"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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quinta-feira, 23 de maio de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
ABISMOS
A gente pensa que o amor não tem fim, mas ele acaba.
Meus amores se transmudaram em ternura ou indiferença, mas foram todos finitos.
Indago-me se eu me transbordo tanto que esgoto o amor. Tenho sempre essa curiosidade, esses anseios. Eu me preencho do outro a tal ponto que muitas vezes senti alívio na hora de me despedir, de sair para trabalhar, de voltar para casa. Gosto sempre de ter meus espaços, meu tempo sozinha, sufoca-me um amor que não me deixe nunca. Toda a minha vida é feita de desvios, de exílios voluntários.
Ou seja talvez uma espera pelo que está por vir. Mas se o caminho é muito reto, eu saio da estrada...
Quero sempre um pouco de abandono.
Ou seja talvez uma espera pelo que está por vir. Mas se o caminho é muito reto, eu saio da estrada...
Quero sempre um pouco de abandono.
Imagem daqui
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sexta-feira, 19 de abril de 2013
SFOGARSI
É quando se vêm à tona que surge o risco de se afogar.
Sorvo o ar e me invade a vida. Havia luz à superfície e, por um breve instante, fui tentada pelo pressentimento da cumplicidade duradora. Mas ouvi o alerta e recuo, me entregando toda. Sei da fascinação do mistério, contudo, pressinto o perigo e esgoto-me toda em um dia.
Escondo-me novamente nas palavras. Aqueles que são oceano nunca deixam de sentir o gosto de sal.
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terça-feira, 9 de abril de 2013
SEMENTE
Quando comecei a escrever o blog, ela era uma menininha só com dentes de leite.
Hoje eu a levei à médica, porque apareceu um carocinho e dores no peito. Não era nada. Ou é tudo. Ela cresceu, simples assim.
Telarca, me disse a doutora. Minha menina segue saudável e firme no caminho de crescer e ser a mulher forte e independente que eu desejo que ela seja. Segue no caminho de ser o que ELA vai querer ser.
E enquanto eu, em segredo, já sinto saudades da criança que está ainda à minha frente, ela se olha no espelho, linda, ansiosa, confiante.
- Mas filha, por que você está tão feliz?
- Mãe, agora eu tenho certeza que vou ser igual à você!
E eu choro.
Hoje eu a levei à médica, porque apareceu um carocinho e dores no peito. Não era nada. Ou é tudo. Ela cresceu, simples assim.
Telarca, me disse a doutora. Minha menina segue saudável e firme no caminho de crescer e ser a mulher forte e independente que eu desejo que ela seja. Segue no caminho de ser o que ELA vai querer ser.
E enquanto eu, em segredo, já sinto saudades da criança que está ainda à minha frente, ela se olha no espelho, linda, ansiosa, confiante.
- Mas filha, por que você está tão feliz?
- Mãe, agora eu tenho certeza que vou ser igual à você!
E eu choro.
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quinta-feira, 1 de março de 2012
NAVEGANDO
Sempre tive muitas dúvidas.
Criança ainda, fui considerada "madura e responsável", pelo meu desempenho escolar acima da média. Aos seis anos, ia sozinha para a escola, à banca comprar jornal. Contudo, eu queria proteção, cuidados. Muitas vezes, fingi dormir apenas para que me pegassem no colo. Até hoje, eu me sinto pequena, enquanto os outros me enxergam grande.
No entanto, apesar das hesitações, andei sempre firme em frente. Sozinha, aos tropeços e erros. Pela falta de orientação na infância, acabei desconfiada de conselhos alheios, e desenvolvi uma teimosia que me levou aos meus "caminhos tortos". Mas eu acreditava.
De repente, assim, a crença se foi. Ficaram as dúvidas. Vem daí o relativo abandono do blog. Eu sempre tinha uma conclusão para os meus textos. Apesar das incertezas, eu exergava, ou ao menos, vislumbrava um ponto à frente. Agora é tudo movediço. Mais do que nunca, vivo o presente, sem me arriscar a especulações. À frente, névoas.
Contudo, está tudo bem. "Continue a nadar, continue a nadar, para achar a solução, nadar, nadar".
A vida não pára, nem espera. Ela insiste.
domingo, 5 de fevereiro de 2012
"A ÚNICA RIQUEZA É VER"
Foi aniversário dela.
De presente, dei a ela uma viagem. Aliás, essa é uma combinação nossa que já dura alguns anos.
O que é efêmero, permanece. Assim creio.
