"É a vida, mais que a morte, a que não tem limites."

sexta-feira, 14 de maio de 2010

CAPOEIRA

Ela fazia balé. Um dia, cheguei para buscá-la e lá estava minha menina, toda descabelada, meia rasgada, sapatilhas sujas:

- Filha! O que é isso! Nem parece uma bailarina! Desse jeito, vou lhe tirar do balé e colocar na capoeira!

Ela, muito, muito feliz:

- Hoje, mãe?

E foi assim que o mundo perdeu uma bailarina e ganhou uma capoeirista.

O local onde ela faz as aulas é uma Academia muito antiga e tradicional na cidade. Um local bonito, mas meio mal conservado. O Mestre ensina não só a Capoeira, mas fala de história, de tradições, ensina música e instrumentos musicais da Capoeira. Esporte e cultura, de tal forma que uma hora e meia de aula freqüentemente se transformam em duas. É a coisa mais linda do mundo ver a alegria genuína dela ao treinar os golpes e jogar na roda. Concentrada, harmoniosa e bonita.

Na Academia é feito também um trabalho de inclusão social, de forma que no horário que ela freqüenta, a maioria dos alunos é bolsista. Gosto de ver que em todas as ocasiões em que minha filha se depara com o teoricamente diferente, ela aceita com naturalidade.

Ela sempre me lembra que não se trata de aceitar o diferente, mas ver a todos como iguais.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

SEGUE O TEU DESTINO



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
           

Fernando Pessoa

(Odes de Ricardo Reis)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

RELICÁRIO

Esse é um texto escrito com tinta invisível. Apenas o destinatário tem o calor necessário para decifrar a mensagem. É para ser lido através das palavras, lembrando-se dos sons que substituíram aquilo que seria dito. Abro mão das letras para vestir-me de sentimentos.

Talvez esses espaços em branco venham a ser preenchidos pela felicidade que está por vir.

Talvez o vazio seja uma antecipação do deserto que me espera.

Há só uma coisa que deve ser registrada, gravada, incrustada: 

Seja feliz.



segunda-feira, 19 de abril de 2010

O OUTRO LADO

Trago comigo paisagens internas. 

A cidade em que passei boa parte da minha infância é dividida pela linha do trem e pelo rio que a corta. É também cercada de serras. Para chegar ao mar, é preciso atravessá-las.
Assim também minha vida pode ser dividida em linhas imaginárias que cruzei. Algumas vezes voltei, outras não. Lembro-me do dia em que a ponte mais bonita e antiga da cidade partiu-se ao meio e caiu. Eu também tive esse momento em que não foi mais possível voltar atrás porque não havia mais o caminho. Aquela que fui já não estava lá.

Agora, há montanhas dentro de mim. Não sei o que se oculta do outro lado, e ainda não decidi se quero cruzá-las e avistar o horizonte sem fim, ou me conformar com o lado de cá, seguro e sem surpresas. Há um certo cansaço em se reinventar constantemente, mas a conformidade sempre me pareceu uma espécie de derrota.

Porém, não sou montanha, sou oceano. E a vida me navega.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

LIÇÃO DE CASA

A professora me falou que há dias em que minha menina não quer fazer nada na escola, fica distraída, não acompanha a turma. Não é sempre, mas me preocupa. Hoje, em uma conversa, pedi para que ela me prometesse que não ia mais acontecer:

- Mãe, não vou prometer isso. Não sei se vou cumprir. E você me ensinou que a gente só promete aquilo que sabe que vai fazer.

Não sei não... Mas acho que as lições mais importantes, ela está aprendendo direitinho.


(update: ela acaba de escrever a primeira frase sem ajuda, agora, às 20h40 do dia 16/04/2010: "Ana eu te amo de paixão". Adivinhem se chorei?...)

domingo, 4 de abril de 2010

PÁSCOA

A chuva caia em pingos isolados, que no chão uniam-se em grandes poças. Estávamos dentro de casa e eu a convidei: "vamos?"  
Eu e ela, juntas sob a chuva de Páscoa. E um arco-íris no céu. 
Há outras águas, das lágrimas que caíram e dos mares que nos esperam. Tudo passa e tudo muda. Mas há as exceções, aquilo que permanece imutável. O amor.
O tempo, hoje, é de acreditar.

sábado, 3 de abril de 2010

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