"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

PALAVRAS

Não me lembro de um tempo em que não sabia ler. Palavras me acompanham desde sempre. Um livro que ainda não li é sempre um prazer a ser descoberto. É esse meu vício. Nada de chocolates para mim: livros, sempre livros. Criança ainda, perdia-me nas festas procurando onde estavam os livros, e escondia-me para ler. Ainda me lembro do primeiro livro de "gente grande" que li, aos nove anos (e me encanta até hoje): "Música ao Longe", de Érico Veríssimo. Minha filha quase chamou-se Clarissa.

Esse encanto pelas palavras levou-me, talvez, ao equívoco de atribuir a palavras bonitas iguais sentimentos. Esquecendo-me que na vida, assim como na literatura, é possível inventar o belo. Tenho agora que descobrir a beleza dos gestos e o encanto do silêncio.

"Words are never as precise as touch" (Dana Gioia)


O Alexandre Serpa acertou em cheio ao lembrar-se dessa música no seu comentário:




Enjoy The Silence
Composição: Martin L.Gore

Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very
Unnecessary
They can only do harm
Enjoy the silence...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CARNAVAL

Eu gostava muito de carnaval quando criança, especialmente porque saíamos de São Paulo para a casa dos meus avós. Gostava das fantasias e especialmente do ritual de fantasiar-se, de como minha mãe cuidava de mim e de minha irmã, nos maquiava. Mas no salão do clube eu ficava sempre um tanto tímida, eu gostava de dançar, de brincar, porém não de me exibir.

Minha menina é tão diferente de mim! Este ano ela aproveitou o carnaval como nunca! Minha família reuniu-se em uma chácara na zona rural da cidade, que ela adora. Mas ela pediu para ficar e ir brincar o carnaval. E como ela se divertiu! Fez amigos, dançou, jogou confetes. E me surpreendeu logo no primeiro dia, quando viu a banda tocando e pediu pra subir no palco. Eu, meio descrente, disse:

- Se tiver como, pode ir.

E não é que ela descobriu como subir, e foi? Dançou lá em cima sozinha, depois com várias adolescentes, mas só ela de criança. E nos outros 2 dias de carnaval, fez a mesma coisa, subiu ao palco para pular sozinha com os músicos. Na terça-feira, finalmente, várias outras crianças se animaram e subiram também, e ela ficou toda contente.

Achei tão bonita essa auto-confiança dela. Espero que seja sempre assim, que ela acredite que pode fazer, e mais ainda, que pode se mostrar como é na frente de outras pessoas, porque será aprovada. E olha que, pra ser sincera, ela não leva o menor jeito pro samba...

Esse carnaval dediquei quase exclusivamente a ela, tivemos muitos momentos juntas, muitas conversas só de nós duas. Paradoxalmente é triste não ter com quem dividir esses momentos. É uma delícia observar o quanto ela cresceu, como aprendeu tanto e me ensina mais ainda. Fantasiada, maquiada ou de máscara, ela é sempre a mesma, preserva sua essência e age com verdade e espontaneidade. Esse carnaval me mostrou, através da alegria de minha menina, que as máscaras que devemos temer são as que se ocultam e não, as que se mostram.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

DE PEQUENO PRÍNCIPE A GRANDE HOMEM

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Nunca gostei dessa frase. Ela diz exatamente o contrário do que penso sobre o amor. Amor é liberdade, para si e para a pessoa amada. Cativo é escravo, e não quero aqueles que amo, ou que me amam, presos a mim. Tampouco quero assumir a responsabilidade pela vida alheia, pior ainda, pela eternidade afora... Quanto egoísmo há em amar alguém e entregar a ele a própria vida.