O que é efêmero, permanece. Assim creio.
Serão dela, para sempre, o mar sem fim, o sol, as ondas,os golfinhos, a chuva, a emoção da tirolesa. Vai perdurar a noite em que mostrei a ela o Cruzeiro do Sul e as Três Marias, só nós duas, o céu e o oceano. Ela vai continuar sendo Michael Jackson, andando de bonde e na corda bamba. Estaremos juntas, e com os amigos. Sendo felizes.
Assim foi, assim é. Tudo maior do que os olhos vêem, do tamanho que a vista e o amor alcançam.
Um tempo que ela já definiu melhor do que eu:
"Mãe, por que tem dia que são muitos?"
(Mais de nós aqui: Blog da Vovó...mas não só )
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domingo, 4 de dezembro de 2011
TEMPO DE DELICADEZAS
Estamos sendo cuidadas.
O conforto chega em telefonemas para o hospital, de madrugada. Em ajuda para a apresentação de ginástica. Em assumir problemas deixados por outro, e ocupar espaços importantes no coração de uma criança. Cuidado chega em chocolates, bonecas, e no gesto de cobrir quem adormeceu de cansaço. O cuidado se faz presente na distância e também se descortina lado a lado, no abraço. No olhar. Carinho que me encanta.
E porque um tanto do fardo me é tirado, aumenta o espaço para que eu também cuide. Há mais espaço em mim para o melhor e mais belo. Também posso guardar melhor minha menina, pois estou mais tranquila e serena.
O cuidado diz "eu amo você" sem palavras. Com carinho, com atenção, com discrição. Porque que ama cuida, inclusive, contra a inveja alheia.
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quinta-feira, 17 de novembro de 2011
MAIS DO MESMO
A cidade onde moro é cortada por um rio. Todos os dias, para ir e voltar do trabalho, atravesso uma ponte sobre ele. É um rio de águas escuras, barrentas. Ainda assim, dia a dia me encanto com seus pássaros, suas margens, as mudanças causadas pela luz do sol.
Ao por do sol, ele é sempre belo. Não resisto: faço, ao celular, fotos quase diárias do rio que imita o céu. As fotos, confesso, são ruins e pouco diferem entre si. Que me importa? Esse ritual tolo revela muito de mim. Aquilo que me encanta é belo, e nunca me cansa. Provoca sempre a sensação de primeira vez. Arrebata-me! Encontro sempre o novo no que amo, e desafia-me que seja sempre igual e nunca o mesmo.
Gosto de descobrir o desconhecido que já conheço.
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terça-feira, 27 de setembro de 2011
APRENDIZ
Quando amei pela primeira vez, eu fiquei maravilhada! Encontrara a plenitude. Então, vieram as dificuldades, e pensei: "se o primeiro amor é assim, imagine os próximos!" E abri mão desse amor, segui em frente sem olhar para trás. Não sabia que amar é raro. Não sabia como é precioso se reconhecer no outro. Tive outras paixões, alguns acertos, erros e por fim, um relacionamento destrutivo. E passaram-se após o primeiro amor tantos anos quanto os que vivi antes de senti-lo para que eu amasse inteiramente outra vez.
Agora conheço minhas marés e minhas profundezas.
Entendi que a leveza está em ligar-se voluntariamente a alguém. Liberdade é escolher com quem se quer ficar junto, deixando a porta sempre aberta, pois liberdade cresce com mais liberdade. Também aprendi que a realidade é melhor que a fantasia. Importante é que a vida e o amor sejam vividos, consumados, esgotados. E quero acreditar que é possível desfrutar felicidades. Ser feliz! Eis algo novo e excitante para descobrir junto! Já fiz o caminho inverso: estar próximo nos momentos difíceis. Felicidade é a próxima aventura.
Aprendi a crer no infinito, e entendi que o futuro muda a cada instante. Já não tenho medo do que virá. Aceito, sem temor, o destino de amar e amar e amar. Entrego-me à emoção avassaladora, mas sem perder o controle da minha vida. Amo. Amo-me.
Amar não precisa ser fácil, mas tem que valer a pena.
![]() |
| Hokusai, A grande onda de Kanagawa |
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011
CALEIDOSCÓPIO
Eu sou solar. Isso é o que todo mundo vê. Sorrisos, carinhos e cuidados.
Mas desde criança me desloco entre mistérios.
