"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."
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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

MAIS DO MESMO

A cidade onde moro é cortada por um rio. Todos os dias, para ir e voltar do trabalho, atravesso uma ponte sobre ele. É um rio de águas escuras, barrentas. Ainda assim, dia a dia me encanto com seus pássaros, suas margens, as mudanças causadas pela luz do sol. 
Ao por do sol, ele é sempre belo. Não resisto: faço, ao celular, fotos quase diárias do rio que imita o céu. As fotos, confesso, são ruins e pouco diferem entre si. Que me importa? Esse ritual tolo revela muito de mim. Aquilo que me encanta é belo, e nunca me cansa. Provoca sempre a sensação de primeira vez. Arrebata-me! Encontro sempre o novo no que amo, e desafia-me que seja sempre igual e nunca o mesmo.

Gosto de descobrir o desconhecido que já conheço.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

PALIMPSESTO

Eu amo o cheiro das noites de verão. Cheiro da terra que libera o calor guardado durante o dia: de maneira preguiçosa enquanto a noite cai, ou violentamente sob a chuva. O verão é a minha estação, é a que constrói  minhas memórias afetivas. Basta o perfume da dama-da-noite para eu voltar à infância, onde cheiros, luzes e sons se misturam e sempre é o eterno pôr do sol de férias na praia ao mesmo tempo em que espio a tempestade da janela mais alta junto com minha mãe.




Minha menina vai fazer sete anos e espero que essas sejam as férias sobre as quais suas memórias serão construídas. Tivemos férias incríveis, nós duas junto a amigos queridos e generosos. Férias de ir à praia todos os dias, aprendendo com o mar que é sempre o mesmo e nunca igual. Férias de sol e águas transparentes, de caldos e capotes, de nadar sem roupa na chuva. Férias de pular no colchão, de dormir de cansaço, de Morango, de velhos sabores. Férias de aprender a fazer castelos de areia e descobrir que eles não duram, mas há sempre material para uma nova construção. Férias de passar a noite toda acordada conversando com quem já não está. Férias de café da manhã na cama, comida maravilhosa feita pelos amigos e do cachorro-quente mais caro do mundo! Férias de conhecer e reencontrar o Rio de Janeiro e criar novo significado para praia do Leblon.







E voltar para casa... Voltar e tentar fazer um ano verdadeiramente novo. Mudar a rota. Hoje, deitada na piscina com minha filha, o verão à nossa volta, olhando ora as nuvens, ora as estrelas, achei um novo norte.

"Mãe, as estrelas, mesmo quando se escondem, estão sempre ali para brilhar."



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

FOCO

O Marcelo Pereira de Carvalho, meu amigo talentoso, esteve viajando pela Nova Zelândia e tirou fotos incríveis. Entre tantas, uma me chamou a atenção pela escolha técnica que ele fez. Uma paisagem maravilhosa, lago azul, montanhas, picos nevados... E ele decidiu-se por destacar singelas flores amarelas. Escolheu o primeiro plano. 

Lake Hawea, Nova Zelândia, por Marcelo Pereira de Carvalho

No meio de tantas imagens lindas, essa voltou à minha mente várias vezes. Bela metáfora da vida. Escolhas. Foco. Podemos decidir fixar nosso olhar no horizonte distante, visualizar o futuro que não chegou. Ou podemos prestar atenção na beleza por vezes oculta do momento presente.
Tenho entendido que quem se entrega a devaneios não vive, que se deixar levar é uma forma de escolha, passiva, que nos rouba a autonomia. A espera do por vir não pode se estender indefinidamente. Os desejos convergentes se ajustam, é no ponto de fuga que aprofundamos a verdade.
Paradoxal que pareça, é o olhar para o agora, o cuidado na escolha de hoje, que vão nos aproximar do horizonte. As flores perecem, mas as montanhas continuarão ali, a espera de serem conquistadas. 