Essa visão de que amar é "pertencer a alguém" é bastante popular, eu sei. Há filmes, livros, poemas, músicas. Eleita "a música da década de 80", a linda melodia de "Every breath you take" do The Police, me causa falta de ar só de imaginar alguém me vigiando a cada vez que eu respiro. A cada vez que eu me movo...O próprio Sting, mais esperto e melhor casado, alguns anos depois cantou: "If you love somebody, set them free" (se você ama alguém, deixe-o livre). Djavan cantou: "vem me fazer feliz porque eu te amo". Para piorar, ainda completa "esqueço que amar é quase uma dor. Só sei viver se for por você." Como assim? Como dizem em inglês, get a life.

Amor - seja por quem for, Deus, pai, mãe, filhos, amigos, amantes, parceiros - é alegria, é doação desinteressada, é compartilhar e principalmente, agregar. Acrescentar descobertas e experiências à vida do outro e à minha. Amor é movimento, seguir em frente, desfrutar o caminho. Cuidar sem vigiar. E não, cativeiro.

Eu amo minha filha, sei que ela me ama. Mas não sou eu a responsável pela felicidade dela, embora seja uma das responsáveis por seu bem-estar, enquanto ela ainda é criança. E a melhor maneira de demonstrar meu amor por ela é ensiná-la a ser livre e a amar a si mesma. Só aquele que encontra a felicidade por si é capaz de dividi-la.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

INTENÇÃO E GESTO

Eu nunca fiz promessas de Ano Novo. Procuro, claro, traçar meus objetivos e determino o melhor caminho para alcançá-los.Todavia, eu acredito na ação e não, na intenção.

Minha vida não é exemplo para ninguém... Sou insegura, hesito bastante antes de uma decisão, paradoxalmente tenho um tanto de auto-indulgente...Contudo, quando quero mudar alguma coisa, mudo já. Nunca na segunda-feira. Nunca no ano que vem.

Quase sempre eu me calo mais do que falo, pois procuro viver sob a máxima de jamais lançar uma promessa em vão. Principalmente nas relações pessoais, persigo essa fidelidade entre palavras e sentimentos. Comprometo-me com aquilo que digo, transfiguro promessas em gestos. Ensino minha menina a ter também esse cuidado. Muitas vezes, ao ser repreendida, ela logo diz:
-Mamãe, eu juro que nunca mais faço isso.
E eu respondo: Só jure aquilo que você sabe que vai cumprir. E lembre-se que palavras não importam, o que importa é o que você faz.
Talvez no fim das contas, eu faça menos do que poderia. Até por excesso de cautela. Mas assumo as conseqüências e procuro agir de forma a que confiar em mim seja possível. Afinal, eu sei o quanto dói descobrir que a distância entre a intenção e o gesto não foi percorrida.

Embora aos tropeços, procuro seguir o princípio moral de Kant que diz:
"Age de tal maneira que trates a humanidade, na tua pessoa ou na de outrem, sempre e simultaneamente como fim e nunca apenas como meio."
Outro conceito que persigo é o da compaixão. Acho que este é um sentimento tão belo quanto o amor. Não confundir com piedade, que pressupõe um olhar de superioridade em relação ao sofrimento alheio. Ter compaixão é compartilhar o sofrimento do outro, sem julgar as razões alheias, sem preconceitos. Esse é meu grande desafio, a meta de crescimento espiritual que ainda não consegui atingir, mas busco. Não somente ver a todos como iguais, mas ser capaz de verdadeiramente colocar-se no lugar do outro. Como disse Buda: " Vosso sofrimento é o meu sofrimento, vossa felicidade é a minha felicidade".
É essa, então, minha mensagem de final de ano. O mantra da compaixão:

OM MANE PADME HUM

O Ano Novo não muda nada. Quem muda somos nós.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DE EVA A GEISY

A culpa é sempre das mulheres. Como cantou Rita Hayworth em 1946 no filme Gilda, "put the blame on mame".
Mas estamos em 2009, e a moça do vestido curto foi expulsa da universidade. Em nome da "ética", "dignidade" e ""moralidade". Geisy, com seu vestido rosa, ao mesmo tempo Eva e a maçã dos tempos modernos, expulsa para proteger os outros alunos da sua sexualidade provocadora.