Gostava de ouvir música na sala trancada, nas festas, escondia-me embaixo das mesas para ler. Encantava-me com o que não se mostra, com os cantos, os silêncios. Muito cedo, descobri meu lado selvagem, e observava o mundo com olhos plácidos enquanto em mim era a tempestade, sempre.
Busco o singular. Gosto do avesso, do torto, dos pequenos. Tenho preguiça de unanimidades.
Dentro de mim, sou várias.
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terça-feira, 30 de agosto de 2011
AMAR
Viemos pelo céu, acima das nuvens. A chegada nos reservou uma surpresa, uma moça que se fez ainda mais linda. E ele estava lá... Tudo mudou, e nada mudou, na nossa longa história curta. Como no caminho que fizemos todos juntos, para um almoço de entrelinhas: nos perdemos, mas encontramos nosso rumo para casa.
A menina chamou o mar, e ele veio.
Foi nessa noite, sem lua. Alguns dos encantos da praia escondidos entre vento e nuvens, minha menina, tal qual uma tartaruguinha, encontrou seu lugar, invocando o mar. E eu soube, definitivamente, quem sou. Tinha que ser à beira-mar, porque sou oceano sem fim.
Eu chamei o amor, e ele veio.
" Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu" (Fernando Pessoa)
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quarta-feira, 24 de agosto de 2011
CORAÇÕES ALEATÓRIOS
Não sei como começou. Acho que vem de antes do início. Quando ela nasceu, veio com uma marquinha em formato de coração nas costas. Quase inacreditável a perfeição. Ainda está lá, mas mal se vê agora.
Talvez venha daí o hábito que ela tem de procurar corações escondidos. Eles estão em todos os lugares: em um buraco, uma pedra, uma rachadura de calçada, uma mancha... Ela me tornou sua parceira nessa busca, de forma que treinei meu olhar para encontrá-los. O bom é que eles quase sempre permanecem onde estão, e às vezes mudamos nosso caminho para passar pelos nosso preferidos. Temos especial afeto por um buraco na parede que divide uma oficina mecânica de um salão paroquial. Como uma janela entre dois mundos. Gosto de fotografá-los, aleatórios, isolados, imperfeitos, até ganharem significado pelos nossos olhares cúmplices.
Há poesia. Há amor. Há beleza. Sempre.
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domingo, 29 de maio de 2011
REFLEXÃO
Com seus brinquedos, ela constrói um mundo. E é nela que eu me descubro.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
O QUE NÃO SE VÊ
Estimulo minha menina a ser destemida, confiante e independente. O que significa cuidar para que ela não seja exposta precocemente à determinadas situações. Controlo e censuro (mesmo) programas de TV, jogos de computador, roupas e até conversas. Acredito que um adulto pleno é conseqüência de uma infância vivida intensamente. Muitas brincadeiras, muita fantasia, muita imaginação e criatividade, evitando rótulos, preconceitos, sexualização precoce e medos.
Ontem ela cansou-se cedo, bem antes do horário em que costuma dormir normalmente. Foi deitar-se sozinha, no outro extremo da casa. Como temos enfrentado um surto de dengue na cidade, após apagar a luz eu a avisei que iria fechar a porta do quarto. Ela disse:
- Pode fechar, mãe. O escuro é igual ao claro. A diferença é que a gente não vê.
Por insistência de minha mãe, que dizia "coitada da criança trancada lá no escuro", cinco minutos depois voltei ao quarto: ela dormia em paz.
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011
PALIMPSESTO
Eu amo o cheiro das noites de verão. Cheiro da terra que libera o calor guardado durante o dia: de maneira preguiçosa enquanto a noite cai, ou violentamente sob a chuva. O verão é a minha estação, é a que constrói minhas memórias afetivas. Basta o perfume da dama-da-noite para eu voltar à infância, onde cheiros, luzes e sons se misturam e sempre é o eterno pôr do sol de férias na praia ao mesmo tempo em que espio a tempestade da janela mais alta junto com minha mãe.
Minha menina vai fazer sete anos e espero que essas sejam as férias sobre as quais suas memórias serão construídas. Tivemos férias incríveis, nós duas junto a amigos queridos e generosos. Férias de ir à praia todos os dias, aprendendo com o mar que é sempre o mesmo e nunca igual. Férias de sol e águas transparentes, de caldos e capotes, de nadar sem roupa na chuva. Férias de pular no colchão, de dormir de cansaço, de Morango, de velhos sabores. Férias de aprender a fazer castelos de areia e descobrir que eles não duram, mas há sempre material para uma nova construção. Férias de passar a noite toda acordada conversando com quem já não está. Férias de café da manhã na cama, comida maravilhosa feita pelos amigos e do cachorro-quente mais caro do mundo! Férias de conhecer e reencontrar o Rio de Janeiro e criar novo significado para praia do Leblon.
