"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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sexta-feira, 13 de maio de 2011

O QUE NÃO SE VÊ

Estimulo minha menina a ser destemida, confiante e independente. O que significa cuidar para que ela não seja exposta precocemente à determinadas situações. Controlo e censuro (mesmo) programas de TV, jogos de computador, roupas e até conversas. Acredito que um adulto pleno é conseqüência de uma infância vivida intensamente. Muitas brincadeiras, muita fantasia, muita imaginação e criatividade, evitando rótulos, preconceitos, sexualização precoce e medos.

Ontem ela cansou-se cedo, bem antes do horário em que costuma dormir normalmente. Foi deitar-se sozinha, no outro extremo da casa. Como temos enfrentado um surto de dengue na cidade, após apagar a luz eu a avisei que iria fechar a porta do quarto.  Ela disse:

- Pode fechar, mãe. O escuro é igual ao claro. A diferença é que a gente não vê.

Por insistência de minha mãe, que dizia "coitada da criança trancada lá no escuro", cinco minutos depois voltei ao quarto: ela dormia em paz.

A vida não é só o que a gente vê.


(foto daqui)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

ALENTO

Minha vida sempre teve trilha sonora. Nunca ouço música impunemente.

Uma de minhas lembranças mais remotas é de parar de brincar para ouvir música. Criança estranha, gostava de Frank Sinatra, de Bossa Nova. A "Cavalgada das Valquírias" abastecia-me de entusiasmo. "João e Maria" traduzia meu faz de conta.

Fugindo ao clichê, no entanto, nem todos os meus amores tiveram a "nossa" música. Alguns foram cheiro, perfume. Outros, uma determinada hora do dia, ou tato, ou sons outros que não notas musicais. Há um quase-amor, esmaecido, que virou uma canção na luz de fim de tarde de um verão. E o maior de todos tem toda uma trilha sonora, que cresce ainda hoje.

Quando meu tio, irmão mais novo do meu pai, morreu de forma trágica, eu tinha cinco anos e fui, como as outras crianças, "protegida" da verdade, o que não evitou a dor. Confusa, mantida à distância, lembro-me do meu pai chorando e ouvindo música com fone de ouvido. Essa dor foi surda.


Também dói-me a música quando vai além dos sentidos para transformar-se em sentir. Porém, me arrebata, me toma inteira, me alegra, quando me faz acreditar. Serendipity.

Hoje vi minha menina puxar o canto na capoeira. Desafinada como a mãe. Para ela, ainda bebê, fiz uma cançao de ninar. Já coloquei a letra aqui no início do blog, mas hoje tenho a coragem de mostrar que canto para ela, que é todos os sons e todas as notas.



(Fiz esse vídeo alguns dias depois do seu primeiro aniversário. Hoje ela tem seis anos, e é ainda mais bela...)

terça-feira, 30 de março de 2010

PERTENCIMENTOS

Ontem eu a ouvi rezar:
"Papai do céu, protege minha mamãe que anda um pouco triste..."

Em seguida, pensando que eu dormia, repetiu em mim os mesmos carinhos que faço nela. Nesse acalanto, adormeci. Pensando no abraço que um dia me fez sentir em casa.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O ESPAÇO DO AMOR

Ela dormia a noite toda, em seu berço. Eu buscava desculpas para vê-la dormir. Há bebês que choram, acordam à noite. Ela dormia. Dava-me um sossego que eu não entendia... E quem acordava às madrugadas era eu, para ter certeza que ela estava bem. E resistia à vontade de pegá-la. Foi sempre só na hora da primeira mamada que ela foi para a nossa cama, já de manhãzinha.

Poucas vezes, ela ficava febril. Nessas noites, havia hora marcada para remédio, termômetros. E tenho lembranças ternas de levá-la para a sala, ajustá-la exatamente na curva do cotovelo que é feita para o abraço e dormirmos as duas, ali. A mãe é o melhor berço do filho. Tão juntas ficávamos, corações tão próximos, que éramos uma só novamente.