Segundo anúncio publicado em jornais, a direção da universidade alega que "a atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar." O mesmo argumento que estupradores, assassinos em nome da honra, apedrejadores e outros criminosos e tiranos usam há séculos para justificar atrocidades contra mulheres: "Ela provocou".
Ao alegar que o problema foi a atitude da moça, mais que sua roupa, os responsáveis pela universidade parecem se esquecer que os outros alunos, adultos, sãos, poderiam aceitar ou recusar o "oferecimento" da moça, não precisando de proteção contra a sexualidade alheia. Protegida deveria ter sido a moça contra os insultos e agressões que sofreu. De homens e mulheres, também incomodadas - ameaçadas?

Quando escolhemos uma roupa para vestir, passamos uma mensagem. Devemos, portanto, ter o cuidado de transmitir aquilo que desejamos, seja ao usar minissaia ou burca. No caso da Geyse, a atitude e as roupas estavam em sintonia. Uma moça que se acha bonita, segura do seu poder de atração, que se veste dessa forma. Eu acho que ela está certa. Quem se sente ameaçado por ela deve procurar em si as causas desse desconforto. Talvez não tenha a mesma segurança que ela em relação ao seu próprio corpo. Ou, como se viu, não saiba controlar seus impulsos.

Espero que esse não seja o fim desse caso e que os agressores e a universidade sejam punidos por tanto sexismo e preconceito. Mais ainda, espero que ao crescer minha menina não seja prisoneira do seu corpo e refém da vontade alheia.

(Quando eu tinha uns 16, 17 anos, tive um vestido bem parecido com o da Geysi. Vermelho. Fazia o maior sucesso!)

UPDATE: O Reitor da UNIBAN informou que revogou a decisão do conselho que expulsou Geisy e dará "melhor encaminhamento à decisão."

Excelente texto:


Are you decent? trecho do filme Gilda

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

PELO DIREITO DE SER DIFERENTE

Hoje eu estou indignada. Muito.

Eu ensino minha menina que devemos fazer aos outros aquilo que queremos que nos façam. Eu mesma tento a cada dia respeitar as escolhas e o espaço alheios. Sonho com um mundo mais tolerante.
E ontem uma notícia me tirou o fôlego. Uma aluna da UNIBAN foi ofendida e segundo consta, ameaçada de estupro, porque foi à faculdade vestida de minissaia e se portou de forma "provocativa". Os vídeos foram retirados da internet, mas logo outros são postados. Mostram a moça saindo escoltada pela polícia enquanto outros alunos observam, riem, tiram fotos no corredor lotado. Ninguem parece manifestar qualquer solidariedade. Aliás, nos diversos veiculos de mídia que divulgaram a notícia, chovem comentários preconceituosos, muitos dizendo que "ela provocou e mereceu".

Existem países em que as mulheres devem andar cobertas. Em outros, meninas são mutililadas para não sentirem prazer sexual. Até mesmo nos países escandinavos, que atingiram os mais altos índices de participação feminina no mercado de trabalho e na política, aumentam os casos de violência doméstica. E no mundo ocidental, a mulher se vê cada vez mais presa na armadilha da eterna juventude e beleza a todo custo. É uma coisificação da imagem feminina que me preocupa pela sua escalada crescente. E assisto com tristeza a cumplicidade feminina em aceitar esse papel tão pequeno e árido. Meninas que se vestem como mulheres, mulheres que se vestem como meninas. No entanto, embora eu ache que os caminhos do despertar do desejo são tanto mais interessantes quando mais privados e individualizados, acho que todos tem o direito de se vestirem como quiser. Ainda mais em um ambiente adulto.

Espero que minha filha cresça de forma a se manifestar contra a unanimidade burra em casos como esse. E que saiba que o legal do mundo não é que somos todos iguais. O legal é que somos todos diferentes.