E voltar para casa... Voltar e tentar fazer um ano verdadeiramente novo. Mudar a rota. Hoje, deitada na piscina com minha filha, o verão à nossa volta, olhando ora as nuvens, ora as estrelas, achei um novo norte.
"Mãe, as estrelas, mesmo quando se escondem, estão sempre ali para brilhar."
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terça-feira, 21 de dezembro de 2010
PARA FICAR LINDO
Ontem ela foi à capoeira com meus primos. Ao chegar em casa, veio feliz me contar:
"Mãe, olhei agora no céu e vi direitinho o trenó do Papai Noel e as renas! O Natal está mesmo chegando".
Ver coisas assim é só para quem é especial, mas ouvi-las também é um presente. Minha menina fala coisas lindas, surpreendentes. Às vezes registro essa sabedoria no tiwtter e no facebook, mas as redes sociais são efêmeras... Para perpetuar aquilo que mais me tocou nesse ano, segue uma coletânea do melhor de 2010:
♥ Primeira frase que minha filha escreveu sozinha: "Mãe eu te amo” ... e ela completou "de paixão".
♥ Levando minha filha pra escola, ela vira pra mim e diz: "mãe, a vida é boa, não é?"
♥ "Mãe, já sei o que eu vou fazer quando crescer! Construir uma máquina do tempo pra ir te conhecer quando criança”.
♥ Eu estava ouvindo "Todo amor que houver nessa vida" e ela me disse: "nossa, mãe, mas você não pode querer tudo pra você, todo mundo quer amor!"
♥ Ela começou a me contar as preferências culinárias dela e foi ordenando: primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, sexta e “sábada”.
♥ Dia desses me contou, com cara de nojo, que lhe ofereceram doce de "palmilha"...
♥ Eu para ela: "Você me ama?" Ela: "Amo!" Eu: "E nunca vai me deixar?" Ela: "Ah, isso eu já não sei...”
♥ Minha filha para mim: "mãe, que cheiro lindo!".
♥ "Mãe, sabe por que eu demoro a escovar os dentes? Porque eu converso com a escova.”
♥ Minha filha me perguntou de manhã como seria meu dia. Ao ouvir a resposta, disse: "Nossa, mãe, como você é corrente!"
♥ Essa foi no dia do concurso de Miss Universo. Ela me falou, inconformada: "mas, mãe, você não vai participar?”
♥ "Quando fazemos o bem, Papai do céu nos dá uma recompensa. Mas não é em coisa, como algumas pessoas acham. Ele nos joga amor."
♥ Contei algo, e ela: "mãe, já formei um vidinho do youtube na minha cabeça”.
♥ Após observar atentamente meu ritual de banho, óleo, creme, perfume: "nossa, mãe, pensava que você tinha nascido macia e cheirosa”.
♥ "Mãe, por que precisa falar tutu de feijão se não existe tutu de outra coisa? Não dá pra falar só tutu pra economizar falada?”
♥ Minha preferida (e que fez feliz, por instantes, alguém doce que partiu): ela me pediu para pintá-la de verde, arrumar uma latinha e levá-la à Praça para que ela possa imitar um SAPO e ganhar um dinheirinho.
♥ Minha preferida (e que fez feliz, por instantes, alguém doce que partiu): ela me pediu para pintá-la de verde, arrumar uma latinha e levá-la à Praça para que ela possa imitar um SAPO e ganhar um dinheirinho.
♥ "Para ficar lindo, tem que prestar atenção nos detalhes. Se não, fica só bonito."
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010
FOCO
O Marcelo Pereira de Carvalho, meu amigo talentoso, esteve viajando pela Nova Zelândia e tirou fotos incríveis. Entre tantas, uma me chamou a atenção pela escolha técnica que ele fez. Uma paisagem maravilhosa, lago azul, montanhas, picos nevados... E ele decidiu-se por destacar singelas flores amarelas. Escolheu o primeiro plano.
![]() |
| Lake Hawea, Nova Zelândia, por Marcelo Pereira de Carvalho |
No meio de tantas imagens lindas, essa voltou à minha mente várias vezes. Bela metáfora da vida. Escolhas. Foco. Podemos decidir fixar nosso olhar no horizonte distante, visualizar o futuro que não chegou. Ou podemos prestar atenção na beleza por vezes oculta do momento presente.
