos queridos e generosos. Férias de ir à praia todos os dias, aprendendo com o mar que é sempre o mesmo e nunca igual. Férias de sol e águas transparentes, de caldos e capotes, de nadar sem roupa na chuva. Férias de pular no colchão, de dormir de cansaço, de Morango, de velhos sabores. Férias de aprender a fazer castelos de areia e descobrir que eles não duram, mas há sempre material para uma nova construção. Férias de passar a noite toda acordada conversando com quem já não está. Férias de café da manhã na cama, comida maravilhosa feita pelos amigos e do cachorro-quente mais caro do mundo! Férias de conhecer e reencontrar o Rio de Janeiro e criar novo significado para praia do Leblon.
E voltar para casa... Voltar e tentar fazer um ano verdadeiramente novo. Mudar a rota. Hoje, deitada na piscina com minha filha, o verão à nossa volta, olhando ora as nuvens, ora as estrelas, achei um novo norte.
"Mãe, as estrelas, mesmo quando se escondem, estão sempre ali para brilhar."
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010
FOCO
O Marcelo Pereira de Carvalho, meu amigo talentoso, esteve viajando pela Nova Zelândia e tirou fotos incríveis. Entre tantas, uma me chamou a atenção pela escolha técnica que ele fez. Uma paisagem maravilhosa, lago azul, montanhas, picos nevados... E ele decidiu-se por destacar singelas flores amarelas. Escolheu o primeiro plano.
![]() |
| Lake Hawea, Nova Zelândia, por Marcelo Pereira de Carvalho |
No meio de tantas imagens lindas, essa voltou à minha mente várias vezes. Bela metáfora da vida. Escolhas. Foco. Podemos decidir fixar nosso olhar no horizonte distante, visualizar o futuro que não chegou. Ou podemos prestar atenção na beleza por vezes oculta do momento presente.
Tenho entendido que quem se entrega a devaneios não vive, que se deixar levar é uma forma de escolha, passiva, que nos rouba a autonomia. A espera do por vir não pode se estender indefinidamente. Os desejos convergentes se ajustam, é no ponto de fuga que aprofundamos a verdade.
Paradoxal que pareça, é o olhar para o agora, o cuidado na escolha de hoje, que vão nos aproximar do horizonte. As flores perecem, mas as montanhas continuarão ali, a espera de serem conquistadas.
Sim, há essa dor, esse aperto no peito. O espanto dos olhos que não mais reconhecem o mundo. Há o vazio, o cansaço. A espera. À espera. Mas há, também, a recusa. Destino de outsider, não se conformar. Senhora dos meus labirintos, recuo e avanço, capaz, ainda, de me surpreender... E sigo a passos tortos, sem nada mais buscar, confiando ser encontrada.
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domingo, 14 de novembro de 2010
POEIRA DE ESTRELAS
Quando criança, eu acreditava que os grãos de poeira iluminados pelo sol eram fadas...
Meu primeiro contato com Peter Pan foi através da leitura. Li e reli a adaptação de Monteiro Lobato para a obra de J. M. Barrie, sempre me perguntando por que não havia garotas entre os meninos perdidos...
Criança que era, identificava-me com Wendy, mas era fascinada pela Fada Sininho e sua personalidade cheia de extremos. Sininho fugia ao estereótipo da fada boazinha e, na verdade, era a mais humana das personagens.
Para as crianças de agora, a Sininho chama-se Tinker Bell, como nos EUA. Ela fala, tem suas próprias aventuras, e se parece mais com uma adolescente atrapalhada do que com a fada sedutora, inteligente e ciumenta original. Minha menina adora a Tinker Bell, tem fantasia, bonecas, livros, filmes... Peter Pan tornou-se secundário, e minha filha esqueceu-se que a primeira vez que assistiu ao desenho da Disney, queria mesmo era ser a Tigrinha (Tiger Lily), a corajosa indiazinha que recusa-se a trair Peter.
Para as crianças de agora, a Sininho chama-se Tinker Bell, como nos EUA. Ela fala, tem suas próprias aventuras, e se parece mais com uma adolescente atrapalhada do que com a fada sedutora, inteligente e ciumenta original. Minha menina adora a Tinker Bell, tem fantasia, bonecas, livros, filmes... Peter Pan tornou-se secundário, e minha filha esqueceu-se que a primeira vez que assistiu ao desenho da Disney, queria mesmo era ser a Tigrinha (Tiger Lily), a corajosa indiazinha que recusa-se a trair Peter.
Fadas são frágeis, e uma morre a cada vez que alguém diz que não acredita nelas. Mas quando Sininho bebe veneno no lugar de Peter Pan, há um jeito de salvá-la: bater palmas e dizer que acredita em fadas!