Para saber mais (não deixe de clicar nos links):

http://colunas.epoca.globo.com/bombounaweb/2009/10/29/uniban-se-pronuncia-sobre-video-de-aluna-hostilizada/ (matéria da Época sobre o caso)

http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2009/06/experimentos-em-psicologia-a-unanimidade-burra-de-solomon-asch.html (A Unanimidade Burra de Solomon, da imperdível série Experimentos em Psicologia do Blog Não Posso Evitar)

http://www.bullying.com.br/ (site sobre bullying)

http://www.riocomgentileza.com.br/ (Esse é para lembrar que Gentileza gera Gentileza)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

MÃE, É DIFÍCIL ARRUMAR UM NAMORADO?

"Mãe, é difícil arrumar um namorado?"

Estivemos viajando por dois finais de semana e o mundo parece vir aos pares. Da observação do romance alheio veio o comentário da minha menina. Comentário de certa forma preocupado!

Não sei se é difícil arrumar um namorado. Aliás, interessante a escolha da palavra. "Arrumar" o outro, creio que é impossível. Melhor que já venha pronto, ou que se aceite um pouco de bagunça....

Seja como for, gostar de alguém que também goste da gente é um pouco uma questão de sorte no que se refere ao encontro inicial. A partir daí, vem o cuidado com a relação. Que deve ser recíproco. Nem sempre é fácil ajustar os quereres, os espaços. O outro será sempre o desconhecido. Importante, acho, é jamais julgar uma relação atual por uma tristeza passada. E se é o amor quem nos encontra, e não o contrário, tratar ao menos de não se esconder.

Mas o principal ensinamento que eu quero que minha menina linda tenha em mente, é que antes de ser dois, precisamos estar uno. Inteiros. E que não é preciso um namorado para ser feliz. Ninguém é metade de nada. A quem falta um pedaço, falta também amor próprio. E este deve vir antes de tudo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

BEING BORING

Setembro não foi um mês fácil. A inspiração para novos textos está muito melancólica. Todavia, eu acredito no lema que ensinei à minha menina de cachos: viver é muito bom!
Encerro, portanto o mês de setembro com uma música. Não é, talvez, uma obra que será eterna e sei que o pop não tem a beleza da música clássica, do jazz, da bossa nova e de tantas canções que ouço e ainda irei ouvir e compartilhar com minha pequena. Mas essa é uma das músicas que eu mais gosto, e minhas predileções por música, livros, filmes, transcendem a qualidade e acabam sendo muito pessoais. Nesse caso, ela é especial porque, primeiro, foi inspirada em uma frase dita por Zelda Fitzgerald, esposa do escritor que eu mais gosto, F. S. Fitzgerald. Outra coisa que acho importante a respeito dessa canção é que a dupla é gay. E se tem algo que quero ensinar à minha filha, é a tolerância e o respeito às diferenças individuais.
A letra da música fala da passagem do tempo, de perdas, mas também de conquistas. E fala especialmente de amizade, que é um tipo superior de amor.
Aos meus amigos, portanto!




(recomendo que procurem e assistam ao video original, que foi dirigido pelo fotográfo Bruce Weber e é belíssimo.)

Para saber mais: http://www.10yearsofbeingboring.com/

domingo, 6 de setembro de 2009

MAS AS COISAS FINDAS...

Poema lindo, que serve para todos os tipos de amores.
De amantes, de amigos, de pais e de filhos.
Amores vividos, amores nunca findos. Amores que ficam.

MAS AS COISAS FINDAS, MUITO MAIS QUE LINDAS, ESSAS FICARÃO
Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

terça-feira, 14 de julho de 2009

PLURAL

Pessoas são como paisagens. Existem em todas as formas.