Tenho entendido que quem se entrega a devaneios não vive, que se deixar levar é uma forma de escolha, passiva, que nos rouba a autonomia. A espera do por vir não pode se estender indefinidamente. Os desejos convergentes se ajustam, é no ponto de fuga que aprofundamos a verdade.
Paradoxal que pareça, é o olhar para o agora, o cuidado na escolha de hoje, que vão nos aproximar do horizonte. As flores perecem, mas as montanhas continuarão ali, a espera de serem conquistadas.
Sim, há essa dor, esse aperto no peito. O espanto dos olhos que não mais reconhecem o mundo. Há o vazio, o cansaço. A espera. À espera. Mas há, também, a recusa. Destino de outsider, não se conformar. Senhora dos meus labirintos, recuo e avanço, capaz, ainda, de me surpreender... E sigo a passos tortos, sem nada mais buscar, confiando ser encontrada.
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quinta-feira, 30 de setembro de 2010
CONTOS DE FADAS
Meus pais foram liberais dos anos 70 e queriam dar a mim e a minha irmã a liberdade de escolhermos nossa religião quando crescêssemos, de forma que não nos batizaram. Isso desencadeou uma "conspiração" familiar, que levou meus avós paternos a nos batizarem "às escondidas" e escolherem eles mesmos nossos padrinhos.
Coube-me como padrinho meu avô. Figura masculina mais importante da minha infância, ele sempre foi tanto que o status de padrinho nada lhe acrescentou. Minha madrinha era quieta, uma dessas tias solteironas e beatas. O único brinquedo que me recordo de ganhar dela foi uma lanterninha verde, que aliás, nunca funcionou. No entanto, ela me deu aulas de catecismo, me ensinou algumas orações e, principalmente, sempre mandava rezar uma missa em minha intenção nos meus aniversários e Natal. Ela faleceu faz alguns anos e desconfio que essas missas e suas orações me fazem muita falta...
Minha irmã teve como padrinhos um casal de parentes, ele irmão da minha avó, creio. O tio faleceu logo, mas a tia era figura encantadora. Naquele tempo, crianças podiam andar na rua sozinhas e sem dizer aonde iam, e desde os meus 8 anos, eu ia muitas vezes à casa dela. Sobradinho pequeno, dois andares de cômodos enfeitados, quarto com sacada.... Parecia uma casinha de bonecas, e eu ficava horas, em paz, brincando com um caixinha de botões e bijuterias. Essa tia querida era dessas poucas pessoas que encontramos durante a vida na companhia de quem nos sentimos confortáveis no silêncio.
Em uma de minhas última visitas a ela, cheguei como sempre de surpresa, sem avisar. Havia com ela um rapaz bem novo, sobre a mesa um bolo e champagne, e ela, muito feliz, me disse:
- que bom que você veio, será a única convidada do nosso casamento.
Comi o bolo, brinquei, conversamos, me despedi com naturalidade, e ainda hoje fico feliz por saber que minha reação deva tê-la deixado feliz. Claro que quando cheguei na casa dos meus avós com a "novidade" do casamento, fui informada que não deveria mais ir lá por motivos morais que não me recordo, já que não devo ter prestado atenção na hora. Meus pais não endossaram a proibição, e fui ainda à casa dela, agora deles, mais algumas ocasiões, até que ela se mudou de cidade devido à pressão e preconceito. Tive poucas notícias dela, até sua morte, mas soube que foi feliz.
Essa madrinha da minha irmã deu a ela em um aniversário um livro que me pareceu, então, o mais lindo do mundo: A Sereiazinha, de Hans Christian Andersen. Meus contos de fadas preferidos são de Andersen: além desse, A Rainha da Neve e Os Cisnes Selvagens. E ainda uma menção honrosa para A Pequena Vendedora de Fósforos e O Rouxinol.
O conto de Andersen nada tem a ver com o desenho da Disney, muito bonitinho, mas sem a profundidade do original. Coloquei a história, com alguma adaptação, no post abaixo. Acho que é um tanto triste pelos padrões atuais, e sempre achei que foi-lhe exigido demasiado sacrifício. Mas encantei-me desde sempre com a pequena sereia que sente-se deslocada no mundo que conhece, enfrenta o perigo e a dor em busca do que almeja e ama desejando que o outro seja feliz.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
FINS
Tudo acaba, tudo passa.