Sim, há essa dor, esse aperto no peito. O espanto dos olhos que não mais reconhecem o mundo. Há o vazio, o cansaço. A espera. À espera. Mas há, também, a recusa. Destino de outsider, não se conformar. Senhora dos meus labirintos, recuo e avanço, capaz, ainda, de me surpreender... E sigo a passos tortos, sem nada mais buscar, confiando ser encontrada.

terça-feira, 6 de julho de 2010

UNPLUGGED


Arrumando as malas para viajar para as montanhas de Minas com minha filha e minha mãe, separei livro, notebook, internet portátil. Mas na hora de fechar as malas, deixei tudo isso de lado. Eu precisava de um tempo assim, de olhar para dentro de mim e para fora, para a vida real. Dias inteiros de olhos nos olhos e não nas letras, sem refúgios escapistas. E lá fomos nós, logo após a derrota do Brasil para a Holanda.
Foram 3 dias maravilhosos em Gonçalves/MG. Dias de ser mãe e de ser filha. Em uma cidadezinha  de morros e cercada de montanhas, bem como gosto. Mais importante, estivemos rodeadas de novos amigos. Fomos a um casamento único, daqueles de dar lágrimas nos olhos. Ainda mais especial porque a celebrante foi a minha mãe, escolhida pelos noivos, encantadora em suas palavras. E tudo estava lindo, pensado e feito com carinho. Eu há tempos queria conhecer o Kitanda Brasil, um restaurante que tem a alma da sua dona e os sabores da terra cultivada com amor. Eu, como sempre, logo comecei a fotografar tudo, desde os preparativos e... Minha máquina fotográfica pifou. Mistério das Minas Gerais...Muita energia, talvez... Ainda tentei usar o celular, mas não é que a bateria acabou após algumas fotos? Foi mesmo uma viagem para ficar eternizada lá onde ficam as coisas boas, na lembrança, e não escondida na memória do computador.
Minha menina foi um encanto. Ela cada vez me surpreende mais com sua sabedoria. Pensei tolamente que seria uma ótima oportunidade para conversar com ela sobre diferenças, já que havia muita coisa inusitada, pessoas diferentes. Porém, é ela quem sempre me ensina que somos todos iguais. Ela sequer estranhou o cardápio. Ao contrário, enquanto algumas crianças escapavam da festa para comer PF na praça, ela me pediu pra voltar para almoçar o menu degustação no dia seguinte. E lá fomos nós, cometer a quase heresia de comer com pressa o que é feito para ser apreciado devagar... Contudo, inesquecível. O Kitanda já está entre meus lugares preferidos de todo o mundo.

Voltei pra casa para enfrentar uma segunda-feira difícil, fortalecida pela minha pequena gourmet, que não se cansa de me mostrar que a vida é para ser saboreada. Com calma.



Reparou que tudo esse coador individual? Coisas do Kitanda...

domingo, 4 de abril de 2010

PÁSCOA

A chuva caia em pingos isolados, que no chão uniam-se em grandes poças. Estávamos dentro de casa e eu a convidei: "vamos?"  
Eu e ela, juntas sob a chuva de Páscoa. E um arco-íris no céu. 
Há outras águas, das lágrimas que caíram e dos mares que nos esperam. Tudo passa e tudo muda. Mas há as exceções, aquilo que permanece imutável. O amor.
O tempo, hoje, é de acreditar.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

AMOR(A)

Tem tempo. Uns quinze anos, talvez mais. Fui passear com minha mãe na casa de parentes em uma cidade próxima. Na volta, paramos em um lugar lindo, cheio de árvores, plantas, flores. Minha relação com a natureza sempre fora de admiração e respeito - à distância. Não sei cuidar do verde, me atrapalho com quantidade de água, exposição ao sol... Amor platônico. Fico naquela contemplação muda e procuro casas alheias ou espaços públicos para satisfazer minha grande necessidade do verde. Ganhar flores também me faz feliz.

Naquele dia, fiquei encantada em conhecer um lugar onde se sabia tudo de paisagismo! Deslumbrada em conhecer estufas, viveiros. Tudo tão lindo! Na saída, ganhei uma árvore. Na verdade, uma muda de amoreira. Lembro-me bem de plantá-la. Mas o tempo foi passando e minha árvore se desenvolveu lentamente. Fui viver em outros lugares, voltei, fui de novo... Tantos caminhos. E minha amoreira sempre tímida, de poucos frutos.

Mas nesse ano, eu e minha menina vivendo juntas pelas primeira vez nessa casa, a amoreira cresceu como nunca. Encheu-se de flores. Pariu borboletas, amarelas, prateadas.
E está dando frutos, muitos frutos. Doces, que atraem pássaros e deixam marcas quando caem. Minha menina colhe amoras comigo. Lindas, a menina e a árvore. Olho e sei que antigos ensinamentos são muitas vezes sábios.
Mesmo quando a espera nos parece longa, aquilo que fazemos com amor rende bons frutos.
Para saber mais:

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