Eu gosto de heterogeneidade. Acho que tudo o que é diferente de nós, acrescenta. Quando vivíamos na Ilha, eu me preocupava porque minha filha convivia com pessoas muito semelhantes a ela em tudo. Minha menina agora conhece pessoas de todas as cores, religões, classes sociais. Conhece, convive e gosta. Este é um dos motivos, aliás, pelos quais prefiro as pequenas cidades às grandes. Paradoxalmente, nas grandes cidades, as pessoas tendem a conviver em guetos, sem se misturarem. E o medo do diferente tem levado ao isolamento dos condomínos fechados, à vida estéril e ilusória de crescer protegido de realidades distintas. No interior, ainda existe a possibilidade do convívio com o outro que não se assemelha a mim. Eu gosto de praças, gosto das regiões centrais, gosto das praias onde todos se encontram e estranhos podem se tornar amigos. Quem teme o diferente, é porque não se acostumou a conviver com ele. O que recebemos de novo, nos acrescenta e nos impulsiona.
Igual é mais do mesmo. E eu quero ir sempre além.

terça-feira, 7 de julho de 2009

"AS COISAS LINDAS SÃO MAIS LINDAS QUANDO VOCÊ ESTÁ"


Neste final de semana fui a um casamento.
A cara dos noivos, como tem que ser. Muito bonito, e também inusitado. Teve até votos de "sexo sem pudores" e um beijo gay no meio da pista de dança, já tarde da noite. Algumas pessoas ficaram chocadas, outras surpresas, outras, ainda, acharam tudo muito normal.

É muito bonito quando família e amigos se reúnem para desejar felicidades a um casal. Tenho a certeza que tantas vibrações positivas acabam, sim, acrescentando ao menos um pouquinho a mais de alegria à vida do novo par. A maior responsabilidade é deles, mas tanta gente junta querendo o bem algum resultado positivo há de dar...Eu fiquei contente por estar lá, entre tanta gente querida, partilhando comida, bebida, música e risos.

No fim da festa, minhas sobrinhas gêmeas de seis anos conversavam. A loira diz:

- Sabia que os números são infinitos? Infinito é coisa que nunca acaba, como o amor.

A morena, assertiva:

- Ah, não! Como o amor, não! O amor, às vezes acaba...

Minha menininha de cachos não se ligou muito na cerimônia ou ponderou sobre o amor. Quando perguntei sobre o que ela mais gostou, respondeu prontamente: da piscina e de brincar! E me perguntou se poderá levar a cestinha com as alianças quando eu me casar, visto que ela foi dama de honra em outra ocasião e gostou bastante! Como deve ser aos cinco anos de idade, não está ainda interessada em romances.

Mas eu sou mais complicada que minha menina. Menos romântica que minha sobrinha loira, tendo a concordar com a morena. E me peguei, mais uma vez, pensando nas belas palavras de São Paulo sobre o amor, lidas pela irmã da noiva na cerimônia:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado.
Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino. Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.

Devia ser simples, o amor... Mas não é! Não é fácil, nem perfeito e nem sempre feliz. Mas é bom, ah, se é! O amor é sempre o todo, inteiro. Pleno ao se bastar em si mesmo. Porque não se deve amar esperando retribuição, embora, contraditoriamente, eu não acredite em amor não correspondido. Relacionar-se é sempre uma troca.
Amar verdadeiramente é mais raro do que deveria ser. Mas por isso mesmo, merece todo o cuidado e vale sempre a pena ser vivido plenamente.
"Tarefa pra gente grande, tanto quanto pode ser o coração de quem ama".



sexta-feira, 19 de junho de 2009

EXPECTATIVAS


Nunca quis alguém pra suprir minhas expectativas. Estava em busca do encanto de descobrir necessidades que nem eu soubesse que tenho.
Não espero nada. Quero ser surpreendida. Olhar para ele e reconhecer não a mim, mas o outro. Amar as diferenças. Para construir juntos um plano de vida que se amolde ao novo de cada dia.
Sendo dois, mantendo a nossa individualidade, o que nos une é o que temos de único.
Juntos, estamos em equilíbrio
Pois é no outro que vou encontrar aquilo que não existe em mim.