Minha menina a cada dia se transforma. Agora vai perder o primeiro dente. Um novo marco, outra fase que fica para trás. Não é mais o bebê carequinha, nem a criancinha de cachos. É uma menininha de cabelos lisos e castanhos, que sabe ler, sabe escrever, dorme fora de casa, joga capoeira e, desconfio, descende dos peixes e não, do macaco. Ela mesma não se lembra de quase nada do que se foi. Vê fotos e vídeos de tão pouco tempo atrás e se espanta: "Essa sou eu? Eu estava lá? Eu já fiz isso?". Desembrulha seus dias sempre como um presente maravilhoso. Acorda acreditando em novidades.
Eu também já não sou mais o que fui. Não me reconheço. Mas aqui onde termino, é onde inicio. Tateando, caindo, aprendendo, percebo que o novo não vem sem mudança, sem espaço para chegar. Aquilo que se foi permanece em nós, às vezes como um marco na estrada que não queremos voltar a percorrer, outras como o farol que nos dá a esperança de prosseguir. É preciso esquecer um pouco do que fui para seguir sendo eu mesma, palimpsesto de emoções que se ocultam, mas não se esgotam.
Tudo se acaba, tudo passa. Mas no fim está o começo.
The Circle of Life
(Tim Rice/Elton Jonh)
From the day we arrive on the planet
And blinking, step into the sun
There's more to be seen than can ever be seen
More to do than can ever be done
Some say eat or be eaten
Some say live and let live
But all are agreed as they join the stampede
You should never take more than you give
In the Circle of Life
It's the wheel of fortune
It's the leap of faith
It's the band of hope
Till we find our place
On the path unwinding
In the Circle, the Circle of Life
Some of us fall by the wayside
And some of us soar to the stars
And some of us sail through our troubles
And some have to live with the scars
There's far too much to take in here
More to find than can ever be found
But the sun rolling high
Through the sapphire sky
Keeps the great and small on the endless round
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terça-feira, 6 de julho de 2010
UNPLUGGED
Arrumando as malas para viajar para as montanhas de Minas com minha filha e minha mãe, separei livro, notebook, internet portátil. Mas na hora de fechar as malas, deixei tudo isso de lado. Eu precisava de um tempo assim, de olhar para dentro de mim e para fora, para a vida real. Dias inteiros de olhos nos olhos e não nas letras, sem refúgios escapistas. E lá fomos nós, logo após a derrota do Brasil para a Holanda.
Foram 3 dias maravilhosos em Gonçalves/MG. Dias de ser mãe e de ser filha. Em uma cidadezinha de morros e cercada de montanhas, bem como gosto. Mais importante, estivemos rodeadas de novos amigos. Fomos a um casamento único, daqueles de dar lágrimas nos olhos. Ainda mais especial porque a celebrante foi a minha mãe, escolhida pelos noivos, encantadora em suas palavras. E tudo estava lindo, pensado e feito com carinho. Eu há tempos queria conhecer o Kitanda Brasil, um restaurante que tem a alma da sua dona e os sabores da terra cultivada com amor. Eu, como sempre, logo comecei a fotografar tudo, desde os preparativos e... Minha máquina fotográfica pifou. Mistério das Minas Gerais...Muita energia, talvez... Ainda tentei usar o celular, mas não é que a bateria acabou após algumas fotos? Foi mesmo uma viagem para ficar eternizada lá onde ficam as coisas boas, na lembrança, e não escondida na memória do computador.
Minha menina foi um encanto. Ela cada vez me surpreende mais com sua sabedoria. Pensei tolamente que seria uma ótima oportunidade para conversar com ela sobre diferenças, já que havia muita coisa inusitada, pessoas diferentes. Porém, é ela quem sempre me ensina que somos todos iguais. Ela sequer estranhou o cardápio. Ao contrário, enquanto algumas crianças escapavam da festa para comer PF na praça, ela me pediu pra voltar para almoçar o menu degustação no dia seguinte. E lá fomos nós, cometer a quase heresia de comer com pressa o que é feito para ser apreciado devagar... Contudo, inesquecível. O Kitanda já está entre meus lugares preferidos de todo o mundo.
Voltei pra casa para enfrentar uma segunda-feira difícil, fortalecida pela minha pequena gourmet, que não se cansa de me mostrar que a vida é para ser saboreada. Com calma.
Voltei pra casa para enfrentar uma segunda-feira difícil, fortalecida pela minha pequena gourmet, que não se cansa de me mostrar que a vida é para ser saboreada. Com calma.
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