Nesses dias em que tudo está difícil , a dor é tanta e a esperança, pouca, é essa minha vontade. Não sucumbir, bater palmas e acreditar! É possível, ainda. Entre dores e quedas, achar o riso através das lágrimas. Inventar o caminho possível, quando devaneios e mentiras se confundem.
Eu acredito! Eu acredito!
(Batam palmas por mim.)
Tinkerbell: You know that place between sleep and awake, the place where you can still remember dreaming? That's where I'll always love you, Peter Pan. That's where I'll be waiting.
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sábado, 7 de agosto de 2010
AONDE QUER QUE EU VÁ, LEVO VOCÊ NO OLHAR
"Há tanta suavidade em nada se dizer, e tudo se entender."
(Fernando Pessoa)
Uma imagem vale mais que mil palavras? Hum, não sei. Como dizia um professor de redação, demonstre essa frase em uma imagem!
Mas sei que há gestos que dizem muito, e vão além. Da distância, do tempo, das palavras. Expressam, em sua delicadeza, o sentimento que se declara, ainda que não se tenha experimentando toda as possibilidades, toda a plenitude do que é desejado, mas não, possível. Ainda.
Já posso novamente registrar os momentos importantes da minha vida. Dessa vez, faltam, a mim, as palavras que pudessem expressar o tanto de alegria e felicidade que experimentei com o presente que recebi. Porém, sei o que senti, o que sinto, o que levo sempre junto a mim. Agora, outros olhos estarão sempre comigo.
Eis a janelinha da minha menina. E posso mostrar aqui porque ganhei uma máquina fotográfica nova. Obrigada, tanto, sempre!
A vida é agora, mas é também o que se foi, e o que virá.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
FINS
Tudo acaba, tudo passa.
Minha menina a cada dia se transforma. Agora vai perder o primeiro dente. Um novo marco, outra fase que fica para trás. Não é mais o bebê carequinha, nem a criancinha de cachos. É uma menininha de cabelos lisos e castanhos, que sabe ler, sabe escrever, dorme fora de casa, joga capoeira e, desconfio, descende dos peixes e não, do macaco. Ela mesma não se lembra de quase nada do que se foi. Vê fotos e vídeos de tão pouco tempo atrás e se espanta: "Essa sou eu? Eu estava lá? Eu já fiz isso?". Desembrulha seus dias sempre como um presente maravilhoso. Acorda acreditando em novidades.
Eu também já não sou mais o que fui. Não me reconheço. Mas aqui onde termino, é onde inicio. Tateando, caindo, aprendendo, percebo que o novo não vem sem mudança, sem espaço para chegar. Aquilo que se foi permanece em nós, às vezes como um marco na estrada que não queremos voltar a percorrer, outras como o farol que nos dá a esperança de prosseguir. É preciso esquecer um pouco do que fui para seguir sendo eu mesma, palimpsesto de emoções que se ocultam, mas não se esgotam.
Tudo se acaba, tudo passa. Mas no fim está o começo.
The Circle of Life
(Tim Rice/Elton Jonh)
From the day we arrive on the planet
And blinking, step into the sun
There's more to be seen than can ever be seen
More to do than can ever be done
Some say eat or be eaten
Some say live and let live
But all are agreed as they join the stampede
You should never take more than you give
In the Circle of Life
It's the wheel of fortune
It's the leap of faith
It's the band of hope
Till we find our place
On the path unwinding
In the Circle, the Circle of Life
Some of us fall by the wayside
And some of us soar to the stars
And some of us sail through our troubles
And some have to live with the scars
There's far too much to take in here
More to find than can ever be found
But the sun rolling high
Through the sapphire sky
Keeps the great and small on the endless round
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
A DONA DO LABIRINTO
![]() |
| Maze - James Jean |
Em uma de nossas conversas que atravessam a madrugada, um querido me sugeriu escrever sobre Ariadne. "Recolha seu novelo, e saia desse labirinto."
É bela a história de Ariadne. Ela amou Teseu à primeira vista, ao vê-lo no palácio do pai, voluntário para enfrentar a morte que parecia certa no labirinto do Minotauro. Bonita, decidida e inteligente, propôs a Teseu uma troca: ela o ensinaria a sair do labirinto, ele a levaria para Atenas para casarem-se. Ele aceitou e recebeu dela uma espada para matar o Minotauro, e um fio para encontrar o caminho de volta do labirinto. Segurando uma das pontas, ela o esperava na saída, quando ele retornou, vitorioso.