MÁSCARAS

Olhando a foto de minha filha e seus colegas de classe, o que me encanta são as diferenças. Cabelos de todas as cores e tipos. Diferentes tons de pele e de formas de corpo. Cada criança diferente da outra, reconhecível em sua individualidade. Por que crescemos e queremos nos tornar iguais? Os esterótipos de beleza são vazios porque lhes falta o encanto do único.

Em casa, são três crianças quase da mesma idade. Todas lindas. Uma, loira de olhos azuis. Rosada e lânguida. Outra (gêmea dessa!), tem os cabelos e olhos pretos, a estrutura sólida. Minha menina tem os cabelos e olhos castanhos e é atlética e cheia de energia. Todas são e se reconhecem lindas. No entanto, já começam a perceber a uniformidade entediante do mundo dos adultos, a pressão pelo ser igual através do consumo. Minha atenção é toda no sentido de evitar que minha filha linda e única cresça buscando padrões impostos por quem não sabe nada daquilo que a faz especial.

Mas não quero proteger minha criança somente da máscara exterior dos padrões de beleza. Quero que ela cresça segura de suas opiniões, de seus valores, e aprenda a se mostrar ao mundo de cara limpa. Saiba se expressar com verdade e ter orgulho de quem é e de seu caminho. E mais ainda, aprenda a reconhecer e descartar as máscaras alheias.

(Esse post foi inspirado pelo texto abaixo, escrito por um homem muito talentoso, verdadeiro e especial naquilo que tem de único:

Nunca gostei e sempre tive medo de palhaço e de Papai Noel. Mais tarde, descobri que sentia o mesmo em relação a Carnaval. No período cruel da afirmação, da ditadura da adolescência, sofri o desconforto dos estereótipos. Hoje, aliviado, vejo que tinha razão: na verdade, não gosto mesmo é de máscaras, menos ainda, de quem se esconde por trás delas! )

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Tão longe, tão perto

Faz bem pouco tempo, eu sabia exatamente quantas horas eu havia passado longe da minha filha em seus quase cinco anos de vida.
Faz bem pouco tempo, eu havia dormido longe dela apenas uma vez. Faz bem pouco tempo, eu sabia o que havia acontecido em cada minuto do seu dia. Faz bem pouco tempo, ela era a única razão da minha felicidade.
Faz bem pouco tempo, porque havia colocado sobre os ombros pequenos da minha menina toda a minha vida, eu não era uma boa mãe.

Agora, há dias em que só nos vemos à noite. Eu já viajei sem ela, e foi muito bom. Ela dorme longe de mim às vezes, e gosta. Ela se troca sozinha. Já não sei mais tudo sobre ela. Hoje, ela é a melhor parte da minha vida, e eu da dela. Mas eu sei que ela não é um pedaço meu.
E por isso, agora nós duas podemos ser inteiras.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Degustando a vida

Minha menina não gosta de batatas fritas. Nem de salsicha.
E eu tenho muita inveja dela!

Desde pequenina que eu procurei ensinar a ela hábitos alimentares saudáveis e também o prazer de comer. Hoje ela faz suas próprias escolhas e não tem medo de experimentar sabores novos. Embora quase sempre desista de continuar comendo na primeira vez...

Já aconteceu de irmos ao supermercado e as pessoas ficarem me olhando com cara estranha enquanto ela insistia em voz alta para eu comprar couve-flor e eu negava (se não, tem couve-flor todo dia em casa!). Mas na maior parte das vezes ele é uma menininha muito feliz e saudável, que gosta de arroz, feijão, salada de tomate e alface e uma carninha (ou frango, ou peixe). E couve-flor, claro!