Eu apaguei as lembranças daquele apartamento, até porque veio tão pouco dele comigo. Coisas são efêmeras e a mim interessa que me pertençam só os afetos. Mas dessas noites no sofá, só nós duas, iluminadas pela luz filtrada pelas cortinas, sinto falta. Elas me ensinaram que mesmo nos menores espaços cabem os maiores sentimentos.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

MINHA JANELA PARA O FUTURO


Em todos os lugares em que trabalhei, dei um jeito de ficar próxima a janelas. Gosto de observar as mudanças de luz, as nuances que tornam o que é igual sempre novo. E mais do que tudo, preciso de amplitude, enxergar a possibilidade de ir além. Por isso não gosto de shoppings e suas luzes artificiais, iguais em todas as partes do mundo.


Ontem trouxe minha menina para o trabalho. Ela dormiu nas cadeiras em frente à minha mesa, sob a janela. Foi a mais bela paisagem que já tive. Observá-la expande meus horizontes e me dá a certeza de que vale a pena seguir.



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

DREAMCATCHER

Minha menininha está doente.
Nada grave, mas o suficiente. O suficiente para que eu queira que a dor dela seja minha. Para que eu a abrace com força, como se assim, pudesse roubar a febre que lhe furta os pulos e saltos.
Como me assusta a fragilidade dela. E esse medo me despoja um pouco de ternura, sou incisiva ao dar os remédios, ao fazê-la comer o mínimo, ao mantê-la sob o chuveiro para combater a febre. 

E depois a abraço tanto, tanto... Eu ainda mais frágil do que ela. E deitamos assim, juntas, lendo uma história com monstros imaginários, que não me causam sobressaltos como a possibilidade dessa doença boba não ir embora. E então ela dorme, mas eu não. Tenho nos braços o que é mais importante, e velo por ela. Sou a guardiã dos seus sonhos, para manter afastados os pesadelos. E só quando a vejo sorrir, o mundo volta ao seu lugar.

Para ler quando se está doente: Coraline - Neil Gaiman 
Para assistir, também: Coraline - Henry Selick

P.S. Dreamcatcher é um artefato dos índios Ojibwa (norte-americanos e canadenses). É um "filtro de sonhos", que mantém os pesadelos afastados

domingo, 23 de agosto de 2009

A FILHA QUE EU SEMPRE QUIS TER

Só quem tem (ou teve) criança em casa pode verdadeiramente compreender o verso:
"Hoje eu quero a paz de crianças dormindo"
Porque criança é um nunca cessar de atenção, ruídos, sustos e alegrias. Minha menina de cachos está o tempo todo se movimentando. Até televisão ela assiste ora de cabeça pra baixo, ora pulando, ora correndo...Acho que vem do contraste o absoluto encanto que sinto ao vê-la dormir tão serena.
Quando dormimos juntas, ela gosta que eu segure o seu pezinho. E quando ela está acordada e pensa que eu estou dormindo, me faz carinhos no rosto e cabelos, assim como eu faço para que ela durma. Se ela pensa que acorda antes de mim, beija meu rosto com muito carinho, cheia de cuidados para não me despertar.
Ela dorme. E eu posso sentir o seu cheirinho de criança feliz. Observar seus traços perfeitos (para quem nunca viu, acredite: minha filha é linda!). Nestes momentos de quietude, existem em mim paz e felicidade. Mas nada me causa mais júbilo do que as noites em que sou acordada por suas gargalhadas. Ela ri em seus sonhos, e eu sei então que devo estar no caminho certo...
(Sempre choro ao ouvir essa música:)


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Canção de Ninar

Fiz para minha menina:

"Dorme
Dorme bem quietinha
Fecha os olhinhos
E dorme com os anjinhos
Dorme, filhinha
Que eu vou cantar
Para o seu sono embalar
Minha filhinha
Pequenininha
O meu coração
Está neste pedacinho de gente
Que vive sempre contente
Só me traz alegria
A filha que eu sempre queria"

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