Mas Teseu não a amava, e a deixou, adormecida, em uma ilha no caminho de volta para Atenas. Abandonada, só, Ariadne se desespera ao acordar. Tocada por sua tristeza, Afrodite promete a ela um amor imortal. Esse amor materializa-se em Dionísio, que estava na mesma ilha e apaixona-se por Ariadne. Deus do prazer, do vinho, das festas, eles se amam enquanto dura sua vida mortal, numa celebração do amor e da alegria de viver. Após sua morte, o deus transforma a coroa que dera a Ariadne no casamento em uma linda constelação.
Há muitas e belas interpretações sobre esse mito, e meu querido gostaria que eu me lembrasse que é possível refazer nossas escolhas e aceitar os presentes que a vida nos dá. O que é verdade. Mas eu vou além. O que me chama a atenção na história é a presunção inicial de Ariadne, ao acreditar que poderia se fazer correspondida em seu amor por Teseu. Bonita, inteligente, amável, apaixonada, por que estaria ela errada? Porque o amor, como disse o poeta, é dado de graça. Não se troca. Amor é incondicional. Por isso, não condeno Teseu. Talvez ele próprio tenha querido amá-la... E foi ele, afinal, o fio que a conduziu ao amor de Dionísio.
Somos todos, ao final das contas, condutores e conduzidos, perdidos em algum momento em nossos labirintos, esperando pelo amor que nos guie e nos resgate para a celebração da vida.
As sem-razões do amor
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
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a cada instante de amor.
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quinta-feira, 1 de julho de 2010
ISSO NUNCA ME ACONTECEU ANTES
Isso nunca me aconteceu antes!
São essas experiências únicas, que fazem meu coração bater mais forte, as que costumam me acompanhar por mais tempo. Aquilo que parece diferente de tudo o mais, o que chega com a força do inevitável e a surpresa contraditória do predestinado. Costumo apegar-me a esses sentimentos como coisas extraordinárias, raras. Descarto-me do banal e agarro-me às minhas pequenas epifanias.
Mas... será mesmo assim? Observo minha filha encantar-se com cada instante. Toda experiência, mesmo repetida, é nova para ela. O trajeto para a escola, as brincadeiras, seus filmes preferidos. Outra vez e outra vez, o cotidiano a encanta. Não precisa buscar novidades, é o seu olhar que traz o mundo sempre renovado, a cada dia.
Então, me dou conta. Cada instante é único. Posso me descartar desse apego ao passado que me parece tão encantador, porém, está já distante. Posso encantar-me com o que já conheço, com o que está à minha frente. Há que se saber olhar. Isso nunca me aconteceu antes...
Minha menina me ensina outra lição. E quase sem perceber, dobro a esquina.
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quinta-feira, 24 de junho de 2010
ANIVERSÁRIO DE DOIS ANOS DO BLOG
Hoje esse blog está fazendo dois anos. A primeira constatação que faço é que passaram rápido. A segunda, que coube muita coisa nesse tempo.
Esse blog é cria do Blog Nós Duas, da jornalista Priscila Sérvulo, que não existe mais. Pena! Como, porém, o blog ainda está no ar, recomendo a leitura para quem não o conhece.
Eu passava por um período bastante solitário e complicado, que culminou na minha separação. Como escreveu Jorge Luis Borges, parecia-me que “[...] todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos de séculos e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede, sucede a mim…” Ler o blog da Priscila me fez lembrar que existem problemas muito maiores que os meus. E também me estimulou a escrever como uma forma de ter uma voz própria, porque andava muito calada e solitária naquele período (bom, acho que tendo a ser sempre calada e solitária quanto às minhas dores. Sou do tipo que gosto de compartilhar somente alegrias).
Eu passava por um período bastante solitário e complicado, que culminou na minha separação. Como escreveu Jorge Luis Borges, parecia-me que “[...] todas as coisas nos acontecem precisamente, precisamente agora. Séculos de séculos e apenas no presente ocorrem os fatos; inumeráveis homens no ar, na terra e mar, e tudo o que realmente sucede, sucede a mim…” Ler o blog da Priscila me fez lembrar que existem problemas muito maiores que os meus. E também me estimulou a escrever como uma forma de ter uma voz própria, porque andava muito calada e solitária naquele período (bom, acho que tendo a ser sempre calada e solitária quanto às minhas dores. Sou do tipo que gosto de compartilhar somente alegrias).
Comecei falando para mim mesma e para minha filha do futuro e nunca imaginei que teria leitores, menos ainda que faria amigos por aqui. Esse blog é semi-anônimo e são poucas as pessoas que sabem quem eu sou, o nome da minha menina e as histórias por trás das entrelinhas. Ainda assim, me sinto acolhida. Isso é muito bom!