Na escola dela o lanche é igual para todos - eu acho ótimo! E tem também o "fruit time", com três tipos de frutas todos os dias. Nem preciso dizer que ela é a "Maria Frutinha"... Hoje mesmo ela ficou toda feliz porque encontramos morangos orgânicos para comprar. Aliás, morangos só consumo orgânico. Ela já aprendeu isto e às vezes me embaraça perguntando para as pessoas que oferecem a fruta ou receitas com ela perguntando "é orgânico?". Diante da negativa, ela diz "então não quero".

Eu adoro comer fora e sou fã número um de cafés. Gosto de observar as pessoas. Minha filha é minha melhor companheira nestas horas. Por isto, desde bem pequena, ela sabe que a regra é:
Ficar na cadeira. Não pode levantar.
Simples assim. E funcionou e funciona. Ela se interessa pelo que come, participa da refeição, conversa. Se entretém com um brinquedo, ou desenhando. Assim, é convidada por todos para todos os lugares, e conhecida por ser uma criança educada (sem deixar de ser alegre e feliz).
Mas claro que sempre que possível, procuro escolher lugares com espaço para crianças. Aqui na Ilha ha dois lugares imperdíveis:

Café Kiwi
http://cafedasquatro.blogspot.com/2008/09/kiwi-o-caf.html
Além das receitas com ingredientes orgânicos, decoração charmosa e da simpatia do staff, ainda tem um lousa e muitos lápis e papéis para as crianças. Amo!

Pizzaria Lorenzos
http://www.pizzarialorenzos.com.br/
Para mim este é o melhor endereço "secreto" daqui. Tudo é encantador, da entrada com uma ponte e que passa no meio de pedras, à surpresa de ver o proprietário cantando um tango. A vista é linda e o salão foi feito pensando em todo mundo: desde os casais (reserve a mesa 13), a grupo de amigos e famílias (mesas 1 e 2). Mas o que mais encanta minha filha e outras crianças não é nada disto. Nem mesmo o excelente espaço com livros e brinquedos. O grande charme do local é que as crianças podem fazer sua própria pizza, desde a massa à cobertura. Imperdível! (E sim, a pizza é uma delícia, e os preços, justos!)


Para saber mais - algumas outras experiências gastronômicas que recomendo:
http://www.slowfoodbrasil.com/
http://www.restaurantepitangueiras.com.br/
http://www.deliciasportuguesas.com.br/
http://www.tocadourso.com.br/
http://www.ostradamus.com.br/

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Presentes, princípios e valores

Estou tendo problemas com o presente que demos à minha menina do Dia da Criança. O brinquedo não funciona como deve. Pior que não é defeito apenas do que compramos, é um erro de projeto, mesmo.

Desde domingo passado este presente tem sido motivo de desencanto para ela. É uma situação bastante delicada, pois envolve também os princípios e atitudes que ensinamos. Não mentir, cumprir o que promete, fazer sempre o melhor possível, não magoar os outros... Tudo isto está sendo questionado pela minha filha em relação ao ocorrido. Quando ela finalmente entendeu que o brinquedo não funciona como no comercial da TV e NUNCA irá funcionar, a tristeza e decepção foram sem tamanho...
Eu não compro brinquedos de camelô. Não compro DVDs piratas. Dou preferências à empresas que tenham políticas sociais e ambientais. O brinquedo em questão tem selo do INMETRO e a empresa é reconhecida pela Fundação Abrinq. Mas quem trabalha com crianças, trabalha com mais que qualidade. Trabalha com sonhos. Os cuidados devem ser muitos maiores!
Como este é um blog anônimo, não acho ético revelar aqui o nome da empresa e do brinquedo. Estou há quase 10 dias em negociações com a empresa para chegar a uma solução. Recebi algumas propostas ridículas. Mas acho que o caso se encaminha para a solução que acho correta: devolução do dinheiro (e do brinquedo). Graças, principalmente, à intervenção da ABRINQ, a quem denunciei o ocorrido. Também fiz denúncia ao CONAR, já que o que é anunciado não corresponde à verdade.
Minha menina chegou a dizer que "não é certo enganar as crianças". Não é mesmo.
Você tem razão mais uma vez, filha.
***
Agora vou contar um caso inverso. Um caso de respeito ao consumidor e preocupação com o público infantil. Neste caso, faço questão de contar o nome da empresa: O BOTICÁRIO
Anos atrás, eu passava no rostinho da minha menina, que ainda tinha cachos, o bloqueador solar infantil da marca. Por descuido meu, acabei deixando um pouco do produto entrar no olhinho dela.
Lavei bastante com água e soro fisiológico, mas como o olho continuava bastante irritado, liguei para o número do SAC para perguntar se havia alguma outra providência recomendada. Liguei sem maiores pretensões.
Recebi O MELHOR ATENDIMENTO DO MUNDO. A pessoa que me atendeu tinha total autonomia. Ela mesmo resolveu o problema rapidamente e acompanhou o caso até o fim.
A empresa fez questão que eu levasse minha filha ao oculista. Pagaram todas as despesas com remédios (colírio). A funcionária que me atendeu ligou durante uma semana para saber como minha criança estava. E ainda se ofereceram para analisar o produto ou trocá-lo.
Depois de 15 dias, recebi uma carta com todas as informações do atendimento. Uma carta pessoal, e não padronizada.
Veja bem, tudo aconteceu por um descuido MEU. E nem foi nada grave. Mas O Boticário demonstrou que o respeito ao consumidor realmente é um valor importante para a marca.
E ganhou ao menos duas consumidoras fiéis pelo resto da vida.
RECOMENDO MUITO:
Para denunciar:

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Para sempre

Ontem estávamos voltando da escola e ela inventou uma música. Em inglês! Cantou por boa parte do caminho. Eu dizendo que estava lindo! Quando parou, disse:
- Mãe, você sempre vai lembrar desta música?
Vou sim, filha. Da música. Das nossas idas e vindas a pé da escola, quase meia hora andando, bastante para suas perninhas tão pequenas. Mas tão bom nossas conversas, as paradas fixas no caminho, sua mãozinha na minha.
Para sempre vou lembrar de quando minha menina tinha 4 anos e íamos juntas para a escola. Vou lembrar de como é bom voltar para casa no verão prolongando o caminho, dia ainda, e parar para tomar café e comer pão de queijo. O biscoitinho do café vai ser sempre seu!
Vou lembrar de quando os dias ficam mais curtos e a noite vai caindo enquanto voltamos para casa e olhamos o céu para ver a cor da nuvens, se tem estrelas e qual a forma da Lua. Nossa preferida é o "sorriso do gato da Alice".
Vou lembrar que o Chef Remy e a Timkerbell nos esperam sempre no alto da palmeira, depois do sinal. E depois vão voando com a gente até a escola, ou até em casa.
Vou lembrar que eu sempre pergunto "já disse que te amo hoje?" e você sorri e diz que sim e me dá um beijo "grudinho de bico".
Vou lembrar de como é difícil subir aquela ladeira. De como é bom pisar nos "crocts" que caem das árvores no outono. Vou lembrar daquele senhor que vende cachorrinhos de brinquedo na porta do hospital.
Vou lembrar que reformaram seu "lugarzinho de brincar", porque virou um Banco.
Vou lembrar que você sempre pedia para eu comprar algodão doce, e quando eu comprei você gostou "só da máscara".
Vou lembrar que você gosta tanto de ir para a escola que quando viramos a esquina você sempre corre para chegar logo.
Vou lembrar sempre da sua carinha linda e sorridente descendo as escadas quando eu vou te buscar.
Vou lembrar sempre de você me contando "what for snack time" na volta. E de como você gosta dos dias de muito vento, ou de chuva (e eu não).
Vou lembrar de seus amiguinhos, das suas professoras, de todos na escola.
Espero que você se lembre também. Porque você é muito, muito feliz.
E eu desejo que você continue assim.
Para sempre.

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