Algumas vezes me espantam os comentários sobre meus textos, especialmente quando me elogiam pela aparente serenidade... Sou descompensada, passional, impulsiva, chorona... Compenso um pouco disso com auto-conhecimento e resiliência, que me levam através dos caminhos tortuosos da minha vida.
Sabem? Eu queria mesmo era uma vida simples, calma e tranqüila. Não foi possível, ainda... Contudo, me consolo tendo histórias para contar! Histórias e memórias que estou registrando aqui, para a minha menina de cachos, torcendo para que sua própria existência seja mais, melhor e maior.
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quarta-feira, 2 de junho de 2010
ABRAÇAR VOCÊ FOI COMO CHEGAR EM CASA
Home is where your heart is.
No meu caso, é uma pessoa, e não, um lugar.
No meu caso, é uma pessoa, e não, um lugar.
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segunda-feira, 24 de maio de 2010
AMOR
Rezo por minha filha todas as noites. Peço por saúde, felicidade, realização pessoal... E peço, sempre, para que ela tenha a felicidade de ser feliz no amor. Que ao se apaixonar, ela possa encontrar no amor também respeito, companheirismo, sinceridade, verdade.
Minha menina, ainda distante das delicias (e dores) do amor, vai encontrar um mundo em que os relacionamentos andam frágeis. Corre-se sempre o risco de trazer para as relações amorosas a mesma expectativa que temos em relação à tecnologia: querer sempre o mais novo, o mais bonito, o mais atualizado. Buscar não apenas a satisfação pessoal, mas também ter alguém que se possa exibir. E na expectativa da novidade que seja melhor, ainda que se encontre o amor que se julgava buscar, a procura continua.
Mas amor não é jogo, não é medir forças, não é criar estratégias de conquista. Amar é chegar em casa, é reconhecer-se no outro, ao mesmo tempo que se deixa espaço para as diferenças. É um nunca se cansar de descobrir ternuras. Pode-se amar à primeira vista, mas para construir o amor, é preciso tempo e dedicação. É preciso paciência para que as lacunas deixadas pelas dúvidas sejam preenchidas com intimidade. Numa época feita de rapidez, tem sorte aquele que encontra alguém com quem possa conversar com calma, em quem se possa confiar, com quem se possa contar.
No entanto, os caminhos do amor devem sempre ser vias duplas. Levar ao outro e trazê-lo a si. O desequilíbrio dos quereres traz sofrimento. Amar ao outro como a si mesmo, e não mais do que a si mesmo, essa é a medida, o ponto de equilíbrio. Então, se há dor, é esse o fim? Deve ser esse o sinal de alerta para o fim do amor? Porém, é possível que nossa vontade comande nossas vontades?
Se não decidimos quando começamos a amar, podemos decidir quando deixar de amar?
Amor quer ser presença e não, lembrança.
Amor quer ser presença e não, lembrança.
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
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quinta-feira, 20 de maio de 2010
ALMA PEREGRINA
A impermanência é um dos princípios budistas que diz que tudo cessa. A vida é um ciclo constante de transformações. Tenho pensado na passagem do tempo e na impermanência.
A cada dia fico mais sensível a essas tantas mudanças. Observo minha filha crescer e admiro sua caminhada para tornar-se cada vez mais independente. Há alegria e também dor quando a vejo desprender-se de mim sempre um pouco mais, ao encontro do dia em que nossa relação será uma escolha e não uma necessidade. Eu a estimulo nesse caminho, apresento opções, algumas vezes abro mão de sairmos juntas para que ela possa estar com outras pessoas e construir novas relações. No entanto, nosso ritual ao acordar e ao dormir é dizer uma a outra, muitas e muitas vezes: "Minha filhinha". "Minha mãmãe". "Minha filhinha". "Minha mamãe". "Minha filhinha". "Minha mamãe"...
Observo também a passagem do tempo em mim. Como Cecília Meireles, às vezes busco minha face no espelho, sem reconhecê-la. São principalmente meus olhos que estranho, olhos de outrem, olhos de dor. Sinto saudades de mim mesma, nesses momentos. Da menina que acreditava. E penso no que ainda quero, naquilo que me falta. E sei que a resposta está em versos de Yeats:
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.
Eis o meu desejo: alguém que enxergue minha alma peregrina, que não se cansa da busca, porém sabe que o caminho em si já é uma resposta. Alguém que escolha ficar quando chegar o momento de partir.
O que pára o tempo é o amor
(Para saber mais: Mandala e mandalas de areia)
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W. B. Yeats
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